Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Reportagem

Araguaia: “Estamos mais perto da verdade”, diz juíza

Interrompidas pelas chuvas de verão, as buscas pelos restos mortais dos desaparecidos na guerrilha do Araguaia devem trazer resultados nas próximas expedições

Reportagem
3 de maio de 2011
12:27
Este artigo tem mais de 15 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Tropas do Exército Brasileiro chegando no Araguaia
Exército Brasileiro/Wikimedia Commons

“Continuamos enfrentando a resistência dos comandantes em entregar à Justiça os documentos exigidos, mas depoimentos de camponeses e militares trouxeram pistas importantes, que podem finalmente nos levar ao paradeiro de corpos nessa nova etapa”, disse à Pública a juíza Solange Salgado, da 1a Vara da Justiça Federal, em Brasília.

Embora não possa revelar detalhes dos depoimentos para não expor os informantes a riscos e pressões, a dra. Solange não disfarçou seu otimismo em conversas com a Pública nos últimos dias: “Estamos mais perto da verdade”, afirmou a juíza que esteve na região durante a última expedição, que se encerrou no final de outubro de 2010. O  GTT, comandado pelo ministério da Defesa, foi constituído em 2009 para cumprir a sentença proferida em 2003 pela juíza federal, em processo movido por familiares dos guerrilheiros mortos desde 1982. Até o momento, as buscas do GTT resultaram na localização de dois corpos ainda não identificados.

Os principais depoimentos de militares de baixa patente e camponeses, que ainda hoje vivem na região, no que se refere ao paradeiro dos corpos, são dos que participaram ou presenciaram fatos ocorridos durante a “Operação Limpeza”, ocorrida entre o final de 1974 e 1976. Muitos relatam a retirada de corpos nesse período, enterrados nos cemitérios de Xambioá e Marabá – e em outros locais da região onde presos foram torturados e mortos como a “Casa Azul” e as bases de Xambioá e Bacaba – que teriam sido embalados em sacos de lona e jogados na mata por helicópteros da Aeronáutica, (veja reportagem). Os relatos também são insistentes em outro ponto: o grande número de assassinatos de camponeses, acusados de colaborar com a guerrilha.

Centenas de camponeses mortos

As informações mais recentes obtidas pelo GTT – incluindo as realizadas por uma equipe da Justiça Federal – apontam para três conclusões até o momento: 1- apesar das sucessivas operações “limpeza” – que também ocorreram nas décadas de 1980 e 1990 -, os corpos continuam no Araguaia, em locais de difícil acesso; 2- o número de camponeses mortos pelas Forças Armadas e policiais da repressão é muito maior do que se tem notícia (“centenas”, segundo o ouvidor do GTT, Paulo Fonteles; “um número bem maior do que de guerrilheiros mortos”, segundo a juíza); 3- ainda hoje militares envolvidos no conflito monitoram a região para intimidar testemunhas e dificultar a localização dos corpos que, no entanto, não foram queimados nem retirados da região.

A intimidação das testemunhas, aliás, ocorre também durante as expedições do GTT, coordenada pelo Ministério da Defesa, que além dos necessários peritos e especialistas civis e militares, conta com mais de quarenta militares atuando no setor de “logística” da operação. “A chegada ostensiva de dezenas de homens fardados, armados, em uma região traumatizada inibe as testemunhas”, diz Diva Santana, representante dos familiares no Comitê de Supervisão do GTT – criado, exatamente, em virtude da reclamação dos parentes dos desaparecidos sobre a composição do grupo. Também há relatos de ameaças recentes sofridas por camponeses e ex-soldados que continuam vivendo na região.

Para evitar o aparato militar, uma equipe se deslocou de forma mais discreta, concentrando-se nos depoimentos dos que participaram das operações “limpeza” de 1975, enquanto as demais equipes ouviram principalmente os relatos históricos da guerrilha. Do trabalho dessa equipe, e de depoimentos ouvidos pela juíza em seu gabinete em Brasília é que vieram as informações que guiarão as próximas buscas.

“Tenho um princípio: recebo todo mundo que quer falar sobre o Araguaia”, explica a juíza Solange Salgado. “Tem gente que me procura dizendo ‘não quero morrer levando este segredo” e outros que têm medo de serem comprometidos no futuro”, diz. “Esse tem se mostrado um caminho bem mais promissor do que os documentos, até hoje não entregues pelas Forças Armadas”, afirma.

Leia mais:  “Houve mais camponeses mortos no Araguaia do que se fala”, diz mateiro do Exército

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Pública encontra destroços de bombas de napalm no Vale do Ribeira

|

Região a 200 km de São Paulo foi palco de operação de guerra durante a ditadura militar

Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive

|

Vias públicas batizadas em homenagem a torturadores e mandantes do regime militar estão presentes em todo o país

Notas mais recentes

Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Deputadas de Minas pedem suspensão de decreto de Zema que beneficiou mineradora Cedro


Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Leia também

Pública encontra destroços de bombas de napalm no Vale do Ribeira


Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia

Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência

Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master