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Cuba: o país da solidariedade está sozinho?

Ameaça de Trump paralisa ajuda dos países amigos e potências rivais dos EUA não se dispõem a defender a ilha

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27 de março de 2026
17:00

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Quando a epidemia de Ebola assolou a África Ocidental, em 2014, foram os médicos cubanos os primeiros a se voluntariar para embarcar para Serra Leoa. Margareth Chan, então diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS) saudou o “comprometimento” de Cuba e a ida dos 165 médicos que fariam “uma significativa diferença em Serra Leoa”; ao que o ministro de Saúde cubano respondeu: “Cuba é famosa por treinar médicos e enfermeiras e por sua generosidade na ajuda aos países amigos em busca do progresso.”

Não era bravata. Em 1998, por exemplo, quando o furacão Mitch atingiu dez países no Caribe, Cuba foi a primeira a atender ao chamado dos chefes de Estado da região, inclusive ajudando financeiramente a Nicarágua. Isso, mesmo depois de enfrentar o mais longo bloqueio econômico e o terrível período especial – quando o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim deixaram a ilha sem parceiros econômicos. O país, inspirado por Che Guevara e ainda então liderado por Fidel Castro, continuou solidário mesmo na penúria.

Quando os cubanos partiram para Serra Leoa, Cuba já havia socorrido mais de trinta países africanos e enviado 132 mil médicos voluntários a 102 países. Uma expertise que passaria a ser também um “serviço de exportação” da ilha, como o programa Mais Médicos, lançado no ano anterior no Brasil para atender a população mais carente de atendimento. 

A troca foi ainda mais intensa com os venezuelanos: além de serviços médicos e de inteligência em troca de petróleo,1 milhão e meio de venezuelanos aprenderam a ler e escrever com missões cubanas – a exemplo daquela realizada por 270 mil estudantes na ilha depois da Revolução, que zerou o analfabetismo em 1961.

Hoje, fragilizada pela crise energética com sete apagões gerais depois da invasão de Trump à Venezuela e o bloqueio de combustível imposto pelos Estados Unidos, é Cuba que desperta “muita preocupação” da OMS, como afirmou na quarta-feira (25), o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “A saúde deve ser protegida a todo custo e nunca ficar à mercê da geopolítica, dos bloqueios energéticos e dos cortes de eletricidade”, declarou no X, referindo-se aos hospitais funcionando precariamente em Cuba.

Os Estados Unidos não perdoam a ilha por ter afirmado seu próprio destino e por inspirar a luta por justiça e igualdade de jovens do mundo inteiro, sobretudo na América Latina. Cuba jamais representou ameaça bélica para os Estados Unidos – ao contrário, foi a potência militar que apoiou operações clandestinas, como a invasão da Baía dos Porcos pelos cubanos de Miami, e as inúmeras tentativas da CIA de matar Fidel. Sem falar no bloqueio econômico imposto pelos EUA já no início dos anos 1960, antes que os cubanos se aproximassem de russos e chineses.

Agora, Trump e seus homens, sobretudo o secretário de Estado, Marco Rubio, filho de cubanos de Miami, querem esmagar o que restou do sonho revolucionário. O que conquistaram pode parecer pouco para os que não conhecem a realidade do nosso lado do hemisfério, mas persiste na frase famosa de Fidel colocada em um outdoor à frente do aeroporto: “Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, nenhuma delas é cubana”.

Sim, a falta de recursos é uma realidade em Cuba, mas o desamparo não. Por mais que a revolução tenha se deteriorado, até pelo bloqueio econômico que empobreceu o país, e o poder tenha se distanciado da população, com presos políticos e controle da imprensa, os cubanos ainda têm orgulho de ter todas as crianças na escola, protegidas e abrigadas, ainda que em moradias precárias e agora muitas vezes sem luz.

Quando reclamam do governo, o que fazem em voz alta e em qualquer lugar, os cubanos têm o cuidado de ressaltar a diferença – positiva – em relação a seus vizinhos no Caribe, quase todos dependentes dos Estados Unidos ou em situação econômica pior, como o Haiti. Também não querem que Havana possa parecer com metrópoles como São Paulo e a Cidade do México, com altas taxas de criminalidade e muita riqueza ao lado de pessoas que não têm nem onde morar.

Lembro como me encantei ao ver bandos de crianças de uniforme caminhando livremente para a escola nas ruas de Havana, sem medo nenhum. Ao comentar com Maura, uma amiga cubana, ela me respondeu. “É por isso que nós nos preocupamos em pensar em uma transição do regime sem perder o legado da revolução. Não queremos virar uma república de bananas, nem conviver com a violência e a miséria das grandes cidades da América Latina. Mal ou bem, conquistamos o respeito do mundo todo”.

Tenho vergonha quando vejo países amigos como o México negarem combustível a Cuba ou oferecerem uma ajuda pouco consistente, como fez o Brasil, por medo de Donald Trump sem que nenhuma potência europeia ou asiática se disponha a de fato ajudar a ilha. Há décadas o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba é considerado ilegal e condenado pela esmagadora maioria dos países na ONU, mas nada de concreto foi feito.

Para reconstruir Cuba e socorrer aqueles que tanto contribuíram com o mundo e nos fizeram sonhar com justiça social e solidariedade, os países amigos precisam fazer muito mais. E com todo o respeito pela história da ilha, como lembram os barquinhos com voluntários de vários países na missão Nuestra América – a versão cubana da Flotilha da Liberdade. Ali, os mantimentos vão acompanhados de simbolismo e da gratidão de todos nós pela generosidade justamente mencionada no episódio do Ebola.

Não será em vão que as crianças de Cuba vão continuar a repetir em suas cerimônias de formatura o juramento que simboliza a aspiração e o potencial da humanidade de transformar o mundo: “Seremos como El Che!”.

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