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Sicário: o que significa palavra de 2 mil anos, apelido de comparsa de Vorcaro

4 de março de 2026
15:20

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A palavra sicário atravessou dois milênios para chegar aos autos da Petição 15.556, que, na manhã desta quarta-feira, 4 de março, desencadeou a prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em decisão do ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF). Mendonça descreve Luiz Phillipi Mourão como o “sicário” do banqueiro. Coordenador de uma estrutura chamada “A Turma”, Mourão recebia R$ 1 milhão por mês para monitorar adversários, intimidar jornalistas e extrair dados sigilosos de órgãos públicos, incluindo os sistemas da Interpol e do FBI.

O termo sicário vem do latim sicarius — de sica — uma espécie de adaga curva, pequena o suficiente para ser escondida sob uma túnica. Em 81 a.C., o ditador romano Sula promulgou a Lex Cornelia de Sicariis et Veneficiis, que punia os assassinos de aluguel. Mas foi no século I d.C., na Judeia, sob ocupação romana, que os sicarii ganharam contornos de um movimento organizado. Eles eram radicais judeus que se misturavam às multidões durante festas em Jerusalém e apunhalavam alvos selecionados.

Historicamente, sicário evoca a ideia de um instrumento a serviço de um poder maior — alguém que age nas sombras para que o centro permaneça intocado. A Lex Cornelia, promulgada há mais de dois mil anos, reconhecia que o problema não era apenas o assassino: era a estrutura que o contratava. Por isso, punia tanto quem portava a adaga quanto quem encomendava o crime.

No caso da Operação Compliance Zero, a investigação identificou uma suposta organização criminosa com quatro núcleos: financeiro (fraudes), corrupção institucional (cooptação de servidores do Banco Central), ocultação patrimonial (lavagem de dinheiro) e intimidação (obstrução da justiça) — este último era o grupo de WhatsApp “A Turma”.

Como o sicário atuava

Em ambos os casos, tanto nos sicarii de Jerusalém quanto na “Turma” de Vorcaro, a violência é um instrumento de ação. Os sicarii matavam para impedir que a colaboração com Roma se tornasse norma. Já “A Turma” previa, segundo a investigação da PF, a intimidação de jornalistas e de funcionários. Os sicarii operavam em uma sociedade sem imprensa livre, sem Polícia Federal, enquanto Mourão opera em um Estado democrático com instituições que investigam crimes.

A PF descreveu em detalhes as operações de Mourão. Ele tinha acesso a sistemas restritos de órgãos públicos federais — Interpol, FBI, Banco Central, Receita Federal — e realizava buscas sobre pessoas consideradas ameaças ao grupo. Com essas informações, “A Turma” planejava estratégias de neutralização: desde a remoção de conteúdos críticos na internet até a pressão direta sobre jornalistas, ex-funcionários e autoridades.

Entre os alvos identificados pela PF estava o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Nas mensagens recuperadas do celular de Vorcaro, o banqueiro discute com Mourão a possibilidade de forjar um assalto contra o jornalista. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, escreveu Vorcaro. A troca de mensagens indica que Mourão se dispôs a executar a ação. Na decisão que autorizou a operação, Mendonça afirmou que o objetivo era “calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados”.

As comunicações interceptadas revelaram que Mourão recebia orientações diretas de Vorcaro, que então acionava seus contatos — policiais aposentados, ex-servidores públicos — para coletar dados e executar as intimidações.

A estrutura funcionava como uma espécie de vigilância privada. Enquanto Vorcaro captava recursos e estruturava fraudes financeiras, “A Turma” garantia que ninguém falasse, investigasse ou denunciasse.

Luiz Phillipi Mourão morreu

Segundo nota da PF, Luiz Phillipi Mourão atentou contra a própria vida sob custódia da PF em Minas Gerais, ainda na manhã de quarta-feira. Policiais federais realizaram reanimação e acionaram o SAMU. Mourão foi encaminhado ao Hospital João XXIII, em Minas Gerais. A PF informou que abrirá uma investigação interna sobre o ocorrido e disponibilizará registros em vídeo ao ministro André Mendonça.

A defesa de Luiz Phillipi Mourão informou, no fim da noite de sexta-feira, 6 de março, que o investigado havia morrido. Segundo nota divulgada pelos advogados, o quadro clínico de Luiz Phillipi Mourão evoluiu a óbito, o que foi legalmente declarado às 18h55, após o encerramento do protocolo de morte encefálica iniciado por volta das 10h15. Seguindo o protocolo legal, o corpo foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal. 

Texto atualizado em 07/03/2026 às 9h para inserir informação sobre o estado de saúde de Luiz Phillipi Mourão.

Edição:
Polícia Militar de MG

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