Buscar
Crônica

A menina que morava no mundo invisível

A menina do carvão ainda tem um lugar no coração da mulher que se tornou

Crônica
11 de outubro de 2025
06:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quando somos crianças, a realidade das coisas nos chega pelo aroma forte do café coado na cozinha, pelo ranger dos passos apressados no chão de madeira, pelo toque morno das mãos que nos amparam e pelas frases repetidas pelos adultos, como canções de ninar. São verdades incorporadas, moldando a respiração, o ritmo do coração, o espaço do corpo no mundo.

Nesse território frágil, tudo floresce. Somos heróis de capa improvisada, salvadores em chinelo de dedo, corações cheios de esperança e pés descalços sobre calçadas quentes. Brincamos de acreditar. É por isso que os pais avisavam: cuidado com a fantasia. A roupa do Super-Homem não é para levantar voo. Era preciso não acreditar demais. A imaginação podia ser encantamento, mas também armadilha.

Na infância, entre o riso e o medo, também ecoam os gritos nos ouvidos, as mãos que pesam no ombro pequeno, e as frases que diminuem: “você não consegue”, “fique quieta”, “não é coisa de criança”, “engole o choro”. A inocência ainda não conhece o gosto amargo da violência, mas já pressente que nem todo gesto é proteção, nem toda palavra é afeto.

E foi nesse intervalo — entre o encanto e a vulnerabilidade da infância — que uma fantasia surgiu. Não veio da imaginação da menina, mas de uma brincadeira do pai. Ela tinha só dois anos quando foi fotografada: rosto sujo de carvão, roupa rasgada, um saco quase vazio nas mãos. Debaixo do braço, carregava um pão velho, como parte do figurino. Para completar o estereótipo perfeito, só faltou a garrafa de cachaça. Para os adultos, uma cena engraçada. Para a criança, apenas mais um jogo sem explicação. Mas a imagem ficou: não de heroína, não de princesa, mas de uma pequena moradora de rua, invisível antes mesmo de entender o que isso significava.

A foto existe. Um sorriso doce escapa, mas é treinado para não chamar atenção. O coração leve, quase ingênuo, aprendeu cedo a humildade silenciosa. Pelas ruas do centro da cidade, o barulho dos ônibus misturado aos passos apressados do ir e vir das pessoas. A menina estendia pacotinhos de biscoito aos homens que dormiam no chão. A mãe, cúmplice, sempre carregava na bolsa algo para dar de comer — era ritual, um gesto discreto de cuidado com quem precisa.

Na loja de calçados, o cheiro de couro novo e do chão encerado. Enquanto a mãe escolhia sandálias ortopédicas, a menina viu, pela vitrine, uma criança deitada na calçada. O peito apertou. Pela ingenuidade, pegou apenas uma peça do par de tênis que estava à mostra na loja e atravessou o espaço para estender à menina de rua. Simples assim: se eu precisava de sapatos, ela também precisava. A cena foi quebrada pelo sussurro nervoso da vendedora e pelo sorriso amarelo da mãe. O gesto ficou.

Essa menina cresceu. O som das palmas nunca foi dela. Acostumada, preferiu o silêncio dos bastidores, a penumbra atrás da cortina, a respiração contida de quem faz brilhar os outros. Tornou-se jornalista, e o que mais gosta de fazer é contar as histórias de pessoas — aquelas que passam despercebidas, ignoradas pela sociedade. Ser invisível parecia destino, mas ao dar voz a quem não tinha espaço, descobriu que podia existir em meio ao mundo sem precisar se expor. A menina do carvão ainda tem um lugar no coração da mulher que se tornou, mas outros personagens começaram a surgir — novas experiências, novos papéis, novas conquistas — permitindo que ela se realize na vida. Descobre que prosperar não é pecado. Que sucesso não é arrogância. Que a simplicidade pode conviver com a grandeza. O medo do olhar alheio ficou para trás.

Que os pais saibam que toda fantasia é semente. Heróis, pessoas em situação de rua, fadas ou monstros. O que floresce depois — no corpo, na alma e no coração adulto — ninguém pode saber.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 233 A fábrica de radicais do Discord – com João Victor Ferreira

Cientista político explica como os discursos extremos rompem as fronteiras virtuais e incentivam uma sociedade violenta

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Quer escrever uma crônica para esta coluna? Mande um email para cronicadesabado@apublica.org e coloque no assunto Crônica para Avaliação e seu nome completo.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte

Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica

Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política

Flávio Bolsonaro (PL) participou no sábado 29 de agosto de um ato de campanha à Presidência em Angra dos Reis (RJ) ao lado do candidato a deputado federal, o empresário Renato Araújo, também do PL

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos

Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

|

Maior parte dos programas ignora prevenção a mortes ou violência sexual de crianças e sequer menciona primeira infância

Lula e Flávio, mais cautelosos que o usual, deixam público dar recados no 7 de setembro

|

Em SP, ato da direita levou menos gente às ruas que no ano passado; em BSB, Lula seguiu protocolo “seguro”

André Mendonça mobiliza orações e se torna ícone do 7 de setembro bolsonarista

|

Crise no STF se torna “guerra santa” entre evangélicos e coloca o ministro como “mártir” em oposição a Moraes