Buscar
Nota

Câmera em farda, perícia em 10 dias e ações fiscalizadas: o que decidiu a ADPF das Favelas

4 de abril de 2025
09:59
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Em decisão conjunta, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) aprovaram um plano de ação para o combate à letalidade policial nas operações em favelas do Rio de Janeiro, ao encerrar o julgamento sobre a ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, nesta quinta-feira (3). Entre as decisões mais emblemáticas estão as determinações de que o Estado adote medidas para garantir a preservação das evidências e dos locais em que houver mortes decorrentes de ações policiais e de que laudos periciais sejam concluídos em no máximo 10 dias.

A diretriz prevê a promoção de adequações, mensuração e monitoramento de dados sobre mortes de civis e policiais, além da instalação de câmeras em viaturas e fardas de policiais civis e militares. “A Corte entende que deve ser afastada a declaração de estado de coisas inconstitucional e que se deve reconhecer o compromisso significativo do Estado do Rio de Janeiro.” 

Por que isso importa?

  • A decisão do STF vai permitir que o combate ao crime no Rio de Janeiro sirva de laboratório para a criação de um modelo de operações policiais menos letais e mais amparadas da preservação do direito humano dos moradores de comunidades que possa ser reproduzido em todo o país.

Para o diretor executivo da Iniciativa de Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), Fransérgio Goulart, no entanto, as decisões tiveram um gosto “amargo” ao dar autonomia para a polícia julgar excepcionalidades nas operações nas favelas. 

“Em algumas operações, escolas e postos de saúde vão poder ser utilizados como base. A questão da entrada nos domicílios: ‘tem que ser de dia, tem que ser com mandato’ [previu a Corte], mas isso já tem em lei, já é constitucional. Helicóptero [por exemplo] vai poder ser utilizado como base de tiro”, destaca o diretor da organização, que participou do julgamento como amicus curiae (instituição autorizada a ingressar na Corte para fornecer subsídios às decisões de tribunais). 

“E tudo na base do ‘se’, ‘se o Estado justificar’. Mas se é o Estado que é o detentor da narrativa, ele vai dizer que é justificável atirar do helicóptero”, complementa Goulart. “Já estava claro que a mediação seria para a classe dominante, para a burguesia”, criticou.

Moradores da comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, acompanharam presencialmente o voto conjunto do STF sobre a ação que julga letalidade policial nas favelas. Crédito: Guilherme Cavalcanti/Agência Pública

Segundo o Boletim Direito à Segurança Pública na Maré, com dados de 2016 a 2024 monitorados pelo projeto “De Olho na Maré”, 2024 teve 42 dias de operações policiais na Maré — seis vezes mais do que em 2021. O levantamento aponta uma redução de 64% na letalidade policial entre 2022 e 2023, mesmo com o aumento das operações, o que, para o movimento, “derruba a tese de que a ação impediria a realização de operações policiais”.

“Não há, nunca houve, vedação às operações policiais em favelas. Elas são feitas e com grande frequência. O que tem funcionado são medidas que aumentam o controle sobre operações e tentam diminuir os seus impactos. As polícias reclamam porque não aceitam ser controladas, o que é uma herança de uma visão ditatorial sobre segurança”, afirma o diretor executivo da Educafro Brasil, Frei David Santos.

ADPF das Favelas: avanços na direção correta

Mais de 50 moradores da comunidade da Maré, incluindo mães e familiares de vítimas pela letalidade policial, acompanharam o julgamento no plenário da Corte. A ação tem sido considerada um marco na luta por direitos e segurança pública. Para a diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, o julgamento representou um avanço na participação de diferentes entes federativos.

“A ADPF 635 concretiza, de alguma maneira, o envolvimento de diferentes entes federativos na discussão da questão estrutural, que é como, de fato, garantir o direito à segurança pública para os moradores de favelas”, diz Silva.

Nesse contexto, o STF determinou a criação de um grupo de trabalho, sob coordenação do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e presidido pelo procurador-geral, Paulo Gonet, para fiscalizar a execução da decisão sobre a ADPF das Favelas. O grupo, de caráter consultivo e com participação da sociedade civil, realizará reuniões públicas semestrais e produzirá relatórios técnicos sobre a letalidade policial.

O prazo para a conclusão de laudos periciais foi comemorado pela diretora-executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho. “Isso é uma vitória muito grande para que violações históricas cometidas pela polícia não se repitam. Entre as medidas, destacamos que a investigação de homicídios decorrentes de intervenção policial seja feita pelo Ministério Público, para que haja independência. Além da prioridade da investigação de mortes envolvendo crianças e adolescentes.”

A presidente da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, deputada Dani Monteiro (PSOL-RJ), ressaltou que o ajuizamento da ação reconheceu um “estado de coisas inconstitucional” no Rio de Janeiro, onde os direitos fundamentais dos moradores de favelas são frequentemente ignorados em nome de uma política de combate ao crime que nunca se mostrou eficaz.

“Preservar essas conquistas e avançar para uma solução definitiva é essencial. Isso garantirá a proteção dos moradores de favelas e a consolidação de uma segurança pública eficaz, comprometida com a população, os profissionais da área e a redução real da criminalidade, para além das narrativas de medo e morte”, afirmou Monteiro. 

Edição:
Guilherme Cavalcanti/Agência Pública

Notas mais recentes

Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos


Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição
O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos
Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado
O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai
Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026