Buscar
Entrevista

“Bolsonaro ainda é insubstituível”: antropóloga analisa os rumos da extrema direita

Estudiosa do bolsonarismo, Isabela Kalil vê empresários e militares se afastando em público, e evangélicos fortalecidos

Entrevista
2 de setembro de 2025
04:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Jardiel Carvalho / Agência Pública

Às vésperas do julgamento que pode condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro, o movimento chamado de “bolsonarismo”, que antes mobilizava setores organizados, como empresários e o agronegócio, mostra sinais de mudança. Hoje aparece mais disperso em bolhas menores e em ações individuais. Um reflexo de episódios recentes, como o tarifaço de Donald Trump, que atingiu diretamente parte dessa base.

Para a antropóloga Isabela Kalil, coordenadora da pós-graduação em Antropologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), que acompanha grupos bolsonaristas há anos, essa movimentação não significa que Bolsonaro tenha perdido poder. “Mesmo que ele esteja inelegível e que a prisão esteja próxima, ele ainda é visto como uma figura insubstituível”, afirma.

Na entrevista à Agência Pública, Kalil explica as mudanças que enxerga no comportamento dos bolsonaristas em relação às eleições anteriores. Também fala sobre os possíveis herdeiros da extrema direita. Para ela, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tem mais potencial para ser a herdeira política do marido do que os filhos do político.

Antropóloga Isabela Kalil alerta sobre grupos que deixaram de verbalizar nas redes, mas seguem apoiando o bolsonarismo

Às vésperas do julgamento de Bolsonaro, quais sinais você observa entre os grupos bolsonaristas em termos de mobilização e engajamento? Há um clima de expectativa, apatia ou radicalização?

Eles partem do pressuposto de que é uma perseguição política, então é como se não houvesse julgamento, como se fosse uma performance para chegar a um resultado pré-determinado desde o começo. Eles acham que a gente estaria vivendo uma ditadura do judiciário.

Não há expectativa de que algo diferente aconteça, mas sim um processo de desconfiança em relação às instituições, e até em relação à realidade. A mobilização é mais no sentido de não cumprir ordem judicial do que por atos violentos, como destruir a Suprema Corte, ou algo desse tipo.

Sempre existe o temor de ataques isolados, como já aconteceu na porta do Supremo Tribunal Federal (STF), mas é diferente do que estava acontecendo em 2022, em que a gente via a mobilização de grupos, até de grupos armados. Não consigo ver isso agora. Então, se há radicalização, vai ser mais de indivíduos, separadamente.

Quais segmentos do bolsonarismo estão mais ativos nesse momento? Existem fissuras entre eles?

Depois do 8 de janeiro, empresários e militares saíram um pouco de cena. Pelo menos do ponto de vista público, deixando um vácuo que passou a ser ocupado pelos evangélicos. Isso acontece, principalmente, na figura do pastor Silas Malafaia, que organizou os últimos atos de rua do bolsonarismo. Esses eventos, inclusive, passaram a usar a estrutura de eventos religiosos, como carro de som e telão.

Apesar desse elemento religioso, hoje, os segmentos mais ativos são os que se conectaram com o debate de liberdade de expressão, principalmente nas plataformas digitais. A ideia de liberdade de expressão, conectada com o trumpismo, e com as ações de Elon Musk depois do banimento temporário do X no Brasil.

O que aconteceu no caso dos empresários? Como tiveram setores dos empresários e do agronegócio diretamente afetados com o tarifaço imposto por Donald Trump, houve uma retração. Ainda que alguns possam publicamente dizer que é culpa do Lula, houve uma visão pragmática por parte desses setores.

Agora, os mais ativos são pessoas comuns. Hoje o bolsonarismo é mais disperso. Diferente do que era alguns anos atrás, em que dava para a gente identificar segmentos específicos mais fortemente unidos em torno da figura do Bolsonaro. Hoje, há uma dispersão maior em torno dessa noção, principalmente pelas divergências de visão sobre o 8 de janeiro e a ideia de liberdade de expressão.

Em que medida a base bolsonarista ainda enxerga Bolsonaro como figura insubstituível? Há espaço para a ascensão de outros nomes?

Mesmo que ele esteja inelegível e mesmo que a prisão esteja próxima, acho que ele ainda é visto como uma figura insubstituível. E isso não é só uma questão dos eleitores, mas também pragmática do campo da direita e da extrema direita.

Com a eleição, Bolsonaro passou a ser hegemônico, ou seja, consolidou o campo da extrema direita que não tinha essa consolidação institucional no Brasil. Também tem a questão da conjuntura, como o esfacelamento do PSDB, por exemplo. Forças políticas mais tradicionais ou mais jovens de direita se aproximaram. O bolsonarismo arrastou a direita como um todo. Então, Bolsonaro é uma figura insubstituível no campo da direita mais ampla, ainda que exista um certo espaço para outros nomes.

Agora, já vem aparecendo nas pesquisas que os filhos do Bolsonaro não têm credibilidade [junto ao] eleitorado. Existe uma desconfiança em relação a eles. Se os bolsonaristas tivessem que votar nos filhos, alguns não fariam, e outros fariam à contragosto. Porém, não vejo as mesmas ressalvas em relação à [ex-primeira-dama] Michelle Bolsonaro. Acho que ela, potencialmente, tem a capacidade de ser a herdeira mais forte do bolsonarismo dentro da família.

Fora da família eu acho que é o [governador de São Paulo] Tarcísio de Freitas, mas, na família, a Michelle tem esse capital político. Por ser mulher, ela atrairia uma espécie de bolsonarismo moderado. Para o tipo de eleitor bolsonarista que acredita que uma mulher não teria capacidade de levar adiante uma candidatura própria, fica a ideia de que ela tem uma proximidade muito grande com o Bolsonaro, e seria uma intermediária do próprio Bolsonaro. Inclusive no caso de uma eventual prisão domiciliar, por estarem na mesma casa.

Eu sou muito cética quando qualquer figura do bolsonarismo diz que vai ou não vai se candidatar, quais são os planos, porque eles mudam os planos a cada minuto. Mas, sim, Bolsonaro ainda continua como uma figura insubstituível. Porque é o único que consegue agradar, de uma certa forma, um amplo espectro político, coisa que nenhum de seus herdeiros vai conseguir fazer do mesmo jeito.

Como as lideranças digitais do bolsonarismo estão pautando a narrativa sobre esse julgamento?

O envolvimento de figuras internacionais, como Elon Musk, Steve Bannon e Donald Trump, dão munição para os bolsonaristas, como se houvesse um reconhecimento internacional sobre a suposta supressão da liberdade de expressão, como se o julgamento fosse mesmo parcial. A primeira pessoa que fez isso de fato foi Elon Musk. Antes, não tinham lideranças que colocassem isso nesses termos. Mesmo no primeiro mandato do Trump, era mais o Bolsonaro correndo atrás do que o Trump retribuindo qualquer tipo de aceno, de diálogo ou de alinhamento.

O trumpismo deu uma certa vantagem para o Lula e para o PT em relação às questões de defender uma agenda de soberania, mas, por outro lado, para os bolsonaristas também deu combustível para a narrativa de perseguição política, que se conecta com a discussão sobre as big techs.

Você percebeu um movimento de bolsonaristas “pulando do barco” ou a maior parte da base se mantém firme?

Existem bolsonaristas pulando do barco até por razões de autopreservação, para não se envolverem em problemas com a justiça. Mas outra coisa é o voto.

Quando a gente estava fazendo pesquisa na última eleição, tinha um fenômeno de homens jovens que, no grupo focal, diziam que não iam votar no Bolsonaro. Na época, em 2022, havia uma dimensão da gestão da Covid, de pessoas que tiveram mortes na família se recusarem a dizer publicamente que apoiavam o Bolsonaro. Eles diziam que ficavam desconfortáveis de dizer que votaram no Bolsonaro para suas companheiras, mães e amigas, ou então no trabalho para o patrão, mas, à medida que o grupo focal ia avançando, eles começavam a se sentir confortáveis para dizer que iam votar no Bolsonaro.

Eu acho que uma coisa é a manifestação pública de apoio ao bolsonarismo. Outra coisa é votar em um herdeiro político do Bolsonaro ou em alguém que o Bolsonaro está apoiando. Isso não dá para a gente mensurar. Vamos ter que esperar e ver o impacto, de fato, do julgamento, se ele diminui ainda mais a base bolsonarista, e como vão se dar as disputas pelos herdeiros do bolsonarismo.

Edição:
Isabela Kalil/Arquivo Pessoal

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 234 “STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida

Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas