Agência de Jornalismo Investigativo

Há cerca de 80 milhões de bombas que não explodiram ainda em todo Laos—são os resquícios letais de uma guerra secreta contra os comunistas levada a cabo pelos Estados Unidos há quatro décadas.

23 de setembro de 2011

A laosiana Liangkham Laphommavong tem um dos empregos  mais perigosos do mundo. Até o seu filho de 9 anos sabe disso, e protestou quando, no início de mais uma jornada, ele saiu para juntar-se ao grupo de 17 mulheres que rotineiramente colocam suas vidas em risco.

Em todo Laos, país que fica ao oeste do Vietnã, elas caminham por bucólicas plantações de arroz, florestas e montanhas – uma paisagem que esconde o perigo do seu trabalho. Laphommavong é uma caça-bombas, perscrutando terrenos rurais, centímetro por centímetro, em busca de bombas não explodidas.

Há cerca de 80 milhões de bombas que não explodiram ainda em todo Laos—são os resquícios letais de uma guerra secreta contra os comunistas levada a cabo pelos Estados Unidos há quatro décadas.

Pesquisando um campo suspeito, Laphommavong estava armada apenas de sua coragem e um detector de bombas portátil.

O seu rosto estava tenso enquanto ela olhada fixamente para o chão.  Com botas negras, caminhava deliberadamente em um campo de arroz não-cultivado; o detector soava repetidamente ao ser aproximado de pedaços de terra estéril e tufos de mato.

Ao longo de um ano em que ela trabalha como caça-bombas, o seu detector encontrou diversos objetos suspeitos. Quando o alarme soa mais rapidamente, também o seu coração acelera, avisando que é hora de ajoelhar para, com uma pequena espátula, cavar cuidadosamente e averiguar o que está debaixo da terra.

“Eu tenho medo todo o tempo,” diz a mãe solteira de 32 anos. “Temos que tomar cuidado a cada passo que damos. Sempre temos em mente que pode haver uma bomba”.

O Laos é o país com mais bombas não-explodidas por habitante do mundo. Durante a guerra do Vietnã, os EUA atiraram 270 milhões de explosivos no Laos em mais de 500 mil ofensivas militares.

Oficiais americanos dizem que mais bombas foram atiradas no Laos do que no Japão e na Alemanha juntos durante a Segunda Guerra Mundial. Muitas dessas bombas eram “cluster”, arquitetadas para ampliar o estrago ao liberar outras pequenas bombas quando atingemo solo.

Cerca de um terço destas pequenas bombas ainda não explodiu.

Na semana passada, delegados de dezenas de países se reuniram em Beirute, no Líbano, para pressionar outras nações, incluindo os Estados Unidos, a assinar um acordo internacional que visa banir o estoque mundial de bombas “cluster”.

Mais de 100 países já assinaram o acordo, firmado em 2008, mas alguns dos maiores produtores de tais armamentos — incluindo os EUA, a China e a Rússia – se negaram a assinar. N.T O Brasil também não assinou o acordo – há bombas cluster de fabricação brasileira enterradas em países como o Peru e a Colômbia.

300 atingidos por ano – metade dos mortos são crianças

A cada ano, 300 laosianos morrem ou são feridos por causa das bombas americanas. Os explosivos continuam sendo uma ameaça a camponeses que se arriscam ao arar os campos.

Oficiais do governo se referem às bombas não explodidas como UXOs.Mas por todo o país nos vilarejos e escolas, crianças a chamam simplesmente de “bombinhas”.

Bombas não explodidas aguardam sob folhas de árvores, pedras de rios, matos ou misturadas às pastagens. Estão espalhadas ao longo de estradas, em rios, próximas de escolas e dentro de vilarejos.

Cerca de metade das mortes por UXOs são de crianças que confundem as carapaças escuras, do tamanho de uma bola de beisebol, com brinquedos.

Em maio, três crianças entre 9 e 11 anos morreram ao encontrar uma bomba enquanto buscavam bambus na província de Savannakhet, uma área gravemente afetada durante a guerra pela sua proximidade com o Vietnã e a trilha Ho Chi Minh – que servia como canal logístico entre Laos, Camboja e Vietnã do Sul.

Sete anos atrás, em outra área severamente bombardeada, um UXO matou quatro crianças que estavam voltando da escola. Entre as vítimas estava o irmão de Pheng Souvanthone, então com 11 anos.

Hoje Souvanthone lidera o grupo de mulheres da ONG britânica MAG—Mines Advisory Group—uma de dezenas de organizações  estrangeiras que tentam ajudar o governo do Laos a se livrar dos UXOs.

Durante uma pausa na operação no campo de arroz, Souvanthone falou sobre o acidente que matou o seu irmão. Foi há muito tempo, mas ela diz que ainda hoje, enquanto busca bombas, seu coração se enche de memórias do pequeno.

Enquanto a equipe trabalhava, os camponeses seguiam com suas tarefas diárias. Uma mulher mal notou a presença dos caça-bombas, vestidos de verde e com seus chapéus largos. Um rapaz jovem entrou sem querer no campo de arroz e enquanto voltava da floresta onde foi buscar vegetais.

“Bombinhas” explodem inesperadamente

As crianças aprendem sobre as “bombinhas” bem cedo, algumas delas através de tragédias que afetam colegas de classe. Nas escolas elas aprendem a reconhecer as bombas e ter cautela sobre onde pisam e onde brincam. Se  encontrarem uma “bombinha”, são advertidas a manter distância.

Em outro vilarejo, Ladoune relembra as suas experiências com UXOs. Ele sabia que havia muitas bombas perto da sua comunidade. E sorri ao lembrar de sua infância, explorando as florestas e campos próximos. Uma vez ele encontrou uma “bombinha” e se afastou, como havia aprendido na escola.

Mas a mesma lição não o protegeu quando já era adulto. No ano passado, uma bomba explodiu na sua cara enquanto ele fazia uma fogueira no seu quintal. Como poderia saber que uma UXO estava enterrada bem no quintal da sua casa?

Ele perdeu um olho e um dedo.

Ladoune tem pouco mais vinte anos. Sua visão está quase totalmente prejudicada e seu futuro é incerto. Ele se pergunta como vai poder cuidar da sua esposa e dos dois filhos pequenos.

Quando sofreu o acidente, o rapaz recebeu promessas de auxílio do governo e de organizações internacionais, mas nenhuma ajuda se materializou. Ele ainda espera um prometido olho de vidro.

“Em quem devo por a culpa? E para que?”, ele pergunta.

Durante anos, autoridades americanas negaram que seus aviões tivessem cruzado o espaço aéreo do Laos durante a guerra do Vietnam.

“Nunca houve uma declaração clara reconhecendo a guerra, imagine uma admissão sobre a extensão dos bombardeios”, comenta Channapha Khamvongsa, diretora da ONG Legacies of War, sediada em Washington. “E a extensão do bombardeio foi tão grande”, diz ela.

Hoje, no entanto, no Departamento de Estado tem outra posição official: “Por cerca de uma década, o Laos foi duramente bombardeado enquanto os EUA tentavam interditar a trilha Ho Chi Minh, que cruzava o leste do país. Bombas não explodidas, em especial do tipo ‘cluster’, continuam sendo um grande problema”, avisa, no seu site.

Em 1996, a Força Aérea americana publicou documentos sobre os bombardeios contra o Laos entre 1964 e 1973, permitindo ao governo laosiano e a ONGs a refinar a busca por bombas não explodidas.

Pressões para que mais seja feito

Desde 1994, equipes de busca encontraram cerca de um milhão de bombas, depois de vasculharem menos de 90 milhas quadradas em um país do tamanho do estado de Minnesota. Cerca de três quartos do Laos ainda podem ter UXOs.

O governo do Laos evita criticar os Estados Unidos publicamente, deixando à comunidade internacional pressionar Washington.

Em uma carta ao Deparamento Estado, seis ex-embaixadores e delegados americanos no Laos se uniram ao Legacies of War para pedir ao Congresso que envie US$100 milhões nos próximos 10 anos para o programa de erradicação de bombas. Eles tentaram sem sucesso fazer com que a secretária de Estado Hillary Clinton visitasse o Laos e tratasse do tema durante sua recente visita ao sul da Ásia.

Mas apesar de pressões internacionais, representantes do governo americano também não foram em novembro último à capital do Laos, Vientiane, onde delegados de dezenas de países assinaram o acordo contra bombas cluster.

Pouco antes da reunião histórica em Vientiane, o governo dos EUA emitiu um comunicado dizendo que estava “comprometido a reduzir o impacto de resquícios explosivos da guerra sobre civis de todo o mundo”.

O governo dos EUA afirmou que desde 1993 gastou mais de US$51 milhões na remoção de UXOs e minas terrestres no Laos, sendo US$16 milhões nos últimos três anos. Também notou que o Departamento de Defesa treinou e equipou os caça-bombas.

Os Estados Unidos contribuíram com metade da ajuda financeira internacional para a tarefa, mas estão sob pressão para gastar mais.

Durante anos, o Laos insistiu que conseguiria lidar com UXOs sozinho, negando ajuda internacional. Mais recentemente, as autoridades admitiram que precisam sim de ajuda.

Pontinhos mortais em um mapa

No escritório de UXO do governo do Laos na província Xieng Khouang, um enorme mapa está tingido de vermelho, e cada pontinho significa um bombardeio aéreo sofrido. Em alguns lugares a tinta parece sangrar por causa da enorme concentração de pontinhos.

Um desses locais é a província  Xieng Khouang, no nordeste do país.

Ali está o sítio arqueológico “Planície de Jarros”, considerado Patrimônio Cultural da Humanidade, que ainda traz cicatrizes dos ataques aéreos americanos. Muitas das suas construções antigas de pedras foram gravemente atingidas.

As equipes de busca conseguiram limpar grande parte das bombas não explodidas, mas os turistas ainda são alertados a permanecer apenas nos locais designados como “livres de bombas”.

Em Phonsavan, maior cidade da província, carcaças de bombas americanas são grandes atrações na avenida de maior movimento. Uma fileira de mísseis, alguns deles com mais de seis pés de altura, formam uma espécie de cerca em frente às casas.

Há na cidade um centro de informações sobre UXOs, onde turistas e veteranos militares americanos aprendem sobre a mortalidade causada pelos bombardeios.

Mas Kinghpet Phimmavong, coordenador das operações caça-bombas do governo na provincial de Xieng Khouang, só conseguiu rir quando perguntado sobre quanto tempo levaria até que o país se livrasse de vez dessas bombas não explodidas.

“Depende de nós obtermos mais fundos para pagar mais pessoas para procurer as bombas” ele diz. “Assim tudo será mais rápido”.

Clique aqui para ler a matéria original, em inglês.

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