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Paciência

Vício em redes sociais impede desenvolvimento dessa ferramenta emocional fundamental para a vida adulta

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23 de fevereiro de 2026
17:00

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No barracão da sua escola na Fábrica do Samba, Graice Kelly olhava com atenção para o costado – a peça da fantasia posterior que se apoia sobre os ombros dos componentes – fixando as pequenas pepitas douradas de plástico, arma de cola quente na mão. Ao ver alguma recalcitrante, puxava, sem pressa, reforçava a cola: poderia chover na noite do desfile. Depois, salvou uma pepita que adornava uma das pétalas da enorme flor assentada sobre o peito do folião; era uma de cinquenta, no figurino de um dos oitenta membros da ala, de 1800 pessoas que desfilariam na sexta-feira seguinte, de carnaval. Fez isso o dia todo, diligente e precisa.  

De todas as qualidades essenciais para navegar a vida, talvez a mais maltratada seja a paciência. Vivemos dias de aflição, em que a urgência por obter respostas parece ter recriado a operação do mundo de modo que basta querer, insistir, e ser alpha (ou não ser alpha mas apertar o botão refresh com vigor repetido) para obter o que se quer. 

Mas não se faz o maior espetáculo da terra sem que exista Graice Kelly e sua enorme paciência em contar, uma a uma, as falsas pedras preciosas que emulam um luxo de fabulação na avenida. Não há maneira de se construir uma casa, uma cabana, uma estação de metrô ou uma empresa sem paciência. 

É preciso paciência para aprender a viver e para aprender a amar uma pessoa, e paciência para entender que não se comanda os caminhos da vida; que muitos projetos dão errado, o emprego some, uma receita acaba, um bom governo acaba, um partido político perece. 

É preciso paciência para entender que o amor acaba. Que a alegria acaba. Que a vida acaba. É preciso paciência para saber morrer, porque até a morte ensina, com suas tantas caras e cores, mas ela sempre vem.  

É preciso paciência para aceitar a realidade quando ela é tão maligna, mas também entender que a história é cíclica e há muitas correntes se desenvolvendo ao mesmo tempo. É preciso paciência para se construir uma mobilização social, para tentar aprofundar a democracia fundando um partido ou um movimento ou uma associação, para sofrer derrotas e entender qual é o caminho a seguir. Para se ter um filho, ver a carinha do seu bebê aos nove meses, é preciso paciência. Para que os planos deem certo, ou para saber se deram errado, é preciso paciência. Até mesmo na guerra, na estratégia militarista e falocêntrica, a arte de ter paciência é elemento essencial. Não se avança, apenas; ficar parado, esperar, ler os sinais do teatro da guerra, recuar inclusive, são táticas essenciais para ganhar vantagem sobre o inimigo. 

Não sei se ainda se ensina crianças a ter paciência hoje em dia; na minha época, esperar o bolo esfriar ou a mãe terminar de raspar bem a panela de brigadeiro, para então liberar o que ficara grudado pra mim e minha irmãs, era uma lição memorável. Os programas chatos que meu pai via na tevê tinham sempre prioridade sobre os nossos – e só havia uma tevê, e todos estávamos condenados a ela. O tempo de ir de carro até o supermercado, a fila do banco; o tempo longo até decorar os resultados da tabuada de 9. 

Sei que, hoje, as crianças estão sujeitas à máquina que corrói qualquer valorização da paciência como uma virtude. Se eu não recebo uma resposta de um email, em 3 dias o Google me escreve: quer retomar este email, incomodar o outro ser humano? Se fico um tempo sem ir ao LinkedIn, essa rede me manda recado que estou perdendo muitas oportunidades de trabalho. Isso que eu desabilitei todas as notificações de todos os aplicativos (tarefa que, aliás, requer paciência).  

O vício é o maior algoz da paciência, essa ferramenta emocional fundamental para se lidar com a vida adulta. Não há um ser mais impaciente do que o doente de vício tentando, exasperado, matar a sua sede daquela coisa. E as redes sociais, como já foi exaustivamente comprovado, foram desenhadas para serem viciantes. A liberação de dopamina quando se conecta faz com que a gente sinta uma necessidade constante de estar ali – e isso afeta mais as crianças. 

Ao permitirmos que o vício na tecnologia aniquile o aprendizado da paciência, tenho medo de que as crianças crescidas com o digital não sejam capazes de lidar com as frustrações mais básicas da vida – como o fato de que tem coisas que a gente não consegue aprender mesmo, todo mundo é demitido alguma hora, há crushs que não gostam da gente, e o fato que as pessoas e os cachorros e os sonhos morrem. Daí vem o excesso de medicalização: para lidar com a vida.

(Mas isso é assunto para outra coluna).  

Neste momento, nos EUA, o vício nas redes sociais está sob julgamento. Desde o começo do mês, um tribunal de Los Angeles está julgando um processo iniciado por uma jovem de 19 anos, conhecida como Kaley, que, obstinada como nossa Graice Kelly, pede uma indenização e punição ao Google e à Meta por deliberadamente arquitetarem seus produtos para serem viciantes para crianças. Snapchat e Tiktok, também réus no processo inicialmente, decidiram entrar em acordo secreto com a reclamante.  

Kaley conta que começou a usar o YouTube aos 6 anos e o Instagram aos 9. Fixou-se nos modelos de beleza ali propagados, viciou-se em fazer selfies e usar filtros de embelezamento, o que contribuiu para o desenvolvimento de dismorfia corporal e outros problemas de saúde mental. Vieram a depressão e os pensamentos suicidas. 

O processo aponta recursos como filtros de beleza, rolagem infinita e reprodução automática como equivalentes a um “cassino digital”. 

No último dia 18, o próprio Mark Zuckerberg foi até o tribunal para testemunhar. Disse que se preocupa com o bem-estar dos adolescentes. “Se você construir uma comunidade e as pessoas não se sentirem seguras, isso não é sustentável e, eventualmente, as pessoas vão embora e se juntam a outra comunidade.”

Mas, em meio a respostas evasivas, ele teve que olhar demoradamente para centenas de selfies de Kaley no Instagram, novinha, posando, obcecada, numa colagem orquestrada pelo seu advogado, Mark Lanier. 

Lanier mostrou ainda alguns documentos internos da Meta que são profundamente reveladores, de dar náusea. Em um e-mail interno de 2017, um diretor explica que, por decisão de Mark, “nosso objetivo estratégico geral é todo tempo gasto por adolescentes na rede” – ou seja, apostar em qualquer produto que aumentasse a quantidade de tempo que os adolescentes passam na plataforma.

Em outro documento, de 2015, a empresa estima que 30% das crianças norte-americanas de 10 a 12 anos usam Instagram – e outro documento mostra que a empresa tinha como meta ampliar o tempo gasto por crianças de 10 anos. “Se quisermos ganhar muito com os adolescentes, precisamos trazê-los para a plataforma ainda quando são pré-adolescentes”, explicava um executivo. 

O caso judicial atualmente em julgamento em Los Angeles é fruto da união de 1.600 processos semelhantes movidos por famílias e por distritos escolares do estado. A decisão do júri deverá influenciar a resolução de todos esses casos pendentes. 

Há ainda milhares de processos acontecendo em tribunais estaduais e na corte federal norte-americana. 

Este é apenas o primeiro passo. Vale lembrar que foram necessários quase 15 anos para que os processos judiciais contra as empresas de tabaco resultassem em uma mudança de política governamental dos EUA, alertando sobre os riscos do fumo e criando restrições à expansão da indústria. 

Estamos, portanto, apenas no início da jornada que levará ao controle social das Big Techs.  O que também exigirá tempo – e paciência. 

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