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Juiz de Fora enfrenta semana com dois dias entre os cinco mais chuvosos já registrados

Município mineiro já registrou mais de 50 mortos e milhares de pessoas desabrigadas em função das chuvas

Reportagem
27 de fevereiro de 2026
13:09

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Juiz de Fora (MG), 25/02/2026 – Moradores retiram móveis de suas casas após fortes chuvas no bairro Cerâmica, na zona sudeste de Juiz de Fora
Tomaz Silva/Agência Brasil

As fortes chuvas que devastaram Juiz de Fora, em Minas Gerais, estão entre as piores da história da cidade, segundo medições feitas a partir de 1961.

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) enviados à Agência Pública, a última terça-feira, 24 de fevereiro, e esta quinta-feira, 26 de fevereiro, estão entre os cinco dias de maior precipitação em um período de 24 horas da série histórica, com 137,8 e 138,2 milímetros de chuva, respectivamente. 

Apenas outras três datas no registro histórico tiveram temporais que ultrapassaram esses valores. O recorde se deu no dia 12 de março de 2001, que acumulou 147,4 milímetros em 24 horas. Em 7 de dezembro de 1998 choveu 144,6 milímetros. 

Já em 12 de fevereiro de 1995, o acumulado chegou a 138,7 milímetros. Nessa data, quatro crianças (duas eram bebês de 2 anos e as outras tinham 6 e 9 anos de idade) morreram em deslizamentos de terra que soterraram as casas em que viviam. Conforme informações noticiadas à época, pelo menos 50 famílias tiveram suas casas inundadas ou destruídas. 

Este fevereiro, de 2026, também entrará para os registros como um dos mais chuvosos da história da cidade. Até o dia 24, segundo o Inmet, o acumulado de chuva era de 579,3 milímetros, o triplo da média climatológica de fevereiro, que é de 170,3 milímetros. Pelos dados levantados pelos professores da UFFJ, é o terceiro mês de mais chuva desde 1974. 

O tamanho da tragédia, desta vez, supera os danos provocados por outras chuvas extremas ao longo da história da maior cidade da zona da mata mineira, que tem cerca de meio milhão de habitantes. Até esta sexta-feira, 27, o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil contabilizavam 58 mortos – entre eles, também uma bebê de apenas 2 anos e ao menos outras 7 crianças – e mais de 3.500 desabrigados (que não têm para onde ir e precisam ser abrigados em escolas públicas, por exemplo) e desalojados (que tem para onde ir, como casas de parentes e amigos).

Como afirmaram moradores que conversaram com a reportagem, a cidade nunca enfrentou um desastre parecido. “Eu estou sem acreditar, porque nunca vi isso aqui. Tem notícia por toda a cidade, no centro, nos bairros periféricos”, contou Artur Marasco, de 33 anos, que perdeu uma amiga, vítima de soterramento. 

Na terça-feira (24), a prefeitura decretou estado de calamidade pública, reconhecido pelo governo federal no mesmo dia. Conforme os dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, a última vez que Juiz de Fora declarou problemas semelhantes foi em janeiro de 2007, quando a prefeitura decretou situação de emergência também por causa de chuvas fortes, que provocaram enxurradas no município. 

Por que isso importa?

  • Juiz de Fora está entre as dez cidades brasileiras com maior número de pessoas vivendo em áreas de risco, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
  • Em 2025, a cidade também foi a quarta que mais recebeu alertas sobre riscos de desastres naturais, conforme dados do Cemaden. 

Aquele janeiro de 2007 acumulou 584,1 milímetros de chuva, conforme informações disponíveis no livro “Clima de Juiz de Fora: 50 anos de dados meteorológicos”, publicado por professores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFFJ) em 2023. Segundo o g1, houve vários registros de alagamentos, com prejuízos para o comércio e para os serviços públicos. Felizmente, ninguém morreu. Foi o segundo mês mais chuvoso desde 1974, só superado por janeiro de 1985, que acumulou impressionantes 715 milímetros. 

Conforme o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, uma situação de emergência se dá quando um evento extremo “compromete parcialmente” a capacidade de resposta do poder público local. “Já o estado de calamidade pública é declarado quando o impacto do desastre é tão grave que a capacidade de resposta da administração pública fica severamente comprometida, exigindo medidas mais amplas e urgentes”, diz a pasta. 

Os dados de precipitação acumulada, porém, podem variar ligeiramente a depender da metodologia adotada para a soma, explicou o meteorologista Lizandro Gemiacki, do Inmet, à reportagem. 

No campus da Universidade Federal de Juiz de Fora funcionam duas estações meteorológicas, uma automática, que faz medições de hora em hora desde 2007, e outra convencional, que registra três observações diárias digitalizadas desde 1961, explica Gemiacki. 

Pela metodologia do Inmet, o total diário é obtido pela soma das chuvas entre as 9h da manhã do dia anterior e as 9h da manhã do dia atual.

Por esse critério, de acordo com o Inmet os maiores totais diários já registrados pela estação convencional são:

  • 12/03/2001: 147,4
  • 07/12/1998: 144,6
  • 12/02/1995: 138,7
  • 26/02/2026: 138,2
  • 24/02/2026: 137,8
  • 14/01/1966: 133,6
  • 25/01/1985: 129,3
  • 11/03/1981: 125,7
  • 11/03/2018: 123,4

Eventos extremos de precipitação costumam estar associados a danos à cidade e à sociedade, com alagamentos, enchentes e deslizamentos. No caso de Juiz de Fora, foram classificados como eventos extremos de precipitação registros superiores a 71,9 milímetros/dia segundo livro dos professores da UFFJ. Os dados levantados por eles apontam para o dia 12 de fevereiro de 1995 como recorde da série histórica, com 137,5 milímetros. 

Esses eventos extremos costumam ocorrer durante a estação chuvosa, entre os meses de outubro e março, e, no geral, estiveram associados à formação da chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul, definida como um corredor de nuvens que corta o país desde o sul da região amazônica até o oceano Atlântico. Os episódios, que duram entre quatro e dez dias, provocam grandes volumes de chuvas nas áreas afetadas. “Em algumas localidades, o total de chuva pode chegar a 100 milímetros, ou superar este valor, ao final de cada evento”, informa o Inmet. 

Além de estar localizada na região afetada por essa zona de convergência, Juiz de Fora é uma cidade com relevo acidentado, repleta de morros e com muitas pessoas vivendo em áreas de encosta. Não à toa, em 2025, a cidade foi a quarta que mais recebeu alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que monitora 1.133 municípios. Apenas Manaus (AM), São Paulo (SP) e Petropólis (RJ) tiveram mais alertas para enxurradas, inundações, enchentes e deslizamentos.

Ainda de acordo com o Cemaden, Minas Gerais é o estado com maior número de cidades sob risco no período chuvoso. “Dos 853 municípios mineiros, 306 são mais suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, o que representa perigo para cerca de 1,5 milhão de pessoas”, diz relatório do centro lançado nesta semana. 

Edição:
Reprodução Cemaden

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