Buscar
Coluna

Cidades brasileiras crescem em direção ao perigo climático

Estudo mostra que elas têm se expandido mais para áreas com declividade, perto de corpos d’água e para favelas

Coluna
5 de março de 2026
17:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Os desastres climáticos que testemunhamos ano a ano no Brasil, como os que recentemente atingiram a região da zona da mata em Minas Gerais, são um dos reflexos não apenas do clima do planeta em mutação, mas da forma como as cidades têm crescido em direção ao perigo. 

Um levantamento divulgado nesta semana pelo MapBiomas mostra que, no já conhecido processo de crescimento desordenado de muitas cidades, principalmente nas regiões metropolitanas, o avanço tem sido maior justamente em direção a áreas com alta declividade ou próximas a corpos d’água, o que aumenta o risco de sofrerem com deslizamentos e enchentes.

O MapBiomas, uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, monitora as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil desde 1985. A avaliação mais recente aponta que nas últimas quatro décadas, enquanto as áreas urbanas, de um modo geral, cresceram 2,5 vezes, o avanço sobre áreas com alta declividade – ou seja, as mais inclinadas, como morros –, aumentou mais de 3 vezes no mesmo período.

O aumento da exposição a risco ambiental também ocorre quando se avalia o avanço das cidades em relação a cursos d’água. O levantamento considera a diferença vertical entre a superfície do terreno urbanizado e a linha de drenagem natural mais próxima, como um rio, por exemplo. 

De acordo com o MapBiomas, a ocupação de locais com essa diferença de até três metros – o que os torna mais vulneráveis a enchentes, alagamentos e inundações – aumentou 145% nos últimos 40 anos, passando de 493 mil hectares em 1985 para 1,2 milhão de hectares em 2024. 

As áreas das favelas também cresceram mais (2,75 vezes) do que o processo geral de urbanização (2,5 vezes). E essa expansão também vem se dando sobre áreas de risco. Houve um aumento de 150% da área de favelas em terrenos com alta declividade e de 200% para as áreas a menos de 3 metros de distância vertical de áreas de drenagem. 

O levantamento ajuda a entender melhor o que a gente tem visto na prática em termos de desastres ambientais nos últimos anos e bate com os alertas de risco que são feitos pelo Cemaden, como eu apontei na minha coluna da semana passada.

Por exemplo, Minas Gerais, onde mais de 70 pessoas morreram em decorrência das chuvas extremas da semana passada, é o estado com a maior área urbanizada em alta declividade no Brasil. E entre 1985 e 2024, essa área triplicou. Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas pelo temporal, é a terceira cidade com maior área de urbanização em terrenos acima de 30% de inclinação no país. Atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. 

Já Rio Grande Sul e Santa Catarina, estados que também sofreram com as chuvas nos últimos anos, foram os que tiveram maior crescimento de urbanização em alta declividade em termos proporcionais nesses últimos 40 anos.

Cidades que sempre vemos sofrer com alagamentos, como Rio e São Paulo, são as primeiras no ranking dos municípios com maior área urbanizada com até três metros de altura de corpos d’água. O Rio, particularmente, chama a atenção por ter 43% da área do município nessas condições.

“O caso do Rio de Janeiro é lente de aumento sobre o padrão brasileiro: os dados indicam que a expansão das favelas ocorreu de forma expressiva em áreas topograficamente e hidrologicamente sensíveis, com crescimento proporcionalmente elevado tanto em encostas quanto em cotas muito próximas à drenagem”, comentou Julio Pedrassoli, um dos coordenadores do mapeamento de Áreas Urbanizadas do MapBiomas, em nota distribuída à imprensa.

Os dados evidenciam como o planejamento urbano está desconectado da emergência climática e como não existe uma orientação dos governos locais a deixarem cidades e estados mais resilientes nem as suas populações mais protegidas, visto que a ocorrência de eventos extremos vem aumentando cada vez mais no Brasil.

De acordo com relatório do Cemaden lançado na semana passada, foram registrados 7.539 desastres climáticos entre 2020 e 2023, um aumento de 222,8% em relação às 2.335 ocorrências verificadas na década de 1990. E a proporção de municípios afetados subiu de 27% para 83%.

Citei um ponto na semana passada e acho sempre importante reforçar. O que transforma uma chuva intensa em desastre é ela atingir uma região vulnerável, com populações morando em encostas ou beiras de rio. 

São pontos que deveriam estar na cabeça de todo eleitor na hora de decidir seu voto. Em 2024, antes das eleições municipais, conduzimos toda a nossa cobertura eleitoral aqui na Agência Pública pela lente da emergência climática. Na época, a gente publicou uma reportagem mostrando que mais de 1.600 municípios do Brasil – um em cada três, onde vive 50% da população – têm risco de impacto alto ou muito alto para desastres relacionados a chuvas, como deslizamentos de terra e/ou inundações, enxurradas e alagamentos. 

Isso foi em 2024. Novos prefeitos foram eleitos. Muitos dos candidatos às capitais disseram para nossa equipe há pouco menos de dois anos que a questão climática seria uma prioridade. Desafio o leitor a citar um bom caso em que foram adotadas políticas para proteger as cidades dessas tragédias. Adaptação à mudança do clima ainda não virou realidade, e precisa. Quanto antes for feito, menos vai custar e mais vidas serão salvas.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência

Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras

Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais