Buscar
Coluna

Por que Odete Roitman nunca morre?

A vila continuar viva representa como o país favorece a concentração de renda e suas desigualdades

Coluna
20 de outubro de 2025
17:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

No dia 6 de outubro, a Folha de S. Paulo deu uma barrigada – jargão jornalístico que significa um “erro feio” – ao publicar o obituário de Odete Roitman. A vilã favorita dos brasileiros não morreu, e sobrou para a Ombudsman Alexandra Moraes lembrar que, mesmo em um artigo com tom de brincadeira, faltou apuração na vida real sobre o final da novela. Refletindo sobre o final inesperado da trama, um leitor provocou: “a pergunta não é mais quem matou Odete Roitman, mas por que Odete Roitman nunca morre?”. 

A novela de Manuela Dias fez o Brasil parar de uma maneira que eu não via há muitos anos, desde que cresci num país que assistia todo mundo junto aos capítulos finais. E isso tem muito a ver com a fascinação que nossa sociedade tem com os ricos, com essa classe inalcançável que segue “construindo” o nosso imaginário sobre nós mesmos, segundo Michel Alcoforado, autor do celebrado livro Coisa de Rico (editora Todavia). No Brasil, país com uma das maiores populações carcerárias do mundo, criminoso rico é aplaudido quando chega ao Congresso com enormes capivaras nas costas, mesmo tendo roubado terras de comunidades inteiras, ameaçado, financiado madeireiro ou mineração ilegal. Afinal, são empreendedores, gente de visão. 

Odete Roitman continua viva porque, apesar de avanços significativos nas últimas décadas, ainda somos um dos países mais desiguais do mundo. Em 2024, a Oxfam demonstrou em um relatório que 63% da riqueza está nas mãos de 1% da população. Entre 2020 e 2024, 4 dos 5 maiores bilionários aumentaram em 51% sua riqueza desde 2020; ao mesmo tempo, 129 milhões de brasileiros ficaram mais pobres. 

Para Alcoforado, ser rico é uma condição “precária” que, no auto imaginário em especial dos novos ricos, pode ser retirada a qualquer momento. Portanto, diz ele, demonstrar ser rico e convencer os outros disso é uma tarefa árdua, trabalhosa, que exige um tempo de dedicação enorme. Na sua etnografia, Alcoforado enfocou os aspectos culturais do que é ser rico no Brasil. No seu podcast É tudo Culpa da Cultura, descreveu a maneira como, por exemplo, os ricos determinam a limitação entre quem é rico e quem não é pela maneira como sabem usar os diversos sofás que ornam as diversas salas. De classe média para baixo, a gente só tem um sofá, que serve para sentar e pronto.  

Comparando a autoimagem do rico brasileiro com o rico americano, o antropólogo afirma que, enquanto o último tem como mérito pessoal a “construção” e o trabalho árduo, criando para si a narrativa de que conseguiu sua riqueza pelas enormes oportunidades criadas por aquele país, no Brasil a lógica é a da “conquista”, da superação em relação aos inúmeros entraves criados pelo seu país. Aqui, os ricos acreditam que são ricos “apesar” do Brasil. 

Mas é claro que isso é apenas uma autoimagem, construída para justificar seu lugar ao lado de Odete Roitman. O Brasil é um país que favorece a concentração de renda de diferentes maneiras muito além da simbólica e subjetiva.  

Aqui, o imposto incide mais sobre os de baixo do que sobre os de cima, embora tenha havido alguns avanços, como a recente aprovação da isenção de imposto para quem ganha até 5 mil reais, em um momento de raro consenso entre o governo e os parlamentares. (O Congresso conta com mais de 50% de milionários, e, portanto, a taxação de grandes fortunas é outro gargalo muito mais complicado.) Existem ainda diversos mecanismos que permitem a ricaços e empresas ganharem subsídios, isenções, perdão de dívidas etc. Na semana passada, lançamos o edital de microbolsas “Super-Ricos” para provocar repórteres de todo o Brasil a fazerem no nosso campo o que fez Alcoforado na antropologia: buscar investigar as estruturas que permitem que os ricos sigam ficando mais ricos e que o Brasil tenha uma mobilidade social ainda baixíssima.

Afinal, como lembrou Flávia Oliveira na sua brilhante coluna sobre a ausência histórica de mulheres negras no STF, a chance de uma criança pobre chegar ao topo da pirâmide social – os 10% mais ricos – é de apenas 1,81%. Os dados são do Atlas da Mobilidade Social, que mostra que dois terços dos brasileiros permanecem no mesmo lugar onde estavam quando nasceram. 

Jamais seremos Odete Roitman – é por isso que, de longe, aplaudimos que a vilã cometa crimes, torture e maltrate filhos, use e abuse dos demais, um pouco como os adoradores de Donald Trump. É como nosso conselheiro Eugênio Bucci resumiu na sua coluna do Estadão: a Odete Roitman de 2025 sai anistiada.

O livro de Michel Alcoforado tem trazido os ricos para o debate, lembrando que é fundamental para as ciências sociais olharem também para essa fração da sociedade que tem um peso desproporcional não só no PIB, mas também na construção do nosso imaginário sobre nós mesmos. É uma reflexão importante. Agora, cabe aos jornalistas também fazerem a sua parte, investigando como o estado brasileiro trabalha ainda hoje para fazer os super-ricos cada vez mais ricos, cada vez menos comprometidos com um projeto nacional, e cada vez menos sujeitos a prestar contas e pagar pelos crimes que cometem para enriquecerem ainda mais.  

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal

Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA

|

BNDES incentiva produção para transição energética, mas empresas firmam laços com a indústria militar norte-americana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), discursou na convenção partidária e oficializou sua candidatura.

Lula aposta no combate ao feminicídio para fortalecer apoio entre eleitoras em 2026

|

Apesar de acenar para as mulheres, nenhuma mulher, nem mesmo Janja, havia sido escalada para discursar no evento

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática

Meta, Telegram e X fecham acordo com TSE sobre desinformação sem punição caso não cumpram

|

Termos mostram plataformas tentando se blindar de responsabilidades sobre conteúdo desinformativo nas eleições de 2026