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Crônica

Uma crônica de dia dos namorados

A paixão é disruptiva e não combina com manter o foco nem preservar a sua paz

Crônica
13 de junho de 2026
04:00

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O vídeo segue a praxe das redes sociais, em que é preciso capturar a atenção da audiência frenética em dois ou três segundos: começa com um meme. “POV: você resolve dormir às 20h30 porque não recebeu aquela mensagem” — e a imagem é de um jovem se revirando na cama. Corta a cena e o jovem, na verdade, é um “psi” — como tantos se autodenominam nesse universo que outrora pensamos que seria a ágora da idade pós-moderna e hoje é apenas uma mistura de propaganda, desinformação e manual de existência — que fala pra câmera e explica: a ansiedade de esperar “aquela” mensagem trata-se de “hipervigilância emocional”.

E reflete, listando outros sintomas dessa condição, como perda de apetite e dificuldade de concentração: será que o problema é não ter recebido a mensagem, ou será o medo que você sente de ter sido esquecido ou rejeitado? Você está vivendo num círculo vicioso, em que receber a tal mensagem gera alívio, e não recebê-la tira sua paz? Isso é hipervigilância emocional.

Tomando meu café amargo de todos os dias, sinto como se meus quarenta anos tivessem virado oitenta e respondo em voz cansada: “Não, jovem. O nome disso é estar apaixonado”. “É o velho amor ainda e sempre”, como cantou o mineirinho Samuel Rosa nos anos 1990. É “o que cantam os poetas mais delirantes” (Chico Buarque), “a coisa que machuca tanto”, nas palavras do Só Pra Contrariar. É o que fez chorar Noel Rosa e Álvares de Azevedo e o que fez Ângela Ro Ro pedir: “não chegue na hora marcada”. Porque se apaixonar, jovens, incomoda.

​A paixão é disruptiva e não combina com manter o foco nem com preservar a sua paz. Lembro de uma conversa que tive com uma amiga que, do alto dos seus 50 e alguns anos, estava lá, de novo, apaixonada. Sem fome, sem sono, queimando a comida, sorrindo pro celular. Sem saber se era correspondida na mesma medida — o eterno receio do apaixonado. Reclamou de tudo isso e, no fim, disse: “Mas o comichão é bom, né?”. E é. Aquilo que importamos do inglês e hoje chamamos de “borboletas no estômago”, aquele frio na barriga, aquela sensação que (quase) todo mundo sabe qual é (e quem não sabe, desejo do fundo do coração que chegue sua hora): é paixão. Mas me parece que tem muita gente querendo transformar em sintoma ou em condição. Apego ansioso. Dependência emocional. Hipervigilância. Etcetera.

​E eu sei que aqui devo fazer um disclaimer, mesmo um tanto a contragosto, não apenas porque não quero ser cancelada, mas também porque não quero magoar ninguém. É claro que existem condições e sintomas psíquicos que devem ser observados com cuidado. E sim, recomendo a todos que façam terapia e busquem o equilíbrio emocional. Mas a que me refiro nesse texto não é isso. O meu medo é que estejamos tentando aprisionar e medicalizar a paixão (“que dá dentro da gente e que não devia”), numa busca por uma suposta estabilidade emocional que me parece mais uma estratégia do capital para nos tornar cada vez mais obedientes consumidores e trabalhadores. Funcionais. E a paixão, meus caros, não é funcional.

​Por isso, ainda que tomando meu café amargo e sem grandes perspectivas para este Dia dos Namorados, peço aos jovens que escutem mais os conselhos de Paulinho da Viola (Ame, seja como for/ Sem medo de sofrer) e menos os dos coaches e psis da internet. Porque, como diria nossa eterna Marília Mendonça, “todo mundo vai sofrer”. Mas se não, que graça tem?

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