Buscar
Coluna

Como se dá um golpe de Estado?

Bolsonarismo tenta tirar a gravidade da situação; cabe ao jornalismo explicar o que é um golpe de Estado

Coluna
10 de dezembro de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

A pergunta se torna importante à medida que, embora haja vastas evidências de que Jair Bolsonaro e seus comparsas tentaram destituir um governo legitimamente eleito, grande parte da população ainda duvida que o presidente queria de fato dar um golpe.   

Esta é, hoje, a única linha de defesa adotada por figuras-chave do bolsonarismo – e que conta com a capacidade de manipulação do discurso público do bolsonarismo. “Se criam factoides para desviar a atenção do principal, do corte de gastos, da reforma administrativa e outras coisas”, afirmou Ronaldo Caiado. “É uma viagem de alguém que usou droga pesada. Simplesmente é inexequível aquilo que foi cogitado. Se foi cogitado, é inexequível”, disse Flávio Bolsonaro quando indagado sobre a conspiração. A estratégia não é nova. Como de costume, a comunicação bolsonarista trabalha em duas frequências, aquela que ameaça com linguagem violenta, inaceitável, chocante, e aquela que, ao mesmo tempo, diz que é tudo uma grande brincadeira e os demais estão exagerando, não têm senso de humor. 

Com o avanço das investigações da Polícia Federal (PF), mais fatos vão se juntando à trama, e mais difícil fica a negação; paradoxalmente, mais claro fica também o amadorismo dessa turma, sua tosquice, o que pode render algumas risadas e ironias dos articulistas, mas também lhes serve como escudo: aquilo ali não podia ser sério, mesmo. 

Só que era. A verdade é que golpes são eventos caóticos, embolados, confusos. E explicar isso faz parte da tarefa dos jornalistas, nós que (ainda) somos responsáveis por narrar a história no desenrolar dos fatos, já que, nos livros de história, golpes  de Estado aparecem como movimentos bem coreografados, precisos, fadados a darem certo. 

Nem é, nem nunca foi assim. Lembro apenas dois eventos recentes. 

Durante dois dias, o mercenário russo Yevgeny Prigozhin, chefe do Grupo Wagner, tentou impetrar um golpe contra a cúpula das Forças Armadas de Vladimir Putin, uma quartelada com seu exército de mercenários, que tomou o QG do Exército russo em Rostov-on-Don e marchou em direção a Moscou em 22 e 23 de junho de 2023. No caminho, o grupo derrubou aeronaves militares e matou mais de uma dezena de pilotos. Moscou entrou em alerta militar e montou checkpoints no caminho, e Putin foi à TV chamá-lo de traidor. Somente após um acordo mediado pelo presidente da Bielorrússia, o golpe foi cancelado. Dois meses depois, a aeronave em que Prigozhin voava despencou do céu. O golpista não durou nem um trimestre vivo. 

Mais perto de casa, no Peru, outro golpe macambúzio fracassou quando o ex-presidente Pedro Castillo tentou reverter um processo de impeachment dissolvendo o Congresso e intervindo em diferentes esferas da Justiça. Enfraquecido, o “contragolpe” foi rejeitado pela maioria dos partidos políticos e chegou a ter algum apoio popular, em protestos reduzidos; Castilho foi destituído e preso.   

Era 7 de dezembro de 2022. Na mesmíssima época, segundo comprovou a PF, conversas golpistas aconteciam no Palácio do Planalto, diante de altos membros do governo e dos comandantes das três Forças Armadas. 

Segundo alguns relatos, a prisão do peruano foi um dos motivos que levaram Bolsonaro a titubear quanto ao seu próprio plano – além da covardia que lhe é natural. 

No caso brasileiro, o uso preciso da linguagem fica mais difícil não apenas pela exploração da dubiedade pela estética bolsonarista, mas também porque uma parcela significativa dos comentaristas políticos errou, no passado, ao gritar lobo quando lobo não havia. Sempre me incomodou o uso da palavra “golpe” para falar sobre o impeachment de Dilma – uma enorme conspiração “com Supremo, com tudo”, um pacto de corruptos, de homens, de ricos e poderosos, sim, e sem dúvida uma tremenda sacanagem. Mas não foi um golpe. Foi um impeachment injusto, mas permitido pela capenga lei do impeachment – que, aliás, desde então não mudou um tiquinho e pode vir a se repetir igualzinho. 

Talvez a tarefa urgente do jornalismo, agora, seja mesmo explicar o que é um golpe de Estado. Repetir que golpes são processos históricos complicados e bem caóticos. Como qualquer conspiração, nunca se sabe se a coisa vai vingar ou não; trabalha-se para arregimentar forças favoráveis, mas a hora H é tão incerta como um nascimento ou uma morte. 

O jornalista Elio Gaspari ensina, no seu livro A ditadura envergonhada, como, apesar de haver enormes esforços na elite brasileira por parte do governo dos Estados Unidos, com financiamento da CIA ao Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) para combater o governo João Goulart, o golpe de 64, quando aconteceu, era tão incerto que o próprio general Olympio Mourão Filho duvidou dele. Às duas da madrugada, três horas antes de sair com suas tropas de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro, escreveu em seu diário: “Dentro de poucas horas deflagrarei um movimento que poderá ser vencido, porque sai pela madrugada e terá de parar no caminho”. Completou: “Morro pobre, mas até a última hora posso andar de cabeça erguida. Viva o Brasil!”. Duas horas depois, quando soube da marcha de Mourão, o comandante do II Exército, Amaury Kruel, disse ao telefone: “Isso não passa de uma quartelada do Sr. Mourão, não entrarei nela”. 

Só as 22h, ele entrou. Deu-se o golpe.     

Para que haja um golpe de Estado, primeiro, é preciso que haja uma pulsão golpista na sociedade, resultado de uma narrativa sólida que justifique isso. Em 1954, era o mar de lama, em 1964 era o comunismo, agora em 2022 era a fraude nas eleições – que se ligava à percepção de que Lula, corretamente condenado por corrupção, se beneficiou de um corrupto STF justamente para permanecer no poder. Resultado de um erro crasso, histórico do STF, de não impor freios e contrapesos à Lava Jato lá atrás. 

Mas eu divago. Volto ao meu argumento. O bolsonarismo tinha o primeiro ponto.  Esse era o foco do que a PF chama de “núcleo de desinformação e ataques ao sistema eleitoral”.

O segundo ponto é o apoio de um grupo social coeso que acredita que é justificável interromper a democracia, e que aceite ir às ruas em nome dessa causa. Não importa tanto o tamanho desse grupo; no jogo de espelhos das redes sociais, o que importa é criar a impressão de se tratar de uma massa, convencendo um número significativo de tomadores de decisão a aderir. Isso, também o bolsonarismo tinha, ou chegou bem perto de ter. Era o foco do que a PF chama de “núcleo operacional de apoio às ações golpistas”. 

Chegamos ao terceiro ponto, por aqui o mais fundamental: no Brasil, para dar golpe é preciso das Forças Armadas. Nesse quesito, os conspiradores adotaram diversos estratagemas para que, na hora H, os poucos resistentes aderissem à empreitada. Era esse o “núcleo responsável por incitar militares a aderirem ao golpe de Estado”.

Apesar de não terem convencido os parcos famosos “5 generais”, conseguiram uma vitória impressionante: conspiraram abertamente, diante não só do Alto Comando das Forças Armadas, mas do ministro da Defesa, da cúpula do PL e de diversos grupos militares dos mais diferentes níveis sem terem sido presos, acusados de traição, sedição ou coisa que o valha. Assim, todos prevaricaram. Todos esperaram pra ver o que ia acontecer na hora H. 

Mais sutilmente, a conspiração foi apresentada até à general Laura Jane Richardson, comandante do Comando Sul, e Lloyd Austin, secretário de Defesa norte-americano, além do ex-embaixador americano no Brasil Thomas Shannon.

Como tem demonstrado a investigação da PF, havia centenas de golpistas articulados, prontos para causar o caos necessário para que as Forças Armadas impusessem a ordem. Mas havia também uma quantidade incontável de outros que queriam pagar pra ver – e poderia se decidir por um lado e por outro. 

No golpe de 64, o maior “indeciso” era Amaury Kruel, que acordou legalista e foi dormir golpista em 31 de março. Se não o tivesse feito, nossa história seria outra. 

Hoje esses, os silenciosos, os que esperavam pra ver, continuam por todo lado, quietos, fingindo que não é com eles. Mas podem, ainda, pender para que lado for o vento. É por isso que será um erro crasso se nós, da imprensa, não conseguirmos comunicar que tivemos de fato, desta vez, uma tentativa real de golpe de Estado. Será um erro crasso se Bolsonaro não for punido, se deixarmos o ciclo da notícia nos levar para outros temas, até que novamente se arme um conluio pela anistia. Mais que erro, será fatal.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Quase mil anúncios sobre Lula e Flávio na Meta foram pagos em dólar

|

Impulsionados por US$120 mil, conteúdos circularam sem rótulo de conteúdo político

Processos sobre desinformação e propaganda digital triplicam nas eleições de 2026

|

Até agora são mais de 9,5 mil processos na Justiça Eleitoral no 1º turno, contra 3,4 mil durante mesmo período em 2022

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime