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Agência de Jornalismo Investigativo
23 de agosto de 2019
Texto: | Fotos:

Uma moradora prestes a se formar em jornalismo e um fotógrafo retratam as belezas da vida em uma das maiores favelas da zona norte do Rio

Eu poderia iniciar este texto, como é de praxe, me apresentando, falando um pouco sobre mim, quem sou, quais são minhas pretensões e objetivos etc. Mas vou começar apresentando minha “Comunidade”, o Morro do Turano, local onde nasci, fui criada e ainda vivo.

Nos últimos anos, como a maioria das favelas, o Complexo do Turano, formado por sete áreas e com mais de 13 mil habitantes, ganhou fama na mídia de ser muito violento e muito perigoso. Mas somente nós, moradores, sabemos qual a verdadeira realidade que há no interior de nossas “comunidades”, e portanto, como “crias”, podemos falar com exatidão o que acontece ou não lá em cima, no alto dos morros ou nas vielas das favelas planas. O Morro do Turano é um lugar maravilhoso e me dá muito orgulho dizer que sou de lá.

Começarei o rolé na favela pelo alto do morro, onde sua formação começou.

Fabrício Mota/Agência Pública
Vista privilegiada a partir da Divisa, caminho por dentro da mata que separa o Turano do Morro do Salgueiro. Dali dá para enxergar o bairro da Tijuca e parte dos municípios de Duque de Caxias e Niterói

Na parte alta, temos o Pedacinho do Céu, de onde podemos ter uma vista deslumbrante do bairro da Tijuca e boa parte da cidade. Um pouco mais abaixo, temos o Tanque, onde no passado as mulheres lavavam suas roupas e de seus patrões nos tanques coletivos, segundo os relatos de moradores mais antigos. Bem ali temos a Divisa, um caminho por dentro da mata que separa o Morro do Turano e o Morro do Salgueiro, com uma vista encantadora da Tijuca, adjacências e até de parte dos municípios de Duque de Caxias e Niterói, sem esquecer, é claro, da visão linda que temos do Maracanã, tesouro carioca.

Fabrício Mota/Agência Pública
Crianças posam na localidade conhecida como Tanque. O lugar tem esse nome pois, no passado, mulheres lavavam roupas dos patrões das casas onde trabalhavam no asfalto em tanques coletivos que ficavam na região

Descendo mais um pouco, temos a Raia. Segundo alguns antigos moradores, esse nome foi dado à época de formação da favela, quando o local fazia parte da fazenda de Turano, e o primeiro nome dado a essa área foi de Fazendinha. E, por causa do grande “arraiá” que os moradores faziam nos períodos de festa junina, acabou virando Arraiá e, como de costume entre os cariocas, abreviado para Raia. Nesse local há subdivisões como a Fazendinha, o Miolo, Entradinha da Chacrinha, Caminho da Caixa d’Água e a famosa Quadra da Vista Alegre ou Quadra da Raia – espaço onde a criançada se reúne para jogar uma bolinha e os adolescentes e os mais velhos também jogam suas peladas. Nas noites de fins de semana, rola o famoso baile de swing, o conhecidíssimo, na Comunidade, Swing da Raia, para onde a galera parte para curtir e dançar ao som de Bebeto, Jorge Benjor, Banda Copa Sete, Elson do Forrogode etc.

E vamos descer mais um pouco, pois mais abaixo temos o local chamado de Televisão, que tem esse nome por ter uma visão bem ampla da Matinha e de outras partes da favela que ficam no Rio Comprido. Mais uma descidinha e chegamos no Piauí, onde funcionava a vendinha de um antigo morador, infelizmente já falecido. Ele alugava quitinetes para quem precisasse de moradia, e quem ia dizia que “morava no Piauí”.

Fabrício Mota/Agência Pública
Nunca falta futebol na Quadra da Matinha

Que rolezão, né? E nem andei pelo alto do morro todo, pois esta favela, como eu disse no início, é muito grande, uma das maiores da zona norte, e estou passeando por uma das partes que fica na Tijuca. Mas vamos continuar descendo, porque estou chegando na Igrejinha, local que ainda é chamado assim pelos antigos moradores, pois ali funciona até hoje uma igreja evangélica bem antiga. Abaixo temos o Beco da Macua, ou simplesmente Macua, local que durante algum tempo foi considerado uma das partes mais agitadas do morro porque os moradores são pessoas bem decididas, digamos assim, e, quando há qualquer injustiça por parte da PM, eles se unem e fazem bastante barulho, mobilizando até mesmo moradores de outras áreas.

Saímos da Macua e chegamos à Escolinha, onde funciona a Escola Municipal Frei Cassiano, que, segundo contam os antigos, o próprio frei ajudou a construir e a inaugurar no início da década de 1970, assim como inaugurou também o Posto Policial da Polícia Militar, que foi desativado por um tempo para instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no período do governo de Sérgio Cabral (PMDB), e depois voltou a funcionar. Ao lado tem um caminho que vai dar na Matinha, ou o Beco do Posto, que também faz parte da Escolinha.

Nos fundos da escola há um caminho como se fosse um corredor, onde funciona um comércio com algumas tendinhas, lojinhas, barraquinhas e um hortifrúti. Algumas dessas tendinhas que funcionam por ali são bem antigas, como a Tendinha do Manuel do Cardoso, bar que pertencia a um senhor português de mesmo nome e, com seu falecimento, acabou passando para o filho. Ele também alugava quitinetes em beco próximo ao bar e, com isso, o local acabou sendo batizado com seu sobrenome, o Beco do Cardoso. A antiga Tendinha do Seu Zé, que passou também a ser administrada por seus filhos após ele ter adoecido e falecer. E, por último, a Tendinha do Pelado, filho de Seu Zé, que herdou do pai o tino para os negócios, mas infelizmente, em abril deste ano ele, adoeceu e acabou nos deixando, para tristeza da maioria de nós que já éramos habituados à sua irreverência e alegria – usando o linguajar da favela, acostumados com sua“zoação”.

Agora estou chegando na parte do morro que, modéstia à parte, é a melhor e a que eu mais amo desde a infância, pois foi onde nasci, cresci, me tornei mãe e, agora, avó.

Fui descendo bem tranquila e cheguei no Chapa, cujo nome foi dado por um grupo de amigos rapazes no início dos anos 1990, em homenagem a um outro grupo antigo também de rapazes amigos das décadas de 1960 e 1970, que se reuniam no local e era chamado de Turma do Chapa. O grupo, além de se reunir todos os dias, fazia festas na rua para os moradores, principalmente no Dia das Crianças. Usavam camisetas com o nome da turma e de cada integrante; tinham uma espécie de logomarca.

Fabrício Mota/Agência Pública
Seu Rosendo no balcão do bar dele, localizado na rua principal da comunidade, a Joaquim Pizarro. Ali não faltam cerveja gelada e um bom carteado

Com a fama da Turma do Chapa, os moradores, não só desta parte, mas também das outras partes do morro, passaram a chamar aquela área de Turma do Chapa e, depois, apenas de Chapa. Novas gerações de grupos amigos foram surgindo e perpetuando o nome dos antigos. Os dois grupos anteriores não se reúnem mais, mas o nome que deram ao local acabou sendo eternizado nas letras de funk do MC Menor do Chapa, que também foi morador de lá.

Fabrício Mota/Agência Pública
Antigos moradores aproveitando o feriado no Bar do Rosendo, na localidade conhecida como Chapa. Na década de 1960, se reunia nesta região uma turma de amigos, chamada “Turma do Chapa”, para jogar bola, conversar e festejar

Mas não é porque a Turma do Chapa não se reúne mais que a animação parou, pois os fins de semana continuam “bombando”, com muito forró no Bar do Ivanildo, com pessoas nos outros bares e na rua curtindo um funk, bebendo aquela cerveja gelada, crianças brincando, e por aí vai. E nos dias de jogos a galera se reúne nas portas das tendinhas para assistir ao futebol. Mesmo com tantos problemas, que todos nós sabemos quais são, ainda assim tentamos levar a vida com um pouco de alegria.

Fabrício Mota/Agência Pública
Uma mulher grávida aguarda seu sexto filho, enquanto admira a cidade do alto do Turano, na localidade do Pedacinho do Céu. Próximo dali, fica o Caminho dos Padres, referência ao Palácio Apostólico do Sumaré, antiga residência do ex-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Sales, e onde já se hospedaram dois papas em visita ao povo carioca

Ali no Chapa eu cresci, brinquei muito na rua, escorreguei na ladeira, conhecida como Estradinha Nova, corri atrás de doces no dia de Cosme e Damião, subi em árvores no terreno do antigo e já extinto Colégio Santa Dorotéia. Em dias de falta d’água, enfrentei filas junto de outros moradores para pegar água na Caixa- d’Água, uma área bem ampla onde funciona uma subestação da Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae).
Como uma criança de favela, tive uma infância e uma adolescência simples, mas bem legal. E quando meus filhos nasceram, mesmo em épocas bem diferentes, também puderam aproveitar a infância, apesar das inúmeras dificuldades.

Dei uma parada no Chapa, mas vou continuar o rolé pelo Turano descendo e passando pela Barra Funda até chegar à Escadinha, a escadaria que dá em frente à quadra do antigo Bloco Carnavalesco Cometa do Bispo, que foi fundado no ano de 1962 e ainda está em atividade. Além dos ensaios do bloco, o espaço também é utilizado em comemorações de festas, bailes etc.

Fabrício Mota/Agência Pública
Menino pronto para o futebol espera os companheiros na Capelinha, sentado à porta da igreja católica que existe ali

Do outro lado da rua, fica o Colégio Estadual Herbert de Souza, que atende alunos não só do Morro do Turano, mas também de outras favelas adjacentes.

Nos fins de semana, as quadras poliesportivas são liberadas para lazer das crianças e até para escolinhas de futebol e de artes marciais. Próximo ao colégio, agora passou a funcionar um dos pontos de mototáxi, e há alguns anos naquela área, após as obras do programa Favela Bairro, passou a funcionar um comércio de prestação de serviços, como oficinas e barbearias. Aumentou também o número de moradias até a entrada do morro, que chamamos de Curva, onde funciona uma borracharia e, mais recentemente, passou a funcionar um bar e lanchonete, que fica mais precisamente na rua Barão de Itapagipe, ou simplesmente “Barão”, como nós, moradores, costumamos chamar.

Nossa, desci até o pé do morro, e observo como tudo mudou da minha época de criança para cá, como tudo ficou tão diferente. Não existe nem mais o poste de madeira da Light, quando a energia caia, íamos balançar para que a luz voltasse. Pois é, muita coisa mudou na favela e, por que não dizer, para melhor, mas ainda há muito o que fazer dentro do meu querido Morro do Turano, muitas melhorias são necessárias para nós, moradores, termos uma boa qualidade de vida.

Bem, já apresentei minha amada Favela, meu querido Morro do Turano. Agora vou me apresentar.

Olá, ou usando nosso linguajar próprio da favela, e “aí manas e manos, fala tu, suave”? Me chamo Carla Regina, tenho 45 anos, sou mãe de três filhos, avó de quatro lindos netos e sou cria do Morro do Turano desde 8 de fevereiro de 1973, saindo da maternidade direto para lá, onde vivo até a data de hoje. E espero que tenha conseguido “passar a visão” de muitas coisas interessantes e agregadoras para os leitores da Agência Pública.

Uma versão deste texto foi publicada originalmente na Agência de Notícias das Favelas.

Ensaios

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