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Entrevista

"Rio vive momento macabro" diz diretor do documentário Distopia::021

Assista ao filme independente que mostra como os preparativos para os megaeventos têm mudado a vida dos cariocas e como a população reage

Entrevista
21 de agosto de 2012
09:00
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De um encontro entre dois coletivos “artivistas”– o carioca Rio40Caos e o colombiano Antena Mutante – surgiu o documentário Distopia::21, sobre a transformação do Rio de Janeiro – na definição dos autores – em uma “cidade que vive uma tensão cotidiana, um projeto de apagamento da memória coletiva e o afastamento sistemático dos pobres do mar”. O filme também mostra o processo de resistência das pessoas a essa realidade.

Distopia:: foi apresentado nesta segunda-feira (20), na abertura do Festival Globale Rio 2012, uma mostra não competitiva organizada pelo coletivo Globale Rio, que promete exibir 21 filmes, entre ficções e documentários, sobre globalização e direito à cidadania. A mostra segue até o dia 1 de setembro e a programação completa pode ser vista aqui.

Em entrevista ao Copa Pública, o diretor Victor Ribeiro, falou sobre a produção do filme, totalmente independente, e sobre o momento que o Rio está vivendo: “macabro e singular”.

Abaixo, você pode assistir ao filme na íntegra.

Durante o processo de pesquisa e filmagem, o que mais te chamou a atenção?

A aproximação com comunidades transformadas pelo interesse do capital, com pessoas indignadas pelo pouco caso dos governantes com suas vidas, acompanhar despejos, demolições, manifestações dos movimentos sociais…É um processo bem intenso que nos choca em vários aspectos. Mas o que mais chamou a atenção foi realmente a capacidade de resistência das pessoas. De se reinventar, de ressignificar o espaço onde vivem e de articular com criatividade e força a luta pela garantia dos seus direitos.

Vocês tiveram algum tipo de apoio ou patrocínio? Como bancaram o filme?

O filme foi bancado com recursos próprios dos realizadores envolvidos, que não foram muitos aliás.  Por conta da proposta do trabalho, foi fundamental essa independência. Trabalhamos na lógica do cinema de guerrilha: equipamentos próprios ou emprestados, amigos colaboradores nas traduções, divulgação, etc… Um processo colaborativo interessante que deu um resultado bem satisfatório. Ficamos satisfeitos com o que fizemos e como fizemos.

Fale um pouco sobre o trabalho do Rio40Caos e da parceria com o Antena Mutante…

Rio40Caos é um projeto de “artivismo” que utiliza as ferramentas de comunicação na materialização das bandeiras de lutas sociais. Nosso principal papel é estar a serviço dos movimentos sociais e organizações de direitos humanos na construção de estratégias de comunicação e de enfrentamento à injustiça social, e pela luta da democratização da comunicação. Antena Mutante é um coletivo que faz o mesmo trabalho na Colômbia, interconectando coletivos e atores culturais com as lutas políticas… Nossa parceria surgiu em um encontro em setembro de 2011 no Lab de Cartografias Insurgentes aqui no Rio e se desdobrou para outros projetos aos quais daremos continuidade com a ida do Rio40Caos para Medellin e Bogotá neste ano para um evento sobre o Brasil no Instituto Tecnologico de Medellin.

Onde e para quem vocês pretendem apresentar o filme?

O filme tem sido exibido livremente pelas pessoas, nas ocupações do Rio, nas reuniões dos movimentos sociais, nas universidades, já exibimos em festivais universitários da Espanha, okupas anarquistas em Portugal, estamos com agendas para setembro na Colômbia…Mas a ideia é que ele esteja sempre disponivel na internet para visualização e download. Queremos que ele provoque o debate, a reflexão sobre a cidade e o que está sendo feito dela. Não temos um planejamento a longo prazo, tampouco um público alvo…Nos interessa o debate e sempre que possível tentamos estar presentes nos debates.

Como os preparativos para os megaeventos estão interferindo na vida das pessoas?

Os megaeventos integram uma agenda de cidade que não é para as pessoas. É para as commodities, para a especulação imobiliária, para o tal do capital estrangeiro, para o turismo de bolha predatório. Eu ouvi das pessoas com quem conversei que elas foram para a rua comemorar a eleição do Rio como cidade olímpica, se emocionaram com o choro dos governantes na TV e depois receberam a visita da prefeitura e ganharam um SMH (marca da Secretaria Municipal de Habitação nas casas que serão derrubadas) e um número na porta de suas casas, aí passaram a lutar contra a remoção. Esses eventos não são para essas pessoas e a ficha já caiu na cidade…Vivemos uma total Distopia, como o proprio filme discute. Está tudo muito claro: a quem interessa, quem se beneficia.

Vocês pretendem continuar a desenvolver este tema?

Com certeza. Estamos implicados com isso, não por acaso. Não estamos falando dos outros como cineastas carniceiros atrás de assuntos quentes, estamos falando de nós, de nossa luta pela sobrivência, pelo direito à cidade, pelo direito a vida, pelo direito à gestão participativa da cidade, pela construção e garantia de bens comuns, pela distribuição cultural livre, pelo acesso, pela mobilidade. Isso que nos motiva. Estamos agora envolvidos em um projeto sobre crianças e adolescentes em situação de rua e o recolhimento compulsório do choque de ordem, pesquisando sobre os abrigos para onde são levados e tudo que sofrem nesse processo. E infelizmente o tema não se esgota.o Rio de Janeiro vive um momento macabro e singular.

 

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

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