Buscar
Nota

Ações de reconstrução do Rio Grande do Sul são insuficientes, diz relatório da Anistia

28 de maio de 2025
19:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Entre 2023 e 2024, eventos climáticos extremos e a falta de preparo para lidar com seus impactos mataram 250 pessoas no Rio Grande do Sul, afetaram mais de dois milhões, deixaram 25 desaparecidos e resultaram em um prejuízo financeiro que se aproximou de R$ 100 bilhões. Um relatório da Anistia Internacional Brasil, lançado hoje, 28 de maio, aponta que as medidas adotadas pelo poder público até o momento devem ser insuficientes para lidar com novos desastres e não reparam os danos sofridos por grupos desproporcionalmente afetados.

Entre os principais problemas trazidos pelo relatório está a ausência de recursos específicos ou cronograma de implementação para as principais políticas de mitigação, prevenção e monitoramento do clima. Por outro lado, a reconstrução de vias e rodovias é a área campeã de recursos alocados do Fundo Financeiro do Plano Rio Grande (Funrigs), principal iniciativa estadual como resposta para o desastre.

A ONG também destaca que as políticas de assistência, incluindo as de auxílio moradia e aluguel popular, estão aquém das necessidades da população. As casas-contêineres, por exemplo, solução temporária do governo estadual, acabam deixando moradores sujeitos a condições insalubres, destaca o relatório.

Segundo a Anistia, o governo federal prometeu comprar ou construir até 22 mil imóveis, mas até o fim de janeiro, apenas 5,6 mil contratos haviam sido assinados e 448 obras tinham começado efetivamente. Por parte do governo estadual, houve a promessa de 2,5 mil casas, mas apenas 332 moradias temporárias foram entregues.

Para a diretora-executiva da organização, Jurema Werneck, o Plano Rio Grande mantém estratégias que já foram infrutíferas no passado e possibilitaram a recorrência das tragédias de 2023 e 2024, com efeitos cada vez mais graves, principalmente na população mais afetada pelas desigualdades”, diz.

As conclusões da Anistia vão ao encontro do que mostrou uma série de reportagens da Agência Pública, que investigaram a reconstrução gaúcha um ano depois da catástrofe. Segundo os especialistas ouvidos, o Plano Rio Grande tem avançado devagar, sem transparência e sem mirar em prevenção e os sistemas de monitoramento, previsão e alerta continuam falhos. O relatório da Anistia cita reportagens da Pública 14 vezes ao longo do texto.

O aprofundamento das mudanças climáticas, causadas especialmente pela queima de combustíveis fósseis – e, no caso do Brasil, que é o sexto maior emissor de carbono, pelo desmatamento –, deve aumentar a ocorrência de chuvas intensas em curtos períodos de tempo no Rio Grande do Sul. Isso reforça a relevância de que o poder público adote ações adequadas para enfrentar essa nova realidade – o que não tem ocorrido, de acordo com o relatório “Quando a água toma tudo – impacto das cheias no Rio Grande do Sul”.

Quilombolas, migrantes e refugiados deveriam ter atenção especial nos planos de reconstrução

A Anistia também chama a atenção para a ausência de políticas públicas focadas em enfrentar desigualdades sociais, raciais e de gênero, considerando que populações historicamente marginalizadas, como negros, quilombolas, indígenas, idosos e refugiados foram expostas a danos desproporcionais durantes os eventos climáticos extremos.

Segundo o documento, todas as comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul tiveram algum tipo de impacto e 70% dos territórios indígenas foram atingidos. Entre os migrantes e refugiados, mais de 43 mil pessoas foram afetadas, a maior parte delas venezuelanas e haitianas.

Entre as recomendações da organização não governamental estão a atenção específica a essas populações marginalizadas, o estabelecimento de um plano nacional de emergência com estruturas dialógicas e governança participativa e a adoção das políticas e metas internacionais de redução de gases de efeito estufa e combustíveis fósseis. O documento também direciona medidas que devem ser tomadas em âmbito estadual, como o fortalecimento da Defesa Civil, e municipal, como a revisão e atualização de planos municipais de emergência.

Edição:
Carlos Macedo/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 226 Michelle Bolsonaro e o voto das mulheres conservadoras – com Jacqueline Teixeira

Antropóloga Jacqueline Teixeira analisa a atuação das mulheres conservadoras na política

0:00

Notas mais recentes

Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil


Corrida eleitoral: Tarcísio de Freitas confirma candidatura e PT tem convenções estaduais


Estudantes brasileiros são ameaçados de morte após Argentina perder a Copa


Corrida eleitoral: partidos já podem oficializar candidaturas; vice de Flávio é incógnita


Caso Rafael: Após morte, MPF instaura investigação criminal contra plataformas de bets


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Ministério Público investiga flagrantes plantados por policiais no interior de São Paulo

|

Investigação resultou em mandados de busca e apreensão em endereços de dez PMs
Imagem aérea de fábrica da BYD em Camaçari

Os detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo

|

Parceira da BYD, Engenova incorporou quadro da Jinjiang, banida na lista suja, e tem sócia sediada em paraíso fiscal
Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL

As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

|

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

Letalidade policial na Baixada Fluminense dispara em 2025, mesmo com queda nas operações

|

Região com 13 municípios foi alvo de 5.298 operações policiais em cinco anos, segundo pesquisa; 282 pessoas foram mortas
Viatura da Polícia Militar da Bahia está parada em via pública.

As duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais

|

Uma em cada seis mortes violentas foram causadas por policiais; Nordeste concentra as 10 cidades com maiores índices

Tarifaço: Como a medida de Trump divide trabalhadores e empresários do setor de calçados

|

Sindicatos contestam pessimismo de entidades patronais, mas dados mostram desafios que ultrapassam Estados Unidos

Jornalistas e imprensa sofreram 204 ataques em 2025, aponta relatório da Abraji

|

Tipo mais comum de ataques foram insultos verbais, escritos e digitais, seguidos por agressões físicas