Buscar
Reportagem

Gestão Ricardo Nunes pagou ONG de produtora de Dark Horse mesmo após problemas

Funcionários da prefeitura tentaram contato “por mais de 3 meses”; prefeitura diz que falhas foram sanadas

Reportagem
22 de maio de 2026
10:11

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Prefeito de São Paulo Ricardo Nunes
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dois relatórios obtidos pela Agência Pública demonstram que entre 2024 e 2025 funcionários da prefeitura de São Paulo tentaram “inúmeras vezes” contato com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidida por Karina Ferreira da Gama. Karina também é proprietária da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) financiada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. 

Mesmo depois dos relatórios, a prefeitura de São Paulo manteve pagamentos e contratos.  

Além do Instituto Conhecer Brasil e a Go Up, Karina é sócia de outras empresas que receberam recursos de emendas parlamentares, notadamente de políticos ligados ao bolsonarismo para eventos de cultura, esporte, inclusão digital e para a produção de uma série que jamais saiu do papel. Sua empresa também foi fornecedora para campanhas eleitorais, inclusive do deputado Mário Frias (PL-SP), que assina o filme como produtor-executivo.

Como a Pública apontou, Karina Ferreira estreitou laços com a administração paulista depois da eleição de Ricardo Nunes (MDB).  

“Não conseguimos localizar a OSC há mais de 3 meses”, diz parecer

O ICB manteve diversos contratos com a prefeitura de São Paulo, em especial na gestão Nunes. O principal deles é de 2024 e supera R$ 100 milhões e prevê a instalação de 5 mil pontos de wi-fi em comunidades de baixa renda da cidade. O contrato foi fechado em junho de 2024 e teve repasses ao longo dos anos seguintes.

O dinheiro seguiu sendo enviado quando técnicos da prefeitura já apontavam problemas na entidade, quando foram fazer uma vistoria por conta de outro projeto, o “Colorindo Sonhos: da Superação ao Sucesso no Empreendedorismo de Maquiagem”, que recebeu R$ 300 mil para dar “capacitação profissional no mercado de beleza, com foco em empreendedorismo” na zona leste da capital paulista. O dinheiro saiu de uma emenda do vereador André Santos (Republicanos), da base do prefeito.

Os primeiros problemas no Colorindo Sonhos surgiram em setembro de 2024, quando funcionários da prefeitura enviaram duas mensagens por e-mail em que pediam informações sobre a “apresentação e solicitação de agendas para monitorar e avaliar atividades como prevê o edital”. Naquele mesmo mês, conseguiram um contato com Karina por telefone, quando passaram as instruções novamente sobre como deveria ser cumprido o projeto.

Após novos desencontros, a funcionária da prefeitura visitou o endereço que constava no cadastro da entidade, um prédio na avenida Paulista. “No local indicado como sede de funcionamento da OSC não havia nenhuma pessoa do referido instituto no local e sala apontada no plano”, escreveu a profissional em um relatório de janeiro de 2025. Ela fotografou a entrada do prédio e as áreas internas para comprovar que o ICB não funcionava no local.

No relatório, a técnica cita que “pelas mínimas vezes que a presidente respondeu de forma evasiva e sem atender às solicitações concluo que há uma necessidade urgente de uma manifestação e justificativas por parte do Instituto Conhecer Brasil sobre o local, materiais e em especial as mulheres que seriam beneficiadas com a Emenda ora disponibilizada para fim específico”.

Aponta ainda falta de interesse em “demonstrar uma comunicação saudável e harmônica” com a prefeitura e o “descumprimento do edital nas páginas de divulgação do Instituto, em especial do site, onde não aparece, nem cita” a parceria com a prefeitura.

Quatro meses depois, em 21 de maio, uma nova vistoria, feita por duas profissionais, voltou a apontar problemas na entidade. “Os funcionários do edifício cujo endereço nos foi fornecido enquanto sede da OSC afirmaram a inexistência do Instituto no local. Ao longo da parceria foram feitas inúmeras tentativas de contato com o Instituto a fim de acompanhar a parceria, analisar o cronograma e demais ações que pudessem atestar o andamento adequado do Termo de Fomento. No entanto, não conseguimos localizar a OSC há mais de 3 meses, os contatos não têm retorno e, nesta última visita, foi constatada novamente a inexistência do Instituto Conhecer Brasil no local. Ademais, os funcionários alegam que nunca houve uma sede do Instituto no endereço fornecido”, escreveram no relatório.

Procurada, a Prefeitura afirmou que os problemas foram sanados pela entidade e que “existência de endereço fiscal distinto do local de execução das atividades não constitui, por si só, irregularidade”.  

O contrato foi concluído em junho daquele ano, quando funcionários da prefeitura indicaram que a atividade havia sido realizada nas fábricas de cultura. As fotos mostram a apresentação da influencer e ex-BBB Marília Miranda para um grupo de apenas sete alunas na unidade do Parque Belém. No total, o projeto atendeu quatro turmas.

 

ONG investigada pelo Ministério Público 

As dificuldades da equipe da prefeitura são um exemplo dos problemas na execução dos contratos com o ICB.

No caso mais rumoroso, do Wi-Fi, a Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da Capital tem um inquérito civil em que apura eventuais irregularidades contratuais. O contrato previa 5 mil pontos de internet até 2025, mas o total ainda está em 3,2 mil, segundo revelou o Intercept Brasil. A entidade também não tinha experiência no setor. O caso é investigado também em inquérito da Polícia Civil.

Um dos problemas investigados pelo MP-SP é o suposto direcionamento do chamamento público anterior, uma vez que a entidade não teve concorrentes e o TCM (Tribunal de Contas do Município) havia apontado pelo menos 20 irregularidades no edital. Depois de sugerir sua suspensão, o tribunal acabou liberando o contrato. 

O MP aponta ainda ausência de justificativa técnica ou econômica para o ajuste com organização da sociedade civil, celebração de três aditamentos contratuais em sequência, com intervalos de pouquíssimos dias entre a sua solicitação e a efetiva formalização e repasses financeiros originalmente previstos para fases posteriores do ajuste e referentes a serviços ainda não implantados. Entre julho e agosto de 2024, o ICB recebeu R$ 11 milhões da prefeitura pelo fornecimento de internet a 3.200 pontos. Na época, apenas seis deles funcionavam 

Na prestação de contas estão R$ 4 milhões em notas da entidade canceladas ou para si mesma.

Como o UOL publicou, a gestão Nunes também assinou um contrato de R$ 2,5 milhões com a entidade de Karina para patrocinar a feira de tecnologia e games Tech Friday, na rua Santa Efigênia, em dezembro do ano passado. O contrato foi assinado no dia anterior ao início da feira. Na proposta enviada à prefeitura, a ONG estimava a participação de 60 mil pessoas na feira, um número muito superior ao apresentado pela gestão municipal, de pouco mais de 3 mil pessoas. 

Em resposta à Pública, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania informou que o projeto Colorindo Sonhos “funcionou plenamente durante a vigência do contrato (setembro de 2024 a julho de 2025)” e está em fase de análise da prestação final de contas. “A inconsistência do endereço fiscal da OSC foi detectada justamente pela equipe técnica responsável pelo monitoramento do contrato e sanada pela entidade durante a execução do projeto com a atualização do plano de trabalho e do endereço do escritório, não havendo, portanto, impedimentos para outras contratações junto à administração municipal”, escreveu. 

Por fim, a Secretaria afirmou que “repudia” qualquer associação ao filme Dark Horse, uma vez que “a obra não recebeu recursos municipais”. 

A empresária Karina Ferreira da Gama e o ICB foram contactados por email, mas os emails retornaram. O espaço segue aberto a respostas.

Edição:

Atualização em 23 de maio de 2026 às 16:53: Wemerson Marinho explicou à Pública que não participa mais das ONGs de Karina e estão divorciados desde setembro de 2024.  A informação foi atualizada.

Reprodução
Reprodução redes sociais
Reprodução

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Colagem com frames de vídeos de Lula nas redes sociais

Do susto ao mutirão: como a campanha de Lula tenta virar o jogo nas redes e nas ruas

|

Campanha tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas

Deputados federais mais votados da direita gastam o dobro com anúncios que os da esquerda

|

Os dez candidatos mais votados da direita gastaram R$ 5,3 milhões com anúncios na Meta; os da esquerda, R$ 2,6 milhões

Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista em 2026. Manifestante segura poster contra o ministro do STF Alexandre de Moraes

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

|

Para especialistas, Tribunal abusa de decisões monocráticas, mas usar crise como arma política prejudica democracia

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

|

Quase cem celulares são subtraídos por hora no Brasil e então eles podem tomam 4 caminhos, inclusive sites de compras

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado

Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas

Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno