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CazéTV deveria nos fazer questionar vínculo da mídia com bets

CazéTV expõe como a publicidade de bets domina a mídia e levanta dúvidas sobre o papel do jornalismo

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29 de junho de 2026
11:02

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Em dias de jogo do Brasil, são mais de 18 milhões de dispositivos conectados à CazéTV, que hoje já passa de 35 milhões de seguidores no Youtube. Enquanto narram a partida, os apresentadores entoam as “odds”, pedem para a gente ir participar de uma aposta, propalam como a oportunidade é boa. 

O Ministério da Justiça abriu uma investigação e o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) considerou propaganda abusiva, sugerindo a suspensão das propagandas das empresas KTO, Betnacional e Bet365 no canal. Só então, a CazéTV resolveu mudar e deixar os anúncios apenas para os intervalos (que são muitos nesta Copa, diga-se). 

Fim de papo? Não. Este é apenas o começo do papo. A discussão sobre a onipresença das bets em propagandas para todo lado deveria virar o grande legado desta Copa do Mundo.       

E não estou falando apenas do CazéTV e de canais da TV aberta – afinal, como mostrei aqui há quase um ano, a Globo é sócia da MGM Resorts International em uma casa de apostas online, a Bet MGM. O SBT tem sua própria Bet, a Bet do Milhão. E a Band lançou a BandBet. Além disso, todas elas se esbaldam em propagandas de bets antes e depois dos jogos. 

Não. Estou falando de sites jornalísticos, cuja principal atribuição deveria ser levar informação de qualidade e interesse público para quem os lê. Mas, veja que ironia, agora mesmo, quando eu estava procurando uma reportagem sobre bets no site do UOL, eis que me aparece um banner da Betano, vermelho, no canto inferior, com uma frase imperativa: “aposte já”. 

Isso é pior que os simpáticos apresentadores da CazéTV, todos com cara de moleques que não fazem mal a ninguém? De certa forma, sim. 

O jornalismo, esta atividade tão atacada, tem como único esteio a responsabilidade com a informação que publica. Se os sites jornalísticos gastam as horas dos seus repórteres para denunciar a epidemia de bets, é um absoluto contra senso neutralizar este trabalho suado com propagandas coloridas e chamativas convocando o leitor a “apostar já”. 

Claro, não é só o UOL. Sites noticiosos como Brasil 247, Terra, Metrópoles e CNN também ganharam dinheiro com anúncios de casas de apostas.  

E eu posso dizer tranquilamente: quem não o fez, é porque resistiu muito. 

Porque há muito dinheiro em jogo. Sites, jornais, revistas, influenciadores, são cotidianamente e repetidamente assediados por bets. Atualmente, segundo apurei, o dinheiro das bets tem até sido oferecido para ONGs e organizações da sociedade civil que lutam por causas justas. 

Para ajudar o mundo? Não, para limpar o nome de um setor que é muito parecido ao setor do narcotráfico, que hoje todos querem chamar de terroristas. 

As empresas de apostas online não geram absolutamente nenhum valor social, a não ser roubar dinheiro do nosso bolso e deixar mais vulneráveis os que já são pobres e vulneráveis.  

Atualmente os brasileiros gastam R$ 30 bilhões com bets por mês, segundo um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Um relatório do Tribunal de Contas da União que avaliou o mês de janeiro de 2025, mostrou que até 27% dos R$ 13,7 bilhões pagos pelo Bolsa Família podem ter sido desviados para bets. 

As famílias estão quebrando, o endividamento subindo pelos ares. Varejo, comércio e até as igrejas evangélicas estão sentindo o baque. 

Tudo isso é legado da era Michel Temer, o mesmo que seus apoiadores na Faria Lima afirmam ter “consertado” a economia do país. O mercado de apostas online foi legalizado em 2018, nas últimas horas do seu governo, e só veio a ser regulamentado em 2023, já no governo Lula. (O governo Bolsonaro deixou rolar). 

O atual governo exigiu licença oficial do Ministério da Fazenda a um custo de R$ 30 milhões, propagandas que apregoam “aposte com responsabilidade”, proibições para menores e pagamentos de impostos, entre outras regras. Em 2025, a Receita Federal arrecadou quase R$ 10 bilhões em impostos de bets.

Deveria, em vez disso, proibi-las. Ao permitir anúncios, o governo Lula permite que quem aceita propaganda de bets tenha a desculpa de dizer: este é um anúncio legal.  

Assim, a realidade é que, hoje, quem resiste às bets é apenas a sociedade brasileira e o jornalismo de fato comprometido em denunciar crises sociais. 

Diante desse descalabro, a Pública começa a publicar amanhã uma série de reportagens que vai destrinchar como as bets mantêm o Congresso na sua mão, como a regulação é falha e como isso afeta quem está lá na ponta – milhões de brasileiras e brasileiros. Uma série que foi financiada pelos nossos leitores.

Por isso, te peço que acompanhe, ajude a divulgar e envie para conhecidos. Enquanto outros veículos lucram com as bets, nós, ao lado de nossos leitores, nos comprometemos a combatê-las com nossa melhor arma: o jornalismo investigativo.   

Reprodução Uol

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