Buscar
Nota

Brasileiros criticam autoritarismo dos EUA, mas sonho americano ainda seduz mais que China

29 de setembro de 2025
12:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Tarifaço, ameaças de Donald Trump e risco frequente de deportações em série não são suficientes para alterar a percepção do brasileiro sobre o status dos Estados Unidos como referência democrática, especialmente quando o país é comparado à China. “A ideia de que os Estados Unidos é a grande democracia liberal do ocidente e a China uma ditadura comunista é difundida pela indústria cultural dominada pelos EUA, pelos meios de comunicação e mesmo pela experiência cotidiana dos brasileiros”, sintetiza o professor de pós-graduação em Estudos Comparados sobre as Américas Camilo Negri.

Apesar das pressões econômicas recentes dos norte-americanos contra o Brasil, o país ainda é visto como mais democrático e “melhor lugar para se morar” se comparado à China. Esse cenário foi mensurado por pesquisas da Nexus, realizadas em agosto com 2.005 entrevistados em todas as regiões do Brasil.

De acordo com os levantamentos, mesmo com a percepção de que os Estados Unidos agem de forma mais autoritária no cenário internacional e estimulam mais guerras, para 60% dos brasileiros, o regime norte-americano é visto como o mais democrático, contra 25% que atribuem essa característica à China.

A pesquisa mostra que os brasileiros separam a democracia interna do autoritarismo praticado pelos EUA contra outras nações. A China aparece como admirada mais por sua inovação tecnológica e capacidade produtiva, sem, no entanto, aspirar desejos de integração.

“O Brasil só reconheceu diplomaticamente a República Popular da China há 50 anos, e a China só se tornou um parceiro comercial relevante nos últimos 25 [anos]. É uma relação ainda muito nova, em que existe desconhecimento e temor em relação ao sistema político chinês”, explica o cientista político e professor do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha Maurício Santoro.

Outro fator que ajuda a explicar a percepção sobre os dois países é a dissociação entre o que se entende por democracia e relações internacionais. “As democracias podem ser extremamente agressivas e belicosas na sua política externa. É o caso dos Estados Unidos, foi o caso também da França e do Reino Unido. Ao passo que regimes autoritários, como o da China, podem ser bastante pacíficos”, explica Santoro.

Essa interpretação é compartilhada pelo professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) João Carlos Botelho que afirma que “a política externa chinesa é menos intervencionista do que a estadunidense, sobretudo em relação à América Latina”, e ainda assim, terem a imagem relativizada quando em oposição aos EUA. “Isso demonstra ingenuidade ou desconexão entre desejo e realidade, já que o governo Trump promove uma perseguição a imigrantes, inclusive política”, analisa Botelho.

“A difusão de valores como liberdade, inovação, oportunidades de ascensão social e referências culturais globais (Hollywood, universidades renomadas, principais bigtechs sediadas neste país) alimenta a ideia de que, apesar de seus excessos externos, viver nos EUA ainda representa acesso a mais direitos e melhores condições de vida”, complementa o sociólogo e diretor do Instituto Democracia em Xeque Fabiano Garrido.

Essa realidade se reflete, por exemplo, no quesito “morar fora”, especialmente quando o componente político é agregado: 81% dos bolsonaristas disseram que prefeririam viver nos EUA, contra 47% dos lulistas. Segundo Negri, o indicador mostra como o “american way of life” segue amplamente difundido e aceito no imaginário coletivo, “mesmo que a Europa ou até a China possam oferecer alternativas melhores”.

Apesar disso, Garrido avalia que desde o governo Trump, a imagem norte-americana vem mudando com as políticas que desgastaram sua credibilidade como referência democrática, como o endurecimento da política migratória, o tom nacionalista e xenofóbico e o uso de tarifas como pressão.

“Os impactos negativos desta política de extrema direita levada a cabo pelo atual governo norte-americano, associado a ampliação das relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e China, possibilitam, a meu ver, uma tendência de ampliação da percepção positiva sobre a China por parte de parcelas cada vez maiores da população brasileira”, diz o sociólogo.

Edição:

Notas mais recentes

Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas


Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado
Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas
Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno
Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar
Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição
O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança