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Bets: quando a realidade e a fantasia se confundem, lucram os espertalhões

Banir as bets pode ser tão difícil quanto acabar com o crime organizado; mas sem combate, perdemos o controle

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17 de abril de 2026
17:00

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As apostas online são devastadoras porque são feitas pelo celular. Não apenas pela facilidade, um incentivo poderoso como sabem gigantes como Amazon e Meta, mas porque acontecem no mesmo ambiente virtual e ilusório que habitamos agora. Se imaginar rico da noite para o dia, ou mesmo encarar as bets como “investimento”, faz parte dessa fantasia.

Não é à toa que seus maiores propagadores são os influencers, embora camisas de times e propagandas veiculadas em jogos com apostas no resultado também tenham impacto. Isso apesar dos diversos escândalos de manipulação de resultados, com a corrupção de clubes e de jogadores – no vôlei e no basquete também, mas sobretudo no futebol. 

Quase todos os clubes da Série A do Campeonato Nacional (18 de 20) tiveram bets como patrocinadoras máster, ostentando suas marcas no peito das camisas oficiais. O mesmo se dá em relação ao patrocínio da transmissão dos jogos. Neste ano, por exemplo, Betnacional e Betano fazem parte do pacote do futebol nacional em quatro canais da Rede Globo, instigando mais apostas no celular do que torcida.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos relacionada apenas às apostas esportivas, liberadas pela Suprema Corte em 2018, mostrou que, enquanto o acesso geral às apostas, incluindo a modalidade presencial, impactava em 0,7% a pontuação do crédito médio da população, as apostas online provocaram quedas de 12% já associadas ao aumento de indicadores de endividamento excessivo, incluindo falência, dívidas enviadas para cobrança, inadimplência em cartões de crédito e em financiamentos de veículos.

Mas há coisas piores do que as apostas que se concentram em gols ou resultados de jogos como sabemos nós, habitantes das telas dos tigrinhos. Tanto é que a MP que o governo mandou para o Congresso em 2023, para regulamentar um mercado explosivamente ilegal liberado por Michel Temer em 2018, referia-se apenas às chamadas apostas de quota fixa (em que se sabe qual é o prêmio no momento em que se joga) em eventos esportivos.

Foi na tramitação do Projeto de Lei, que substituiu a MP em um acordo do governo com o Congresso, que os caça-níqueis e cassinos online foram incluídos sorrateiramente. Quem pendurou o jabuti na árvore foi o deputado Adolfo Viana (PSDB-BA), então relator do PL. Ao repórter João Gabriel, da Folha de S. Paulo, que flagrou a artimanha, o parlamentar nem disfarçou o lobby: “Quando recebi a relatoria, conversei com representantes do setor, que apresentaram a situação de que 70% do faturamento das bets vinha dos jogos online. Acrescentamos o dispositivo, pensando na atratividade do mercado”.

Claro que isso traz uma arrecadação para os governos – o nosso obteve 10 bilhões de reais em impostos no ano passado. Mas está longe de compensar: de acordo com estimativas de um estudo feito pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), o custo anual com tratamentos de saúde, perda de qualidade e mortes associadas às apostas online é de 30,6 bilhões de reais, três vezes maior do que a arrecadação.

Mais de 25 milhões de brasileiros apostaram em bets no ano passado. Além dos impactos na saúde, o hábito (ou vício) nas bets está destruindo o orçamento das famílias, como revelou um estudo recente do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School. As bets são o principal fator da aceleração do endividamento, superando o pagamento de juros e empréstimos, de acordo com a pesquisa. 

O cientista político Felipe Nunes, fundador da empresa de pesquisas Quaest, chegou à mesma conclusão por outro caminho – o das pesquisas qualitativas eleitorais. Ao se debruçar sobre o “mistério” que se abate sobre o governo – que tem 52% de desaprovação, apesar de indicadores positivos em emprego e renda -, Nunes bateu primeiro na inadimplência, que atinge mais de 44% dos brasileiros em idade adulta. Foi nas salas de pesquisa só com homens que o segredo apareceu: as bets, muitas vezes feitas às escondidas, estão acabando com o orçamento familiar.

A descoberta explica a investida de Lula e do PT contra as bets até pela constatação do óbvio: as apostas online estão impactando o bem estar dos brasileiros e as eleições e a regulamentação não impede crimes como a lavagem de dinheiro e apostas ilegais como vimos mais uma vez no caso da prisão recente dos MCs Ryan e Poze do Rodo, além de dois influencers, um deles dono da página Choquei.

Mas qualquer mudança depende do Congresso, como disse o presidente da República. E a gente sabe que apostas, seja em bets, bitcoins ou em esquemas como o de Vorcaro, tem aliados fiéis entre congressistas – não é curioso que o senador Ciro Nogueira apareça ligado a empresários de bets e ao Master?

Ainda que o governo tenha acordado tarde, e pelo despertador eleitoral, é urgente agir agora, enquanto o panorama só tende a se agravar. Em fevereiro, o grupo Globo anunciou uma parceria com a MGM Resorts – a BetMGM Brasil – para operar os cassinos online da empresa no Brasil. Também se busca ampliar as modalidades de apostas, com as  plataformas de previsão, que tem investimento sobretudo do mercado financeiro.

São apostas em eventos futuros – que vão de decisões econômicas a política, eventos esportivos e até as guerras – disfarçadas em títulos estruturados a partir de perguntas binárias sobre determinado fato. Em uma dessas plataformas, a Polymarket, quem apostou na morte de Ali Khamenei – o chefe supremo do Irã morto pelos Estados Unidos – ganhou quase 1 bilhão de dólares. Por aqui, elas ainda não estão regulamentadas, mas já há “derivativos” (como são chamados para escapar da legislação das bets) sobre previsões econômicas negociados pela XP e pelo BTG, com aprovação da CVM.

É por essas e por outras que enquanto Lula falava grosso contra as bets, um evento luxuoso em São Paulo, como mostrou a Pública, reunia empresas de apostas online, cassinos virtuais, provedoras de pagamentos e softwares, além de políticos, diretores e presidentes de loterias estaduais, jogadores de futebol e influenciadores. Ali, a fala de Lula foi vista como “delírio”, e a imagem negativa dos bets superável através de propaganda e lobby. Mais propaganda e lobby.

É neste cenário que a nossa atuação se torna vital. Este ano, vamos lançar uma série especial de reportagens investigativas que desvendam os bastidores das apostas no Brasil. Essa série só vai existir porque nossos leitores acreditam no jornalismo independente para fazer essa cobertura. Não recebemos dinheiro de empresas de apostas, nosso compromisso é com a transparência, e é por isso que precisamos do seu apoio para colocar essa investigação na rua.

Que o jornalismo independente nos guie nesse mundo antropofágico de ilusões e espertalhões e nos leve de volta ao mundo real. 

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