Buscar
Reportagem

Perseguido por Carla Zambelli, Luan Araújo faz vaquinha na internet para custear processo

Jornalista não obteve justiça gratuita em processo contra ex-deputada que o perseguiu com arma nas últimas eleições

Reportagem
25 de fevereiro de 2026
09:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
José Cícero/Agência Pública

O jornalista Luan Araújo, de 32 anos, recorreu a uma vaquinha virtual para dar continuidade a um capítulo decisivo de sua vida. Desde o dia 7 de dezembro de 2025, ele busca arrecadar R$ 28 mil. O montante destina-se ao pagamento das custas processuais de uma ação que move contra a ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). O valor do processo é vultoso: uma indenização de R$ 2 milhões por danos morais. A necessidade da campanha de financiamento coletivo surgiu após a Justiça de São Paulo negar a Luan o benefício da gratuidade, direito concedido a quem não pode arcar com as despesas judiciais sem prejuízo do próprio sustento.

“É uma saga, tanto jurídica quanto psicológica, que eu ainda não me recuperei”, desabafa Luan, que atualmente está desempregado e enfrentando o que a Agência Pública descreve como uma “carga muito grande”.

A decisão, assinada pela juíza Luciana Biagio Laquimia, da 17ª Vara Cível de São Paulo, considerou que a renda do jornalista, embora modesta para o padrão de vida paulistano, era “significativamente superior à média nacional”, o que o tornava apto a custear o processo. Luan conta que seu salário era inferior a R$ 3,8 mil, valor que a justiça considerou suficiente para arcar com as custas. Ele também esclarece que a defensoria pública não atende a casos de danos morais como o seu, o que torna a contratação de um advogado particular a única opção.

​O caso envolvendo Luan e Zambelli remonta à tarde de 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, quando o jornalista foi perseguido por Zambelli, com uma arma em punho, em uma rua dos Jardins, bairro nobre de São Paulo. O que começou como uma discussão política acalorada, motivada pelo boné do MST que Luan usava, escalou para uma cena de faroeste urbano que chocou o país e se tornou um emblema da polarização política. “Sou um homem preto e periférico e apontaram uma arma para mim”, ele disse à época. As imagens, gravadas por testemunhas e amplamente divulgadas, mostram a parlamentar correndo atrás de Luan, empunhando uma pistola, enquanto seu segurança, o policial militar Valdecir Silva de Lima Dias, dispara. A deputada alegaria, mais tarde, ter sido agredida e empurrada, uma versão que, segundo apurou a Pública no local, foi desmentida por quatro testemunhas.

Luan reforça a conotação racial do ataque: “Eu não estava sozinho no dia; eu estava com um amigo meu ao meu lado… Esse meu amigo é branco e estava discutindo com ela como eu, e ela foi pra cima de mim… Dá pra ter certeza de que tem esse fator racial também.” Ele acredita que a presença de testemunhas foi crucial: “Por sorte, havia muitas testemunhas ali. Mas se não tivesse… talvez eu não estivesse aqui.”

A narrativa de Zambelli, de que teria reagido a uma agressão, foi sistematicamente desmontada ao longo das investigações e do processo criminal que se seguiu. Meses depois, em março de 2025, o próprio Jair Bolsonaro culparia Zambelli pela sua derrota nas eleições, afirmando que a imagem da deputada perseguindo Luan com arma em punho “tirou” sua reeleição. “Aquilo teve gente falando: ‘Olha, o Bolsonaro defende o armamento’. Mesmo quem não votou no Lula anulou o voto”, declarou o ex-presidente, atualmente preso na Papudinha, em Brasília. A margem de vitória de Lula havia sido apertada: 50,90% contra 49,10% de Bolsonaro, a menor diferença já registrada em eleições presidenciais brasileiras.

Do asfalto ao STF: a inversão de papéis

O episódio da perseguição armada não terminou na calçada da Alameda Lorena, mas se desdobrou com Carla Zambelli, desde o primeiro momento, invertendo a lógica dos fatos e posicionando-se como vítima. Logo após o incidente, ela usou suas redes sociais para afirmar que havia sido atacada por um grupo de apoiadores de seu adversário político. Contudo, o Supremo Tribunal Federal (STF) não corroborou sua versão.

​Em agosto de 2025, a deputada foi condenada no STF, por 9 votos a 2, pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e de constrangimento ilegal com emprego de arma. A pena estabelecida foi de cinco anos e três meses de prisão em regime semiaberto, além da perda do mandato parlamentar, a ser efetivada após o esgotamento de todos os recursos. O voto do relator, ministro Gilmar Mendes, foi taxativo ao afirmar que a alegação de Zambelli, de que teria ouvido um disparo e não sabia de onde vinha, “não encontra respaldo na dinâmica factual”. A ministra Cármen Lúcia classificou a tese da defesa como “delirante”.

A ex-deputada Carla Zambelli (foto) sacou uma pistola na rua e, com a arma em punho, perseguiu um homem até uma lanchonete
Perseguido por Carla Zambelli, Luan Araújo faz vaquinha na internet para custear processo

Enquanto a justiça criminal avançava, Zambelli abriu outra frente de batalha: processou Luan por difamação, em razão de um artigo que ele publicou sobre o ocorrido. A deputada obteve uma vitória inicial na primeira instância, mas a defesa de Luan recorreu, processo que ainda tramita na justiça. O jornalista, por sua vez, sentiu na pele as consequências do trauma. “A assistência psicológica, eu tive que aumentar as doses de remédios antidepressivos e de ansiedade… mudou muita coisa na minha vida”, relata. Ele vê a ação por danos morais como uma forma de reagir: “Eu tomei muita pancada nesses últimos quatro anos… eu preciso também revidar de alguma forma, eu preciso, pelo menos, de alguma forma, ser ressarcido pelo que me causaram e ainda me causam, que são danos psicológicos, afetivos e profissionais.”

Com uma meta estabelecida de R$ 28 mil, a vaquinha de Luan tinha alcançado pouco mais de R$ 16 mil até a publicação da reportagem, o que corresponde a 58,52% do valor total necessário. Embora tenha arrecadado mais da metade da meta, a vaquinha ainda necessita de R$ 11 mil para atingir o objetivo. Luan esclarece que o valor é uma condição para que o processo inicie. “Eu tenho que ter esse valor de garantia… para começar a proceder”, explica. Sem os 28 mil reais, a ação não pode avançar.

Crimes de Zambelli não se limitaram ao episódio Luan

​Em maio de 2025, Zambelli foi condenada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF, a dez anos de prisão em regime fechado, por orquestrar a invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em janeiro de 2023. A operação, realizada pelo hacker Walter Delgatti Neto, resultou na inserção de documentos falsos, incluindo um mandado de prisão fraudulento contra o ministro Alexandre de Moraes. A condenação também determinou multa milionária, perda do mandato e inelegibilidade por oito anos.

​Após a condenação, Zambelli fugiu do Brasil pela fronteira com a Argentina em maio de 2025, seguindo para os Estados Unidos e, depois, para a Itália, país do qual possui cidadania. Seu nome foi incluído na lista vermelha da Interpol, tornando-a procurada internacionalmente. Em 29 de julho de 2025, foi presa na Itália, onde aguardava a decisão sobre sua extradição ao Brasil. Zambelli renunciou ao cargo de deputada federal para não ser cassada.

Edição:
Reprodução Internet

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 234 “STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida

Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas