Buscar
Reportagem

Eleições na América Latina em 2026 estão na mira das intervenções de Trump

Presidente dos EUA deve seguir com plano de favorecer conservadores aliados em pleitos na região – incluindo o Brasil

Reportagem
8 de janeiro de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
The White House

Semanas antes de ordenar a invasão militar à Venezuela, bombardeando as ruas de Caracas, que matou 77 pessoas, segundo levantamento de jornalistas locais, Donald Trump já mostrava que não pretende poupar esforços para interferir na política latino-americana em 2026.

Interferências norte-americanas na América Latina

Argentina – outubro de 2025
Honduras – novembro e dezembro de 2025
Venezuela – janeiro de 2026
Colômbia – janeiro de 2026
Cuba – janeiro de 2026
Argentina – outubro de 2025

Apoio econômico de Trump é decisivo para garantir maioria nas eleições legislativas ao partido de Milei, seu aliado.

Honduras – novembro e dezembro de 2025

Nas eleições presidenciais, Trump apoia o candidato conservador de oposição que, após discussões jurídicas, é declarado eleito, 24 dias após o pleito, por autoridades locais.

Venezuela – janeiro de 2026

EUA invade militarmente Caracas e captura o presidente Nicolás Maduro, que será julgado em solo norte-americano, por narcoterrorismo.

Colômbia – janeiro de 2026

Dois dias após a invasão da Venezuela, Trump afirma em entrevista que ação militar contra o presidente Gustavo Petro u0022lhe soa bemu0022.

Cuba – janeiro de 2026

O país caribenho também foi alvo do presidente dos Estados Unidos, que afirmou que o governo em Havana u0022está pronto para cairu0022.

Eleições na América Latina

Costa Rica – fevereiro de 2026
Peru – abril
Colômbia – maio de 2026
Haiti – agosto de 2026
Brasil – outubro de 2026
Costa Rica – fevereiro de 2026

Eleições presidenciais podem ter segundo turno, marcado para abril.

Peru – abril

O país escolhe seus representantes legislativos e o presidente. No caso de um segundo turno, ele acontece em junho.

Colômbia – maio de 2026

Início do processo eleitoral que vai escolher o novo presidente do país. A posse está planejada para ocorrer em agosto.

Haiti – agosto de 2026

As eleições serão gerais e um possível segundo turno presidencial ocorre em dezembro

Brasil – outubro de 2026

Últimas eleições presidenciais na região, ocorrem paralelamente ao pleito legislativo e dos executivos estaduais.

Após condicionar o apoio econômico à Argentina a um voto em aliados de Javier Milei nas eleições legislativas de outubro, o plano ficou ainda mais claro no final de 2025, durante um processo eleitoral pouco comentado no Brasil: as eleições presidenciais em Honduras. Marcado por uma lenta contagem de votos e acusações de golpe e fraude, o pleito – realizado em turno único, em 30 de novembro – se arrastou por semanas, mas acabou ganhando manchetes por outra razão: a flagrante ingerência da Casa Branca.

Para intimidar eleitores do país centro-americano, Donald Trump usou as redes sociais para prestar apoio público ao candidato de direita Nasry “Tito” Asfura – que, após reviravoltas, acabaria sendo declarado presidente eleito pelas autoridades locais 24 dias após a eleição, em plena véspera de Natal. No embalo do aceno trumpista, a conturbada vitória de Asfura (bastante celebrada pelo alto escalão em Washington) também significa o fim do governo socialista de Xiomara Castro, que deve passar a faixa para o sucessor no final de janeiro. Em dezembro, apoiadores de Castro foram às ruas para protestar contra o envolvimento dos EUA no ciclo eleitoral.

As tentativas de Washington de interferir nessa eleição não se limitaram, no entanto, a uma postagem na internet. De olho em dar um recado ainda mais contundente à região, Donald Trump concedeu um indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que governou o país entre 2014 e 2022. Do mesmo partido de Asfura, e também de direita, ele foi condenado em 2024 a 45 anos de prisão por levar toneladas de cocaína aos EUA.

Dois pesos, duas medidas

Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, foi capturado em ação militar e levado aos Estados Unidos

Trump perdoa aliados de direita já condenados pelos mesmos crimes que diz combater na Venezuela. Enquanto a Casa Branca se escora em acusações arbitrárias, baseadas em medidas antinarcotráfico determinadas por seu próprio governo para executar civis em embarcações no Caribe, a Procuradoria-geral dos EUA anuncia que Maduro será julgado por narcoterrorismo, entre outros crimes.

No sábado, 3 de janeiro, o líder republicano voltou a defender Hernández, mostrando que sua gestão não vê qualquer problema em definir os próprios critérios para chutar o tabuleiro político do continente ao sabor de seus interesses.

Contra Maduro, a invenção de narrativas também ficou explícita. Após sua captura, o Departamento de Justiça dos EUA retirou da denúncia contra o venezuelano a acusação de que ele seria o líder de um suposto grupo criminoso, o “Cartel de Los Soles” – cuja existência os trumpistas não conseguiram provar. Mesmo assim, Nicolás Maduro será processado por narcotráfico.

Por que isso importa?

  • Em 2026, cinco países da América Latina escolherão seus presidentes e o governo de Donald Trump já demonstrou que tentará interferir na política da região.
  • A região sul-americana já conta com quatro presidentes alinhados com Trump, na Argentina, Equador, Paraguai e Bolívia. No Chile, a direita também venceu as eleições.

Trumpismo coloca Colômbia, Cuba e outros em linha de tiro

Gustavo Petro, presidente da Colômbia, também tem enfrentado acusações sem provas por parte de Trump

No domingo, 4 de janeiro, quando mal se sabia o paradeiro de Maduro, a América Latina já lidava com a possibilidade de outra invasão dos EUA em um futuro próximo. Dessa vez, Trump ameaçaria Gustavo Petro, presidente da Colômbia, dizendo que uma ação militar em território colombiano, similar à ocorrida em Caracas, lhe “soa bem”. Ele também apontou a mira para Cuba, dizendo que o governo em Havana estaria “pronto para cair”.

Apelando, mais uma vez, à narrativa genérica do “combate às drogas”, e novamente, sem mostrar as evidências de tais acusações, o mandatário chamou Petro de um “homem doente, que gosta de fabricar cocaína e vendê-la aos Estados Unidos”. Petro usou as redes sociais para se defender e, em outra postagem, depois apagada, disse que as acusações de Trump são fruto de um “cérebro senil”.

Em 2026, a Colômbia pode estar diante de um ‘combo’ do que viveram Honduras e Venezuela nos meses recentes: além de se tornar alvo de ameaças de invasão territorial. O país sul-americano realizará eleições presidenciais com a abertura das urnas entre maio e junho e a posse de um novo governante marcada para 7 de agosto. Petro não pode se reeleger e a pressão de Trump deve influenciar o eleitorado e dificultar a tarefa de fazer um sucessor*.

Caso a direita assuma o poder em Bogotá este ano, boa parte da América do Sul estaria sob o comando de gestões conservadoras e também simpáticas a Washington. Além de Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, do paraguaio Santiago Peña e do recém-empossado Rodrigo Paz Pereira, na Bolívia, o extremista José Antonio Kast tomará posse como presidente do Chile em março.

Para um presidente que retira um adversário do assento presidencial à força – e, logo depois, diz ser ele próprio o responsável por “mandar” no país que acaba de invadir –, interferências em eleições são apenas uma pequena parte da caixa de ferramentas. Em resposta à postura de Trump, governos da região têm se unido para condenar os últimos eventos. Assim fizeram Brasil, Chile (ainda sob o comando de Gabriel Boric), Colômbia, México e Uruguai, além da Espanha, por meio de um comunicado conjunto.

O governo republicano, no entanto, não se importou com a mensagem: um dia depois, o Departamento de Estado dos EUA publicaria uma imagem com a frase “este é o nosso Hemisfério”. O posicionamento preocupante se soma à menção feita por Trump à Doutrina Monroe, política externa estadunidense adotada nas primeiras décadas do século 19 – e que seria uma das bases do modelo intervencionista e expansionista de Washington na América Latina nos séculos a seguir. “Ela é muito importante, mas nós a superamos por muito”, disse o governante, referindo-se ao modelo como “Donroe Doctrine”, misturando o termo original ao início do próprio nome.

O ano que se inicia terá ainda eleições presidenciais na Costa Rica, onde o cenário se desenha para uma provável vitória da atual gestão conservadora sem necessidade de interferência estadunidense. No Peru, a disputa está pulverizada, difícil de prever, com mais de 30 pré-candidatos. Mas lá, caso se repita o cenário dos últimos pleitos, em que a ultraconservadora Keiko Fujimori avançou ao segundo turno, contra um nome mais ao centro (ou até à esquerda, como foi Pedro Castillo em 2021), não seria surpresa ver Trump pedindo votos para a filha do ditador. Fujimori, morto em 2024, governou o país andino entre 1990 e 2000, um mandato de abusos que rendeu uma condenação por crimes contra a humanidade anos mais tarde.

Brasil deve olhar para trás

Presidente Lula e o norte-americano Donald Trump se entenderam, mas relação pode sofrer abalos nas eleições deste ano

Por último, mas não menos importante, vem o Brasil.

O maior país da região também irá às urnas com muita coisa em jogo no final do ano. Ouvindo o eco de crises recentes, como a da Lei Magnitsky e o tarifaço, deixaram o governo Lula em alerta. Autoridades eleitorais brasileiras devem voltar o filme para lembrar de uma crise que poderia ter sido muito maior em 2023, caso os ventos do norte soprassem diferente.

Há cerca de três anos, no infame 8 de janeiro após a terceira posse de Lula, bolsonaristas vandalizaram prédios públicos em Brasília, um episódio que ficou conhecido mundialmente como um dos maiores atentados à democracia brasileira desde o fim da Ditadura Militar. À época (e ainda que, em sua totalidade, não tenha trazido grandes melhorias concretas para a região), a gestão de Joe Biden fez o mínimo: condenou o ocorrido. É plausível especular que Trump, se estivesse no poder à época, endossaria a narrativa bolsonarista de que as eleições foram fraudadas – uma cartilha criada por ele próprio dois anos antes, com os ataques ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.

Em 2026, caso apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) repitam as cenas de terror diante de uma eventual reeleição de Lula (um cenário sustentado por pesquisas de momento), o desfecho pode ser mais grotesco. Tanto no Brasil como nos EUA, as respectivas rebeliões da extrema direita acabaram com muitos sendo presos no processo. Mas, enquanto Bolsonaro foi condenado por seu golpe fracassado, Trump seguiu impune e está outra vez na Casa Branca.

Lula tem contado com uma boa relação pessoal com Trump, desde o encontro de ambos na última Assembleia Geral da ONU, e que ajudou a desenrolar boa parte do tarifaço. Os movimentos erráticos do presidente norte-americano, no entanto, não permitem dar nenhum cenário por garantido. Quando, a hoje decapitada, extrema direita brasileira finalmente se aglutinar em torno de um novo candidato, é de se esperar que Trump repita o que já fez em outros processos eleitorais da região, estendendo seu apoio, seja explícito, ou por meio de pressões e sabotagens. Tal movimento pode dar aos herdeiros do bolsonarismo uma nova aposta no caos urbano em nome de fraudes inexistentes e teorias sem base. Apelos que, desta vez, podem encontrar nos EUA um apoio de intensidade inédita. Basta lembrar como já foi impensável uma invasão norte-americana à América do Sul como a que abriu o ano de 2026.

*Atualização: Pouco depois das novas insinuações dos EUA, Petro e Trump conversaram por telefone. Em sua conta oficial na rede social X (antigo Twitter), o líder colombiano defendeu sua proposta de “paz e democracia global” e disse que as discordâncias sobre a visão dos EUA ante a América Latina estiveram entre os temas discutidos. Petro também usou o espaço para defender a transição energética, indicando que os EUA podem ajudar a região na busca por matrizes menos poluentes. Trump, por sua vez, disse que Petro “explicou a situação das drogas e outros desentendimentos” e sinalizou um futuro encontro com o homólogo. Um caminho ainda tenso e incerto, mas que poderia tomar rumos um pouco mais pragmáticos, como os adotados pelo Brasil.

Edição:
Eneas De Troya/Flickr
Alexa Rochi0214/Flickr
Ricardo Stuckert / PR

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos

Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia