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Entrevista

Jeferson Tenório: a literatura permite uma avaliação mais lúcida da realidade

Um dos maiores nomes da literatura brasileira reflete sobre realidade e invenção na estreia do Pauta Pública 2026

Entrevista
18 de janeiro de 2026
04:00

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Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti em 2021 com O Avesso da Pele
Divulgação/Carlos Macedo

Estreou esta semana, a sexta temporada do Pauta Pública, num ano que, desde os primeiros dias, já se mostrou decisivo para a geopolítica, a democracia, a tecnologia e a história. Em 2026, com o tema “Diálogos para entender o que é real”, a jornalista Andrea Dip conduz conversas para nos situar num mundo em que imagens fictícias parecem verdadeiras e narrativas se impõem como fatos, em meio a disputas cada vez mais intensas sobre o real.

O primeiro episódio da  nova temporada conta com a participação de um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea: Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti em 2021 com O Avesso da Pele (Companhia das Letras, 2020). Ao refletir sobre o momento atual, Tenório afirma que “já temos dificuldade de identificar o que é informação, o que é invenção”, o escritor alerta para os riscos desse cenário e destaca o papel da literatura em nos fazer sair “do calor da hora”, convocando o contraditório e a complexidade.

Tenório também fala sobre seu livro mais recente, De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras, 2024), romance que acompanha a trajetória de um jovem negro e periférico na universidade, um espaço marcado ao mesmo tempo por hostilidade e por encantamento. Para o autor, trata-se de uma história sobre “o direito ao encanto” e, sobretudo, sobre o direito de escolha, um privilégio historicamente negado à população negra. Ao final, a literatura aparece como um gesto de resistência à indiferença e um lembrete fundamental: “um dos papéis da literatura é fazer com que a gente não esqueça que somos humanos”.

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 199 Jeferson Tenório: a ficção como reflexo da realidade

Um dos maiores nomes da literatura brasileira reflete sobre a dificuldade de distinguir informação de invenção

0:00

Você escreve ficção com muitos elementos e dados de realidade. Como avalia este momento que estamos vivendo?

A ficção, na verdade, não é um espelhamento da realidade, mas uma reflexão sobre a realidade e que a devolve de uma maneira mais lúcida, talvez mais honesta do que está acontecendo. Justamente porque ela faz uma espécie de biografia dos afetos, dos sentimentos. Mais do que uma análise fria e racional, a ficção e a literatura vão fazer justamente  uma investigação que é mais subjetiva, e por isso ela se torna mais profunda.

No momento que a gente vive, o real é posto em xeque, ou seja, já temos dificuldade de identificar o que é uma informação, o que é uma invenção e o que são coisas falsas. Cada vez mais isso tem aumentado, eu acho que é bastante preocupante e devemos ficar bastante atentos para ver o caminho que estamos seguindo.

[Em relação aos conflitos geopolíticos nos primeiros dias de 2026], os mecanismos da política são diferentes dos mecanismos da literatura. Isso não significa que uma não esteja implicada na outra. Mas a política inicialmente foi criada, em termos gregos, justamente para evitar a violência. Com o objetivo de usar o argumento e a linguagem para evitar as vias de fato. 

O que temos visto hoje é uma escalada dessa violência em que a própria política é violenta. Se a gente for usar os termos de pós-modernidade, essa é a política: a política da violência, a política da invasão. É o que temos acompanhado desse imperialismo que vem acontecendo.

[Neste contexto], a literatura é uma possibilidade de enxergar a realidade saindo do calor da hora, saindo da efervescência. Ela opera num outro tempo, e esse tempo é importante para fazer uma avaliação mais lúcida da realidade. Acho interessante porque a literatura convoca o contraditório, ela convoca uma complexidade de visões, você vai encontrar ali sentimentos humanos, subjetividades. Um dos papéis da literatura é fazer com que a gente não tenha indiferença em relação ao sofrimento do outro.

Sobre a violência da política, temos cada vez mais falado sobre como tem sido difícil imaginar criar, encantar, ter ideias de novos futuros, quando a realidade, além de violenta, vem com múltiplas crises e inseguranças. Como é seu processo de escrita em meio a tudo isso?

Eu me tornei um leitor tardio de ficção. Os livros não fizeram parte da minha infância nem da minha adolescência.Quando eu descobri os livros, a literatura passou a ser uma espécie de obsessão, uma doença, algo que me convocou, de tal forma, que às vezes eu era intoxicado pelas palavras.

A literatura fez com que eu conhecesse e tomasse consciência do mundo de maneira muito visceral, e hoje até me pergunto como eu sobrevivi a essas leituras. Imagina chegar próximo dos 30 anos, e só aí começar a se dar conta do porquê você é pobre, do porquê ser sempre abordado pela polícia e porquê a sua família não tem condições de entrar numa universidade. São leituras que vão me dando uma consciência e que, de certo modo, é difícil lidar.

Depois de saber tudo que você sabe, após tomar consciência das coisas, o meu processo criativo vai um pouco nesse sentido de, primeiro, escolher, não um tema, mas escolher uma boa história para ser contada. E as histórias surgem através de relacionamentos. E toda literatura surge a partir do relacionamento de você com o mundo. A partir disso começo a pensar nos personagens, que nascem a partir de um  específico e como ele vai irradiando as suas relações com o mundo, com a vida, com a política, com a sua sexualidade e assim por diante. O texto vai se montando na minha cabeça até que eu percebo que chegou o momento de ir para frente do computador e começar a escrever. Mas é um processo longo. Quem escreve ficção e romance tem que gostar justamente da demora, da lentidão. Então esse é o meu processo, ele é mais devagar.

Contar sobre o seu mais recente lançamento, o De Onde Eles Vêm.

Este livro vem de um desejo de fazer o que eu quis fazer (ao contrário do Avesso da Pele que surgiu de uma necessidade social). Então [o De Onde Eles Vêm] foge da ideia de necessidade por uma questão social, e passa por uma questão pessoal mesmo, de escrever um texto dessa forma. Embora tenha ali elementos sociais: a história é de um rapaz de vinte e poucos anos, negro, periférico, que entra na universidade e se depara com um ambiente bastante hostil, que desconfia das suas capacidades e, ao mesmo tempo, ele se sente encantado por esse espaço. 

É uma entrega existencialista, filosófica, muito mais do que uma questão sobre as cotas, explora a universidade como um lugar de encantamento e  um lugar em que se tem a possibilidade de ter acesso a outros tipos de conhecimentos. Então é um livro que vai ficar nessa corda bamba de ele ter que lidar com essa hostilidade e ao mesmo tempo se sentir atraído por esse universo acadêmico e pelo universo também dos livros, da literatura.

É um livro que fala sobre o direito ao encanto, o direito que as pessoas negras e periféricas têm de gostar de literatura, de gostar de arte e de não se sentirem culpadas por isso. Acho que há um elemento nesse sentido de muitas famílias pobres e negras se colocarem nesse questionamento.

No fundo, o De Onde Eles Vêm é um livro sobre o direito de escolha. E o direito de escolha é um privilégio. Geralmente a população negra acaba avançando na vida, não porque escolheu, mas porque era o que tinha. E o personagem Joaquim está numa situação em que por mais que a vida seja dura, ele tenta justamente escolher. E escolha significa abrir mão de outras coisas. E abrir mão de outras coisas significa, inclusive, até a própria sobrevivência dele.

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