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Entrevista

Eleições serão pautadas por escolha entre civilização ou barbárie, diz Ricardo Kotscho

Jornalista fala sobre o atual cenário da política brasileira e o papel do jornalismo, especialmente em épocas de crise

Entrevista
24 de maio de 2026
04:00

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Arquivo pessoal

Desde a ascensão do bolsonarismo, em 2018, as eleições presidenciais passaram a ser marcadas por instabilidade, desinformação e a dificuldade de prever candidaturas e possíveis resultados. Depois que áudios divulgados pelo Intercept Brasil, no último dia 13 de maio, revelaram ligações entre o senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e Daniel Vorcaro, banqueiro do Master, as tendências indicadas pelas primeiras pesquisas eleitorais mudaram. De acordo com a pesquisa Atlas Intel, divulgada nesta terça-feira (19/05), cresceu a rejeição em relação a Flávio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a aparecer à frente nas simulações de segundo turno das eleições presidenciais de 2026.

O Pauta Pública desta semana mergulha neste cenário de tantas incertezas com um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro, Ricardo Kotscho. Na entrevista com a Andrea Dip, ele alerta que o debate público brasileiro vive uma crise que vai muito além dos nomes colocados na disputa presidencial. Kotscho analisa como a desinformação, a fragilidade das instituições e o esvaziamento da participação política ajudam a moldar o quadro atual do país.

Para o jornalista, a situação política se altera a cada dia. Sendo assim, não é possível fazer nenhuma previsão dos próximos acontecimentos e resultados para outubro. Mas ele afirma que “mais uma vez, no Brasil vai estar em jogo a civilização ou a barbárie. A diferença entre os projetos é muito grande e [é preciso] entender o risco que se corre ao colocar mais uma vez no poder pessoas que em vez de melhorar o país, querem acabar com a democracia.” Ele destaca também a importância do jornalismo no comprometimento com o futuro do país. “Com as redes sociais e as novas tecnologias, muita coisa mudou no jornalismo. O que não pode mudar é o compromisso com a sociedade, com seu tempo e com o país.”

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 217 Eleições: civilização ou barbárie? – com Ricardo Kotscho

Jornalista fala sobre o atual cenário da política brasileira e o papel do jornalismo, especialmente em épocas de crise

0:00

O atual cenário político está cada vez mais instável. As candidaturas que pareciam consolidadas começam a ser colocadas em dúvida. Como você está vendo essa disputa de narrativas que está acontecendo nesse momento pré-eleições no Brasil?

Eu acho tudo uma grande tristeza. Porque, em vez de se discutir os grandes problemas nacionais, que a campanha eleitoral é sempre um processo de renovação de esperanças e de discutir os grandes projetos do país, os rumos do país para onde nós queremos ir, fica essa disputa de narrativas absurdas. É um negócio que faz muito mal para a gente e faz muito mal para o país.

Comparo com outras eleições que nós tivemos, como por exemplo em 2002, na primeira vitória do Lula, foi Lula e José Serra. O país todo estava debatendo os problemas nacionais. Nós tínhamos uma equipe, um grupo preparando o programa de governo, o PSDB também tinha. E ali o Brasil alcançou um momento muito rico da nossa história, muito democrático, muito civilizado.

Agora, de 2018 para cá, a coisa desandou de vez e está chegando agora ao cúmulo de ter o filho de um próprio ditador, candidato à Presidência. É terrível. É terrível o que está acontecendo com o Brasil.

Desde que escrevi essa coluna (sobre uma possível desistência de Lula à reeleição), as coisas já mudaram radicalmente. O Lula, naquela semana, teve duas derrotas no Congresso e Flávio Bolsonaro decretou o fim do governo Lula. E vários analistas políticos concordaram. Agora já mudou tudo. Agora, quem está ameaçado de não ser candidato, de ter que desistir, ser obrigado a desistir, é o Flávio Bolsonaro. Hoje, o cenário é esse.

Ele tem que lutar para convencer os aliados dele de que pode continuar sendo candidato. É uma situação absolutamente diferente, oposta à que acontecia com o Lula. Lula é um nome que todo mundo no PT apoia, toda a esquerda apoia e ninguém coloca em dúvida a não a liderança dele. A questão é outra: é a idade que ele tem. Eu sei como é que é duro você enfrentar os problemas brasileiros, com essa idade, o Lula está com 80 anos, eu estou com 78, confesso que estou cansado também.

Mas o PT tem dois nomes que eu acho que estão aí, não para agora. Seriam o Fernando Haddad e o Geraldo Alckmin. Mas para 2030, com certeza podem vir outros. E a direita não tem ninguém.

Neste ano, o Brasil vai escolher não só o próximo presidente, mas também governadores, senadores e deputados. Grande parte do debate político parece continuar reduzida a figuras individuais, e não a projetos ou atuações partidárias. Qual é o papel do jornalismo para ampliar esse debate?

Olha, também no jornalismo tudo depende das pessoas. Cada vez estou mais convencido disso. Não das instituições ou das entidades, mas das pessoas.Você vai ter jornalistas propondo debate, estimulando discussões sobre grandes temas da sociedade, e outros que preferem não tocar em assuntos delicados, não criar problemas. Isso é uma coisa que está me incomodando muito na imprensa brasileira, porque ela está muito preguiçosa, muito acomodada, aceitando o prato feito. Não se briga mais pela notícia.

Somos uma profissão que sempre teve que brigar para trabalhar: brigar por espaço, por liberdade, por viajar para fazer matéria. Isso depende muito da iniciativa dos profissionais. Isso não mudou.

Há uma responsabilidade do jornalista que não é só colocar a culpa na chefia, no patrão ou na empresa. Nós, profissionais, estamos muito acomodados. Não fazemos o que já fizemos em épocas muito piores, como na censura, na tortura, na perseguição a jornalistas. Já fomos mais ativos e estivemos mais próximos da realidade brasileira do que hoje.

Além da precarização da profissão, por que você acha que o jornalismo vive esse momento de menos brilho nos olhos?

Eu não sei explicar. Sempre entendi a profissão, independentemente do governo, do regime ou da empresa, como um trabalho que você presta à sociedade. Não é um serviço público no sentido de funcionário público, mas um serviço para o público.

E sempre tive essa consciência, que era ensinada nas faculdades e vinha da geração mais velha. Cada vez que entrava alguém novo no jornal, tinha uma escola ao vivo com os profissionais mais antigos. Isso também não está mais acontecendo.

Antigamente, você podia escolher com quem queria aprender dentro de uma redação. Hoje é muito mais difícil. Tem mil fatores: internet, redes sociais, inteligência artificial. Mudou tudo.

Mas uma coisa não mudou, pelo menos para mim: a natureza da profissão. É o compromisso que você tem com a sociedade, com seu tempo e com seu país. E de encontrar o que está acontecendo, custe o que custar. Isso não mudou. Quer dizer, não deveria ter mudado.

O que a gente pode esperar para esse período de campanha eleitoral? Dá para a gente pensar no que pode esperar? Quais são as expectativas e desafios, na sua opinião, para essa campanha e para nós, jornalistas?

Eu não vou fazer nenhuma previsão, porque, no Brasil, qualquer previsão para mais de 15 dias é um risco enorme. Mas uma coisa eu sugiro: que as pessoas entendam que o processo eleitoral não é uma coisa dos políticos e dos partidos. É da sociedade. Cada um de nós, dentro da influência que pode ter, precisa se engajar nessa campanha.

Porque, mais uma vez, no Brasil vai estar em jogo a civilização ou a barbárie. A gente tem que saber de que lado está e defender esse lado.

É muito clara a diferença entre os projetos. Quem estiver do lado da civilização precisa se empenhar para que a outra metade abra os olhos e veja o risco que corremos mais uma vez ao colocar no poder pessoas que, em vez de melhorar o país, querem acabar com a democracia. Quase conseguiram.

Depois, depende de cada eleitor. Cada um tem que saber o que está fazendo.

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