Buscar
Coluna

Meta e Youtube foram condenados por viciar crianças – veja o porquê

Decisão histórica marca o entendimento da Justiça americana de que as plataformas levam a dependência de jovens

Coluna
6 de abril de 2026
17:24

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

No dia 25 de março, um tribunal do Júri em Los Angeles na Califórnia, condenou a Meta, dona do Facebook e Instagram, e o Google, empresa dona do YouTube, a pagarem indenizações milionárias para uma jovem que sofreu enormes danos mentais e chegou a ter pensamentos suicidas por seu uso de redes sociais. A Meta vai ter que pagar uma indenização de US$ 4,2 milhões, enquanto o Google vai pagar US$ 1,8 milhão. Ambas as empresas dizem que vão recorrer da decisão.

A decisão é histórica porque solidifica um entendimento na Justiça americana a respeito da responsabilidade objetiva de executivos destas empresas sobre decisões de design que levam a uma dependência de jovens e adolescentes em relação às ferramentas que elas oferecem. Mais do que isso, é histórica porque foi decidida por um júri, formado por cidadãos americanos, sete mulheres e cinco homens. O que se pode esperar a partir de agora é uma avalanche de processos semelhantes em todas as cortes americanas – e, oxalá, no mundo todo.

Por isso resolvi tomar um tempo mais longo para ler a rica documentação que foi produzida pelo caso, e que prova, além de qualquer dúvida, que executivos destas empresas (e também e Snapchat e TikTok, que fecharam acordos extra-judiciais) sabiam muito bem que suas redes sociais eram viciantes para crianças e adolescentes, e dobraram a aposta.

A leitura destes documentos (você pode lê-los aqui neste compilado do Tech Oversight Project) é chocante, uma demonstração de como se dá na prática as decisões que levam a prejuízos reais na vida de milhões de pessoas, como a moralidade inexiste dentro de debates internos em uma empresa ultra-capitalista. Uma demonstração da banalidade do mal dentro das Big Techs.

Separei para esta coluna alguns documentos que valem a leitura.

Um relatório interno, de novembro de 2018, chamado “Retenção de Longo Prazo: Os Mais Jovens São os Melhores e Outros Aprendizados” descreve com detalhes como os pré-adolescentes são aqueles que se tornam usuários por mais longo prazo. “Pré-adolescentes são especiais. As pessoas que entram no Facebook com 11 ou 12 anos são as que têm mais tempo de retenção dentre todos os grupos”. O estudo demonstra que uma pessoa que entrou no Facebook aos 12 anos tem 3x mais chance de permanecer na plataforma por longo tempo do que uma pessoa que entrou aos 32 anos. O relatório recomenda como ações prioritárias: “O Facebook como um todo deveria considerar investir mais pesado em trazer adolescentes em maiores números”; e “para a equipe de juventude, priorizar os pré-adolescentes sobre todos os outros grupos de idade”.

Outro documento, do mesmo ano, descreve em detalhes um programa elaborado pela empresa nos EUA que pretendia usar adolescentes como “embaixadores” da marca em 5 regiões americanas, funcionado como “contato em escolas de ensino médio”. Esses “embaixadores” participariam de grupos que receberiam 5 desafios mensais para propagandear novos produtos e ferramentas, e em troca receberiam “Gift Cards” da Amazon e acesso privilegiado a novos produtos digitais.

Há um terceiro relatório que chamou minha atenção (e embrulhou meu estômago) e que vale a leitura para qualquer um que se interesse a entender como o uso de redes sociais afeta os adolescentes. Trata-se de uma pesquisa encomendada pela própria Meta, com foco em Saúde Mental de adolescentes no Instagram. A pesquisa, de agosto/setembro de 2019, é interna e marcada como “altamente confidencial”.

A pesquisa foi realizada com adolescentes entre 13 e 18 anos de Los Angeles e Londres, através de “grupos focais” e ligações posteriores. O que eles descobriram, segundo a própria empresa?

  • “O Instagram é um componente inevitável e inescapável da vida de adolescentes. Os adolescentes não conseguem sair do Instagram mesmo se quiserem”. 
  • “O Instagram define o padrão não apenas sobre como os adolescentes devem parecer ou agir, mas também como devem pensar e sentir”. 
  • “Adolescentes veem o Instagram em termos de uma ‘narrativa de viciado’: passam tempo demais adotando um comportamento compulsivo, que eles sabem que é negativo mas se sentem impotentes para resistir”. 
  • “A pressão por ‘estar presente e ser perfeito’ é uma característica definidora da ansiedade que adolescentes sentem no Instagram. Isso restringe sua habilidade de ser emocionalmente honesto e criar espaços para que possam desligar”. 

E por aí vai. Há ainda comunicações internas assustadoras, como uma discussão interna no canal corporativo na qual os funcionários discutem o fato de que eles atuam como traficantes de drogas. “Oh meu deus, Instagram é basicamente uma droga. LOL quero dizer, todas as redes sociais. Nós somos basicamente fornecedores”, diz um funcionário.

Os documentos relativos ao YouTube, disponibilizados ao longo do processo judicial, vão na mesma toada. Um relatório interno de 2025, celebra o fato de que a plataforma é vista como melhor do que seus concorrentes – as outras redes sociais.

“Nosso princípio fundamental é que o YouTube deve ser algo positivo na vida dos adolescentes, que deve ser um tempo bem gasto. A boa notícia: em meio ao debate acalorado sobre o impacto das redes sociais no bem-estar dos adolescentes (ex: rótulos de alerta propostos pelo Cirurgião-Geral dos EUA) e com regulamentações em rápida evolução, o YouTube é visto como mais positivo do que os concorrentes pelos adolescentes, pelos pais” e outros atores importantes, porque os adolescentes “podem se aprofundar para explorar e aprender”. Entretanto, diz o estudo, “ainda temos trabalho a fazer em relação aos dois maiores desafios para o bem-estar dos adolescentes no YouTube: (1) conteúdo de baixa qualidade e recomendações que podem transmitir e normalizar crenças ou comportamentos não saudáveis; (2) uso prolongado e não intencional que desloca atividades valiosas como tempo com amigos ou sono”. O problema é maior em conteúdos curtos, como os shorts, e na experiência de feed infinito.”

Não à toa, o feed infinito em redes sociais é uma das tecnologias vedadas pelo ECA digital, que entrou em vigor há apenas duas semanas. As batalhas em torno desta legislação aqui no Brasil – que tornou-se inevitável depois do vídeo de denúncia sobre “adultização nas redes sociais” feito pelo influenciador Felca em agosto do ano passado – demonstra que muitos dos aspectos avaliados no julgamento em Los Angeles têm repercussão que ultrapassam os limites norte-americanos. Se a sociedade civil e os cidadãos de diferentes países fizerem a lição de casa e articularem processos judiciais semelhantes fora dos EUA, o julgamento de 25 de março de 2026 pode muito bem ser um marco histórico, denotando o ponto inicial do fim de uma era de faroeste digital.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Imposto do pecado: Governo alivia para indústrias e adia proteção popular, alma da reforma

|

Indústrias do refrigerante e mineração terão 2027 de impostos baixos ou zerados frente a impacto à saúde e meio ambiente

Como a quebra do banco Ueno, no Paraguai, acabou com o governo do presidente Santiago Peña

|

Crescimento do Ueno teve ajuda política e dinheiro público; presidente foi acionista de empresa do grupo ligado ao banco

Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa

|

Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa

Sessão sobre a PEC da segurança pública no Senado

Segurança Pública: PEC da redução da maioridade penal no Senado pode ter relator do PT

|

Senado aprova PEC da Segurança Pública e proposta de mudança na maioridade penal pode ser analisada nesta quarta

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil

Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

|

Perfis no X/Twitter divulgam histórias irreais sobre apostas ao mesmo tempo em que audiência pública reúne lobistas

Com a 1ª vitória do PT em 12 anos, a cidade do Rio deixou de ser reduto bolsonarista?

|

Lula virou na capital fluminense, onde a família Bolsonaro ganhou 22 de 24 pleitos desde 1988

Pantanal entra oficialmente na rota da aridez, aponta plano do governo

|

Cientistas alertam que é preciso uma mudança na forma como o país produz alimentos e maneja a pecuária

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

|

Para Especialistas derrota eleitoral enfraquece herdeiros do ex-presidente, mas não elimina força política do movimento

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

|

Marcha em Niterói iniciou efeito borboleta progressista que contou com fandoms e Janones e hoje inspira outros países