Buscar
Coluna

A cerveja, as mudanças climáticas e o que isso tem a ver com o marco temporal

Produção agrícola vai ser altamente afetada pelo aquecimento global; terras indígenas servem de escudo contra isso

Coluna
29 de setembro de 2023
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

No último fim de semana, quando o país batia recordes de temperatura e aparecia em mapas meteorológicos como um dos locais mais quentes do planeta, vi num grupo de WhatsApp de ambientalistas um deles compartilhando uma matéria que tinha saído uns dias antes: “Pode faltar cerveja com as mudanças climáticas, diz CEO de cervejaria”. 

Junto com o print da reportagem, ele comentou: “Agora vai”. Como quem diz: se o risco de faltar cerveja não mobilizar as pessoas a lutarem contra as mudanças climáticas, não sei o que vai. Outro participante do grupo emendou: “A humanidade nunca esteve tão perto da extinção”. Não é? Imagina ter de passar pelo aquecimento global sem ao menos uma cerveja gelada para aliviar?

Era uma brincadeira, claro. Mas que evoca uma discussão importante neste campo: o que mobiliza as pessoas? Uma das estratégias é aproximar o problema do dia a dia, da saúde, da alimentação, do transporte. Mostrar como a rotina pode ser afetada. Em geral, quando pensamos em aquecimento global, a imagem mais rápida que se forma na cabeça é das ondas de calor, dos eventos extremos, do derretimento de gelo, do aumento do nível do mar. Mas, além do desastre, o que mais ele significa? 

E se há uma coisa diretamente na linha de frente da mudança do clima é a agricultura. Pode faltar cerveja porque a produção de cevada e de lúpulo, ingredientes principais da bebida, será afetada com as altas temperaturas. A análise feita pela cervejaria japonesa Asahi considerou cenários futuros, mas produtores de lúpulo na Alemanha já estão constatando esses efeitos agora. 

“Depois de uma temporada de cultivo marcada por temperaturas escaldantes, secas prolongadas e tempestades violentas, a safra de lúpulo da Alemanha no ano passado sofreu uma queda mais acentuada do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial”, apontou uma reportagem do The New York Times do início do mês, reproduzida pela Folha.

Não liga para cerveja? Escolha sua bebida favorita. Já saíram relatos semelhantes sobre vinho (aqui e aqui, só para citar alguns dos mais recentes), sobre uísque (link em inglês), até sobre a margarita! Ok, a gente vive sem álcool (será?). E um mundo sem chocolate, batata e peixe, como sugerido nesta reportagem da BBC? Café e laranja podem virar artigos de luxo, indica esta outra, da RFI. 

No Brasil, os agricultores sabem o que está acontecendo. Têm evidências no seu dia a dia dos impactos do clima. O Rio Grande do Sul, estado fortemente atingido por eventos extremos, teve quebras de safra nos últimos anos com uma seca severa. Agora, é castigado pelas fortes chuvas. O ciclone extratropical do início de setembro coincidiu com a floração do trigo

Conversei brevemente com o pesquisador Francisco Aquino, do Centro Polar e Climático da UFRGS, nesta semana para entender o que está acontecendo no estado. Por que tantos eventos trágicos em sequência. Ele lembrou que lá eles sempre tiveram ciclones extratropicais, granizo, ondas de calor, ondas de frio. 

Mas, nas últimas décadas, as ondas de calor estão mais intensas e mais longas. A ocorrência de chuvas com granizo aumentou, o que é um indicativo de que as chuvas severas também aumentaram. Quando um ciclone, acompanhado de uma frente fria, se choca com ar muito quente e umidade vindos da Amazônia, tem-se o estrago. Um cenário piorado pelo El Niño e pelas mudanças climáticas. Está tudo mais quente. 

Não lidar com o que deixa tudo mais quente é permitir que mais e mais eventos desses aconteçam. E aí eu tento chegar na provocação que fiz no título desta coluna: o que o marco temporal tem a ver com essa história.

Bem. Nesta quarta-feira (27), em votação a jato, o Senado resolveu bater de frente com o Supremo Tribunal Federal (STF) e aprovou um projeto de lei que institui o marco temporal – conceito que estabelece que terras indígenas só podem ser demarcadas se estivessem ocupadas na data da promulgação da Constituição. A aprovação ocorreu menos de uma semana depois que o STF decidiu, por 9 x 2, que o marco é inconstitucional. 

A votação no legislativo foi capitaneada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que elegeu o tema como uma de suas prioridades. Há no Brasil diversos casos em que agricultores tomaram para si áreas tradicionalmente ocupadas por populações indígenas, instalaram suas produções e não querem, agora, correr o risco de perdê-las. 

Até existem casos em que esse processo se deu dentro de algum verniz de legalidade, ou na boa-fé, como dizem os juristas. O Supremo decidiu que, nesses casos, até cabe indenização da terra nua. Estima-se que não seja o caso na maioria das zonas de conflito. A bancada ruralista, no entanto, dobrou a aposta. Quer o marco de todo jeito. 

Por semanas, a FPA postou vídeos em suas redes sociais apelando para a emoção, com pequenos agricultores lamentando que perderiam suas terrinhas. Fiquei pensando por que nunca vemos uma campanha similar com agricultores que perderam tudo porque as mudanças climáticas devastaram sua plantação.

Vou fazer um exercício bem simplório, aqui, de ligar os pontos para terminar. O aquecimento do planeta e os eventos extremos associados se dão porque há muitos gases de efeito estufa na atmosfera. A maior parte disso vem da queima de combustíveis fósseis, mas cerca de um quarto é proveniente da mudança do uso da terra. Ou seja: por desmatamento e agropecuária. No Brasil, a maior parte das emissões vem dessas fontes. 

Por outro lado, sabe-se que as terras indígenas, em especial no país, são os locais em que a floresta é mais preservada. Ou seja, os que mais contribuem, justamente, para absorver gás carbônico da atmosfera, ajudando a proteger o clima do planeta. De modo que, em resumo, haver terra indígena no país deveria ser prioridade para o agronegócio. É bom para a produção de café, de vinho, de cerveja…

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal

Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA

|

BNDES incentiva produção para transição energética, mas empresas firmam laços com a indústria militar norte-americana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), discursou na convenção partidária e oficializou sua candidatura.

Lula aposta no combate ao feminicídio para fortalecer apoio entre eleitoras em 2026

|

Apesar de acenar para as mulheres, nenhuma mulher, nem mesmo Janja, havia sido escalada para discursar no evento

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática

Meta, Telegram e X fecham acordo com TSE sobre desinformação sem punição caso não cumpram

|

Termos mostram plataformas tentando se blindar de responsabilidades sobre conteúdo desinformativo nas eleições de 2026