Buscar
Coluna

Quando a moda e o sistema financeiro dão aquela forcinha para o desmatamento

Estudo relaciona Zara e H&M com algodão de áreas cortadas no Cerrado; bancos são acusados de bancar desmate na Amazônia

Coluna
12 de abril de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Ouça Giovana Girardi

Giovana Girardi

Estudo relaciona Zara e H&M com algodão de áreas cortadas no Cerrado; bancos são acusados de bancar desmate na Amazônia

0:00

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Não é confortável, eu sei, mas você costuma pensar de onde vem o algodão da roupa que você veste, ou onde foi criado o boi que virou o bife no seu prato? Qual foi o caminho do campo até seu guarda-roupa, até sua cozinha? Se você soubesse que houve alguma irregularidade em algum ponto dessa produção, você deixaria de comprar esses produtos? 

É mais ou menos nisso que apostam dois estudos elaborados a partir de investigações de ONGs ambientalistas divulgados nesta semana. Quer dizer: mais do que apontar o dedo diretamente para quem está no fim dessa cadeia – eu, você, o consumidor comum –, eles jogam luz sobre as relações entre possíveis crimes ambientais e os fornecedores. Ou entre esses crimes e suas fontes de financiamento. Com a expectativa de que, ao revelar essas relações, seja possível combatê-los, ou ao menos para inibi-los. 

O primeiro estudo, lançado nesta segunda (8), pelo Greenpeace, revelou que bancos privados e públicos, como Banco do Brasil, Caixa e Banco da Amazônia, têm concedido crédito rural para milhares de propriedades na Amazônia com algum tipo de irregularidade, como sobreposição com unidades de conservação e terras indígenas, envolvimento com grilagem e desmatamento. Muitas delas estavam, inclusive, embargadas pelo Ibama, o que deveria ser um impeditivo automático para a concessão do crédito.

De acordo com o levantamento, 41 imóveis financiados estão em áreas de proteção integral, onde, pelas regras do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, não pode haver nenhuma atividade econômica. 

Foram também identificados entre os beneficiários de crédito rural 24 imóveis que ficam dentro de sete territórios indígenas, como os Kayabi (MT), Urubu Branco (MT), Amanayé (PA), Rio Omerê (RO), Arariboia (MA), Alto Rio Guamá (PA) e os Uru-Eu-Wau-Wau (RO). Essas áreas são de uso exclusivo dos povos indígenas.

O trabalho detalha 12 casos específicos que, juntos, receberam mais de R$ 43 milhões em crédito rural e somam diversas irregularidades socioambientais na Amazônia. Recomendo a leitura de uma reportagem da Folha bem completa sobre o estudo, trazendo, inclusive, o posicionamento dos bancos, que dizem estar fazendo sua parte para evitar esse tipo de situação e que alguns dos créditos já foram cancelados. O Greenpeace, porém, identificou casos ainda em andamento. 

Ainda sobre esse estudo, recomendo também a leitura de reportagem do site Infoamazonia, que mergulhou no caso dos Uru-Eu-Wau-Wau.

Talvez você possa estar pensando que não têm muito a ver com cada um de nós as decisões que os bancos tomam. Bem, tem banco público na parada. E lembre-se de que também é com o dinheirinho guardado de cada correntista que se faz boa parte dessas operações. 

Mas o segundo relatório lançado nesta semana talvez mexa um pouco mais com os brios de quem se preocupa com a própria responsabilidade sobre como os seres humanos estão arruinando o planeta. 

“Crimes da Moda”, elaborado pela ONG britânica Earthsight, investigou a cadeia do algodão que abastece gigantes internacionais de roupas, como a Zara e a H&M. De acordo com o levantamento, as marcas usam algodão produzido pelas empresas Grupo Horita e SLC Agrícola, instaladas no oeste da Bahia, em região de Cerrado, e que têm histórico de denúncias de desmatamento e grilagem. 

O desmatamento no bioma vem crescendo nos últimos anos, e onde o problema mais avança é justamente na região conhecida como Matopiba (que envolve partes de Maranhão, Tocantins, Piauí e o oeste baiano).

O relatório destaca que a H&M e a Inditex, dona da Zara, são as maiores empresas de vestuário do mundo, com lucros combinados de cerca de US$ 41 bilhões em 2022 e cerca de 10 mil lojas espalhadas em diversos países.

Por outro lado, o Brasil é hoje o segundo maior exportador mundial de algodão, atrás apenas dos Estados Unidos. As exportações mais que dobraram nos últimos dez anos, de acordo com o levantamento, sendo que a maior parte é cultivada no Cerrado.

Investigando a cadeia produtiva ao longo do último ano, os pesquisadores identificaram que as empresas europeias adquirem suas peças de fornecedores localizados na Ásia. São esses que compram o algodão cultivado no oeste da Bahia, em especial dos dois maiores produtores do país: o Grupo Horita e a SLC Agrícola. 

Nos últimos anos, diversas denúncias vêm sendo feitas sobre essas empresas com suspeitas de violações de direitos de populações locais, grilagens e desmatamentos ilegais. Aqui na Pública mesmo, já escrevemos sobre a SLC e sobre o Horita. Recomendo também uma reportagem desta quinta (11) do De Olho nos Ruralistas sobre o relatório da Earthsight.

Interessante, como destaca o levantamento, é que as gigantes da moda têm feito campanhas pesadas para promover que o algodão que usam é sustentável, contando, para isso, com o selo Better Cotton, um sistema que rastreia cadeias de roupa e fornece certificação. O algodão das produtoras brasileiras têm esse selo, de acordo com a ONG, mas o processo de certificação como um todo tem falhas, ressalta.

Cito um trecho: “A exigência de que um produtor cumpra as leis locais é excessivamente vaga e nada diz sobre propriedade da terra ou disputas fundiárias. Uma nova proibição da conversão de ecossistemas naturais após dezembro de 2019 não aborda o desmatamento ilegal ocorrido antes dessa data. Seu novo sistema de rastreabilidade, a ser implementado nos próximos anos, também é lamentavelmente inadequado, uma vez que só consegue rastrear o algodão até o país de origem, e não até as fazendas onde o algodão foi plantado. As regras sobre a mitigação de danos aos povos indígenas e tradicionais aplicam-se apenas às comunidades fora dos limites das fazendas, ignorando as violações contra aqueles cujas terras foram roubadas. Por outro lado, os critérios destinados a proteger as comunidades locais dentro dos limites das fazendas não exigem que os fazendeiros obtenham seu pleno consentimento para projetos que afetem seus meios de subsistência”.

Após as revelações, a certificadora afirmou à Earthsight que “confiou a um auditor independente a missão de fazer visitas de verificação reforçadas”. Todas as empresas enviaram respostas à ONG, que podem ser vistas aqui.

Em nota à agência internacional France Presse (AFP), a Inditex, dona da Zara, disse: “Levamos muito a sério as acusações contra a Better Cotton, que proíbe estritamente práticas como usurpação de terras e desmatamento em suas especificações de condições”. Afirmou também que solicitou os resultados da investigação independente “o mais rápido possível”.

Também à AFP, a H&M disse que “as conclusões do relatório da Earthsight são muito preocupantes”; afirmou que elas são levadas “muito a sério” e que está “acompanhando as conclusões da investigação” em diálogo estreito com a Better Cotton.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado

Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas

Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno

Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar

Imagem feita com auxílio de IA mostra o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o cartaz do Filme Dark Horse

Why a Bolsonaro biopic is at the center of Brazil’s presidential election

|

A Hollywood-style film about Jair Bolsonaro is wrapped up in Brazil’s biggest bank fraud probe

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança