Buscar
Coluna

EUA discutem moratória que proíbe leis sobre Inteligência Artificial

Emenda prevê uma proibição de dez anos para qualquer legislação estadual sobre regulação de IA

Coluna
19 de maio de 2025
17:00
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

O Velho Oeste, nos filmes americanos, sempre representou aquela terra sem lei, onde quem tinha uma arma mais potente ou um saque mais veloz – mocinhos, bandidos, indígenas – era quem ganhava na marra, ou na violência. Hoje, é uma boa descrição do que aquele país está se tornando, em todos os aspectos, mas em especial em relação ao desenvolvimento de tecnologias, com foco na inteligência artificial.

Há apenas dois anos, os principais líderes do Vale do Silício se reuniram para implorar por uma regulação que garantisse que o desenvolvimento da IA seria seguro – que essa nova tecnologia não acabaria destruindo a humanidade. Na época, Elon Musk afirmou que o desenvolvimento de IA representava “o potencial de destruição da civilização”.

Dando um pulo pra 2025, temos uma emenda avançando rapidamente na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos que prevê uma proibição de dez anos para qualquer legislação estadual sobre regulação de IA. A emenda faz parte de recomendações sobre o orçamento americano, e diz o seguinte: “nenhum estado pode aplicar qualquer lei ou regulamento que regule modelos de inteligência artificial, sistemas de inteligência artificial ou sistemas de decisão automatizados durante o período de 10 anos a partir da data de promulgação desta lei”.

A emenda ainda precisa ser aprovada pela maioria dos deputados para seguir para o Senado.

Como em toda legislação construída para beneficiar um punhado de capitalistas sem-vergonha, há uma justificativa racional para essa proposta. Há mais de 700 projetos de lei nos congressos dos 50 estados americanos com provisões diferentes para regular a IA – desde deepfakes, desinformação eleitoral, proteção a crianças, danos ambientais – o que causaria a famosa “insegurança jurídica” de que as corporações americanas sempre acusaram nossas democracias latino-americanas. A emenda propõe essa pausa para que seja aprovada uma legislação federal que guie o desenvolvimento de IA, permitindo aos legisladores “curva de aprendizado” aos legisladores estaduais sobre como seria a melhor maneira de fazer isso.

Mas, claro, com as empresas que controlam o desenvolvimento de IA americanas gastando os tubos para fazerem lobby no congresso – o número de organizações que fazem lobby sobre o tema aumentou 190% em 2023 – e com Senado e Câmara dominados pelo partido republicano trumpista, a realidade é que nenhuma legislação conseguirá passar no Congresso americano.

Essa inação faz parte de um histórico de inação do Congresso em questões tecnológicas, o que levou os estados a tomarem suas próprias medidas, como a Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia e a Lei de Privacidade de Informações Biométricas de Illinois, no espaço da privacidade.

A nova emenda terá o efeito de neutralizar a única esfera que tem conseguido colocar algum limite na devastação econômica, moral e cognitiva que a IA já está causando nos seres humanos que habitam aquela ex-colônia britânica.

O que significa, claro, que se apertarmos um pouquinho os olhos conseguiremos enxergar as digitais dos tecno-oligarcas por trás dessa proposta.

Quando o governo Trump abriu uma chamada para contribuições a respeito de um “Plano de Ação em IA”, 41 documentos foram enviados pelas Big Tech pedindo para o governo federal implementar uma “legislação preventiva” federal que impeça leis estaduais de IA para criar um marco nacional unificado, segundo a organização Institute for Progress.

Empresas como Google, Meta e OpenAI foram algumas das que pediram essa ação do governo de Trump. Além disso, grupos financiados pela indústria, como a Câmara de Comércio dos EUA, a Associação da Indústria de Computação e Comunicações, o Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação e a TechNet, também pediram a mesma coisa.

Há outros sinais. Durante uma audiência no Senado, o republicano Ted Cruz perguntou ao CEO da OpenAI, Sam Altman, se ele apoiaria a moratória de 10 anos. “Acho que uma abordagem federal única, com regulação leve e condições equitativas, me parece ótima”, ele respondeu.

Ted Cruz ainda apontou um precedente para ajudar a azeitar o argumento pró-moratório. Ele lembrou que, em 1998, o Congresso americano aprovou uma moratória de dez anos sobre impostos da internet. “Os resultados dessas decisões foram extraordinários. Até 2000, os Estados Unidos registraram cinco anos consecutivos de ganhos históricos de produtividade e crescimento de investimentos. Centenas de milhares de novos empregos foram criados, e o país se tornou um dos maiores exportadores de tecnologia”, disse.

Um presentão para a então nascente e disruptiva indústria centrada no Vale do Silício. O resultado, neste caso, nós já sabemos qual foi – os EUA criaram um monstro que se tornou a maior máquina de destruir sociedades e pessoas da história do capitalismo: as Big Techs.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Quando o patrão pede voto

|

Desde setembro, foram 24 denúncias diárias de assédio eleitoral no trabalho; 99% dos casos são apurados, diz MPT

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos

Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca

Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa

Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo

Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro

Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros

Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam