Buscar
Coluna

Tarcísio é um Bolsonaro que sabe jogar pra mídia

Enquanto ex-presidente agredia os jornalistas, governador de SP mantém apoio da mídia até nos escândalos

Coluna
13 de dezembro de 2024
12:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Tradicionalmente, esta coluna é publicada no site aos sábados. Contudo, nesta semana, estamos publicando a coluna de forma extraordinária nesta sexta-feira. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

O reconhecimento de Tarcísio de Freitas de que “tinha uma visão equivocada” ao se posicionar contra as câmeras corporais chegou tarde e sem substância. Depois das gravações de cenas de violência policial explícita nas últimas semanas, ao alcance de qualquer tela, o mínimo que o governador teria que fazer é demitir o secretário de Segurança.

Essa seria a única sinalização crível de que haveria uma mudança na política de segurança diante do aumento de 46% das mortes por violência policial no estado de São Paulo apenas neste ano, como consta na decisão sobre a obrigatoriedade do uso de câmeras pela Polícia Militar em operações de alto impacto, assinada no dia 9 de dezembro pelo ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). 

A declaração do governador, de que “era uma pessoa que estava completamente errada nessa questão [das câmeras corporais]”, foi dada quatro dias antes da decisão do STF, quando as imagens da PM jogando um homem no córrego, de um policial disparando 11 tiros pelas costas de um rapaz que havia furtado produtos de limpeza e de uma idosa apanhando da polícia, entre outras barbaridades, já estavam nos celulares de todos. 

Ainda assim, Tarcísio angariou elogios da imprensa pela virtude de reconhecer o erro. O fato de manter o secretário Guilherme Derrite inspirando a tropa como exemplo de violência policial – e com ficha corrida que inclui 16 investigações por homicídio e até acusações de participação em esquadrões da morte – foi criticado de forma lateral, como se fosse uma “contradição” do “moderado” político bolsonarista. 

Aliás, vale lembrar que antes dessa decisão o Supremo teve de ser provocado novamente pela Defensoria Pública de São Paulo para enfim deferir o pedido, duas vezes negado pela Corte. O objetivo da Defensoria, que recorreu ao STF pela primeira vez em dezembro de 2023, era suspender uma liminar de segunda instância que anulou a obrigatoriedade do uso de câmeras com gravação ininterrupta, com decisão favorável na primeira instância. 

Para justificar a reviravolta, Barroso explica na decisão que os pedidos anteriores da Defensoria haviam sido indeferidos “por entender que se deveria dar ao Estado a oportunidade de se organizar para a implementação da política”, e que as providências em relação às câmeras corporais em operações policiais em São Paulo seriam monitoradas pelo tribunal.

Um voto de confiança a honrar Tarcísio, justamente o responsável pelo desmonte dessa mesma política que, entre 2019 e 2022, obteve uma redução de 76,2% na letalidade das ocorrências em batalhões que usavam o artefato – um raro caso de êxito de uma medida de segurança pública no país.

Enquanto o governador engabelava a Suprema Corte, a violência policial crescia em número de vítimas e inquéritos do Ministério Público. De janeiro até 17 de novembro deste ano, 673 pessoas foram mortas por policiais militares em São Paulo. Em 2022, último ano antes da gestão Tarcísio, foram 260 vítimas de operações policiais. 

Quando o STF negou pela primeira vez o pedido da Defensoria, a Operação Escudo, deflagrada depois da morte de um PM, já tinha matado 28 pessoas em 40 dias – de 28 de julho a 5 de setembro de 2023 – e a secretaria de Derrite se preparava para novo morticínio com a deflagração da Operação Verão, que matou 56 pessoas até 1º de abril de 2024. 

Ambas as operações ocorreram na Baixada Santista, mesmo cenário da morte de Ryan, 4 anos, que chocaria o país sete meses depois. O menino foi atingido por policiais que perseguiam dois adolescentes de 15 e 17 anos em meio a crianças brincando. O garoto mais velho também morreu. Não satisfeita, a PM mandou viaturas para a porta do velório de Ryan e realizou abordagens policiais, atrapalhando o cortejo fúnebre. Um mês depois da morte, a família não havia recebido nenhum contato do governo de São Paulo. 

A Operação Verão foi a ação mais letal da PM desde o massacre do Carandiru, em 1992. Como a Operação Escudo, teve a marca das ilegalidades como execução sumária, fraude processual e obstrução de câmeras corporais dos policiais. Ignorada pelo STF, a Defensoria teve de recorrer à ONU. 

A resposta de Tarcísio depois de ter sido denunciado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU é bem conhecida: “O pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”, disse o “civilizado” governador. 

Mesmo depois dos escândalos mais recentes, Tarcísio continuou jogando a favor de Derrite e contra o controle da PM. Sob protestos indignados da OAB, a Secretaria de Segurança criou uma ouvidoria paralela no fim de novembro deste ano, com o ouvidor indicado pelo próprio Derrite, para se contrapor ao ouvidor independente das polícias, Cláudio da Silva. 

O reconhecimento esfarrapado de que estava errado em condenar as câmeras corporais – generosamente considerado por alguns jornalistas como um “mea-culpa” – não foi suficiente para convencer a população paulista – o índice de desaprovação de sua política de segurança pública subiu de 31% para 37% segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem (12/12). 

Mas bastou para manter Derrite no cargo sem muito questionamento da imprensa. A própria pesquisa da Quaest ganhou títulos favoráveis a Tarcísio nos jornais, destacando a aprovação do governador entre os paulistas (61%), que permaneceu estável, e não o fato novo: a queda de popularidade de sua política de segurança. 

Em abril deste ano, Tarcísio apresentou um cronograma da implantação das câmeras para o Supremo e, em setembro, anunciou um contrato com a Motorola para comprar 12 mil câmeras corporais. Novamente tentou engabelar o STF e a sociedade. As novas câmeras, ao contrário das antigas, permitem aos policiais que as liguem e desliguem conforme bem entenderem – com resultados previsíveis para a apuração dos crimes. Vamos ver se o STF vai impedir a maracutaia desta vez. 

Seja como for, enquanto Derrite estiver na Secretaria de Segurança Pública e o governador continuar minando o sistema de controle da Polícia Militar, não há motivos para ninguém acreditar nele. Por mais que seu figurino de político de extrema direita que come com garfo e faca agrade a boa parte dos veículos de imprensa.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta quase R$ 1,5 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos e 7 partidos – PL lidera recebimento de recursos

Se não pelas mulheres, por quem? O que defendem deputados que se opõem ao PL da Misoginia

|

Relembrar é votar: Votos de deputados sobre pautas de gênero e direitos humanos ajudam a indicar quem eles representam

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia

Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça