Buscar
Entrevista

Gaza, o genocídio que nunca termina

Jornalista, que teve vários familiares mortos, relata que ataques de Israel não pararam mesmo após o cessar-fogo

Entrevista
19 de abril de 2026
04:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Arquivo pessoal

Após anos da ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza, que teve início em 7 de outubro de 2023, um acordo de cessar-fogo chegou a ser anunciado em outubro de 2025 como uma tentativa de interromper os ataques e abrir espaço para negociações. No entanto, na prática, meses depois, os bombardeios e operações militares continuaram, evidenciando a fragilidade do acordo e a persistência da violência no território palestino.

Com a recente escalada da guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã, o foco da cobertura internacional se deslocou para o risco de um conflito regional mais amplo. Nesse cenário, a guerra em Gaza passou a ocupar menos espaço no noticiário global, apesar da continuidade dos ataques e do agravamento da crise humanitária na região. Desde o início dos ataques, já foram mortas pelo menos 70 mil pessoas só na faixa de Gaza, e os números aumentam diariamente.

Neste episódio do Pauta Pública, Andrea Dip entrevista o jornalista palestino Motasem A Dalloul, que vive e reporta os acontecimentos diretamente da Faixa de Gaza. Além de lamentar a perda da sua casa e de grande parte de sua família, incluindo esposa e três filhos, Dalloul fala sobre a precariedade das condições de vida dos palestinos e critica o papel das potências ocidentais em relação à violência na região. “Na prática, o cessar-fogo não existe. O que existe é apenas uma espécie de redução dos ataques. No entanto, de tempos em tempos, os ataques voltam a se intensificar e todos os dias, palestinos são mortos em Gaza. Não há um único dia sem novas mortes”. Afirma.

Leia os principais pontos e ouça o podcast completo abaixo.

EP 212 Gaza: a guerra que nunca termina – com Motasem A Dalloul

Jornalista em Gaza relata os impactos dos ataques de Israel e os efeitos da guerra no cotidiano da população palestina

0:00

Em teoria, após dois anos de conflito, um acordo de cessar-fogo formal na guerra entrou em vigor na Faixa de Gaza. Como está na prática?

Na prática, esse cessar-fogo não existe. O que existe é apenas uma espécie de redução dos ataques. No entanto, de tempos em tempos, os ataques voltam a se intensificar e, todos os dias, palestinos são mortos em Gaza. Não há um único dia sem novas mortes.

O tempo todo, eles matam civis e alegam que encontraram ou atingiram um líder de milícia. No entanto, os fatos no terreno mostram o contrário. Quando vamos aos hospitais e vemos os corpos das pessoas mortas, encontramos crianças, mulheres e, raramente, homens.

Isso demonstra que essas alegações são falsas e que servem para enganar o mundo e justificar os ataques e a continuidade das mortes de palestinos em Gaza. E, se esse for o argumento, de que estariam atingindo combatentes, tudo bem, vamos aceitar isso por um momento. Mas, então, por que não permitem a entrada de comida suficiente? Por que não permitem a entrada de medicamentos? Por que impedem a chegada de materiais de reconstrução para restaurar hospitais e clínicas?

E deixe-me perguntar: por que não avançam para a segunda fase do cessar-fogo, quando o lado palestino cumpriu integralmente tudo o que era exigido, tudo o que estava previsto no acordo? Eles libertaram os prisioneiros, entregaram os corpos dos prisioneiros mortos e até abandonaram seus escritórios. O governo palestino em Gaza, que Israel alegava ser composto por milícias e militantes do Hamas, abandonou seus escritórios.

E eles disseram que estavam esperando que o Conselho de Paz viesse assumir as responsabilidades. No entanto, recusaram-se a permitir que os membros desse conselho entrassem e começassem a trabalhar, a operar em Gaza, e a administrar a vida da população. Eles não se retiraram nem um centímetro das áreas ocupadas, embora fossem obrigados a isso pelo acordo de cessar-fogo. Todos os dias, eles expandem a área ocupada e empurram e comprimem a população para um espaço muito pequeno, menos da metade da Faixa de Gaza.

Se você vier a Gaza e olhar para a costa do Mediterrâneo, verá que toda a orla está cheia de tendas e de pessoas deslocadas. Imagine centenas de milhares de pessoas sem casa, dormindo à beira-mar, no frio do inverno. Imagine que, em uma noite, todas essas pessoas vão dormir e, de repente, uma onda forte do mar arrasta as tendas e elas acordam correndo, procurando seus filhos. Essa é uma vida insuportável.

Gaza tornou-se inabitável. As forças de ocupação israelenses posicionadas a leste da cidade de Gaza ou na parte ocupada da Faixa de Gaza continuam atirando contra as tendas das pessoas deslocadas.

No mês passado, uma bala atravessou a tenda dos meus filhos. Mas, graças a Deus, nenhum deles ficou ferido. Mas, durante este genocídio, perdi minha esposa e três filhos.

Em fevereiro de 2024, perdi minha esposa e meu filho pequeno, Abu Bakr, ele tinha cerca de dois anos e meio. Em maio de 2024, perdi outro filho. E, em 8 de outubro de 2025, perdi meu terceiro filho. Meu terceiro filho estava noivo e estávamos planejando o casamento para depois do fim do genocídio, na tentativa de amenizar a dor e a tristeza que vivíamos. Mas, dois dias antes do anúncio do cessar-fogo, ele foi morto enquanto tentava conseguir comida para nós.

E não foram apenas esses quatro membros da minha família que foram mortos. Eu perdi um irmão — ele tinha 40 anos — e o filho mais velho dele, meu sobrinho. Também perdi uma irmã, que foi atacada dentro de casa junto com o marido, os filhos e os netos. Ela foi morta, assim como seus filhos e netos. Apenas o marido e um dos filhos sobreviveram. Também perdi toda a família de outro irmão, meu irmão mais velho, que está no Egito.

No total, perdi mais de 200 parentes da minha família ampliada. E isso, infelizmente, não é incomum quando comparado ao número total de mortos, que ultrapassa 72 mil pessoas.

Quero fazer uma observação sobre esse número: o dado oficial aponta mais de 72 mil mortos, mas há cerca de 10 mil pessoas desaparecidas que não estão incluídas nessa contagem. Sabemos que muitos dos desaparecidos estavam dentro de suas casas quando foram atacadas, o que indica que seus corpos provavelmente estão sob os escombros. Mas também há milhares de pessoas desaparecidas cujo destino é desconhecido. Não sabemos onde estão, se estão vivas ou mortas, se foram vítimas de desaparecimento forçado, sequestradas ou detidas pelas forças de ocupação israelenses. Não sabemos nada sobre eles.

Como a escalada da guerra dos Estados Unidos/Israel contra o Irã , e no Oriente Médio de forma mais ampla, tem afetado a situação em Gaza?

Nós, na Palestina, entendemos qual é o objetivo final da ocupação israelense. Eles querem estabelecer o que chamam de “Grande Israel”, que se estenderia do Nilo a Eufrates. Isso incluiria partes do Egito, da Síria, do Líbano, do Iraque e outros territórios. Sabemos, portanto, que essas guerras e ataques fazem parte desse projeto.

Agora estão atacando o Líbano e o Irã; depois podem mirar a Turquia, a Síria, o Egito e os países do Golfo. Algumas autoridades israelenses já dizem que a Turquia pode ser o próximo alvo após o Irã, e é por isso que Netanyahu estaria pressionando Trump a não interromper a guerra.

Essa guerra de Israel e os Estados Unidos contra o Irã nos afeta de duas maneiras principais. A primeira é que, como esses ataques são de grande escala e dominam a atenção global, a mídia se concentra neles e deixa de olhar para o que acontece em Gaza. Isso permite que a violência continue aqui sem a devida atenção internacional. Eu mesmo notei uma queda no engajamento com meu trabalho, já que muitas pessoas voltaram sua atenção para o Irã. Esse é, claro, um tema importante e que merece atenção. Mas, ao mesmo tempo, o que acontece em Gaza também precisa continuar em destaque, porque a violência não parou.

A segunda forma de impacto é que esses ataques têm como alvo o Irã e seus aliados. A resistência palestina em Gaza é considerada um desses aliados e recebe apoio do Irã, embora existam diferenças ideológicas, por exemplo, entre grupos sunitas e xiitas. Apesar dessas diferenças, o Irã é visto como um dos poucos países da região que apoiam abertamente a resistência palestina. Quando Netanyahu fala publicamente, ele afirma que Israel pretende derrotar o Irã e seus “representantes”, incluindo os palestinos. Portanto, isso nos afeta diretamente — impacta nossa situação e nossa capacidade de agir.

Como os palestinos enxergam o futuro da região?

Eu quero falar sobre duas coisas.

A primeira é que temos muita esperança de que a dominação de Israel e dos Estados Unidos não dure até 2027. A segunda coisa é que nos recusamos a aceitar a vida como ela se tornou em Gaza: um lugar onde viver se tornou insuportável e onde sofremos intensamente.

Não temos hospitais, não temos escolas, não temos nada. Nem mesmo redes de esgoto. Mas acreditamos que esta é a nossa terra e que existir aqui é um direito. Não vamos nos render. Não vamos abrir mão dos nossos direitos. Estamos preparados. Todo palestino, especialmente os que estão em Gaza, com quem convivo todos os dias, sejam crianças, mulheres, idosos… Todos estão dispostos a morrer por sua terra, pela Palestina, por seus direitos.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas