Buscar
Nota

Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS

4 de agosto de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanon Ghebreyesus, acusa as Big Food, indústrias gigantes do setor da alimentação, de tentar dificultar esforços internacionais no combate à obesidade e na promoção de dietas mais saudáveis, obstruindo políticas de saúde pública e elevando em bilhões de dólares os custos aos cofres públicos das nações. A declaração foi feita após a publicação do especial O Povo contra as Big Food, uma investigação transnacional feita pela Agência Pública junto a veículos e universidades de 9 países, capitaneada pela Lighthouse Reports.

Ao menos 239 ações judiciais foram movidas contra órgãos governamentais no México, Colômbia, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia entre 2010 e 2025 e, ainda que quase 80% delas tenham representado derrotas para a indústria, serviram para enfraquecer órgãos regulamentadores e postergar o início de regulações já aprovadas. O exemplo mais longevo de disputa judicial do gênero se deu no Brasil, em que a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 24, da Anvisa, que definiria os parâmetros para publicidade de alimentos no país, segue sem efeitos práticos há 16 anos, devido a múltiplos questionamentos na Justiça.

“Esses atrasos custam bilhões aos países em despesas com saúde e custos legais e criam um ‘resfriamento regulatório’ que desencoraja governos de adotar proteções essenciais”, declarou Tedros em entrevista ao The Guardian, um dos parceiros da investigação transnacional.

“[A investigação] Não causa surpresa, mas é recebida com um reconhecimento sombrio. Quando o dano e o lucro estão vinculados ao mesmo produto, surge um padrão familiar de interferência da indústria: semear dúvidas e obstruir a regulamentação.”

O diretor-geral da OMS ressalta que a imposição de rotulagens nutricionais em embalagens, restrições à publicidade de alimentos não saudáveis e impostos sobre bebidas açucaradas são algumas das recomendações que vêm se mostrando eficazes no trabalho de promoção à saúde pública e no combate à obesidade, mas lamenta que muitas das medidas tenham avançado de forma mais significativa em países desenvolvidos de maior renda.

“Isso reflete uma inequidade mais ampla, não apenas no crescente ônus das doenças, mas também na capacidade dos governos de responder — uma inequidade que os litígios agravam, ao atrasar ações justamente onde a necessidade é maior.”

Em 2024, quase um bilhão de pessoas, uma em cada sete no mundo, viviam com obesidade. Dietas não saudáveis permanecem como um importante fator de risco prevenível para doenças não transmissíveis (DNTs), como doenças cardíacas, diabetes e câncer, que causaram pelo menos 43 milhões de mortes em 2021. Mais de sete em cada dez dessas mortes ocorreram em países de baixa e média renda. O custo econômico anual da obesidade e das dietas não saudáveis é estimado em trilhões.
Diretor-geral da OMS

No mundo, entre as ações em que os autores puderam ser identificados, quase metade dos litígios partiram de empresas como Coca-Cola, PepsiCo, Mondeléz, Kellogs, Danone e Ferrero, e em sua maioria, no México.

Tedros Adhonam, de um lado, lembra que “os governos podem apoiar uns aos outros ao adotar políticas robustas e obrigatórias e ao trabalhar juntos para fortalecer e implementar normas e estruturas internacionais que salvaguardem a saúde pública”.

Por outro lado, recomenda que as empresas encerrem as disputas judiciais e contribuam para adequações necessárias, ainda que reconheça que houve um avanço na redução de gorduras trans nos processos industriais em todo o mundo, o que deve ser celebrado.

“Esses esforços são bem-vindos, mas não são suficientes por si só para enfrentar a escala desta crise global de saúde”, conclui, junto a uma mensagem esperançosa: “O impulso para a mudança está crescendo”.

Notas mais recentes

Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros


PEC da Segurança Pública: votação fica para depois do 1° turno com aval de relator do PT


Fim da Escala 6×1 será votado no Senado em esforço concentrado antes do recesso eleitoral


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos

Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

|

Maior parte dos programas ignora prevenção a mortes ou violência sexual de crianças e sequer menciona primeira infância

Lula e Flávio, mais cautelosos que o usual, deixam público dar recados no 7 de setembro

|

Em SP, ato da direita levou menos gente às ruas que no ano passado; em BSB, Lula seguiu protocolo “seguro”