Buscar
Coluna

Discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA foi só pra bolsonarista ver

Fala em audiência não tem valor para defender o país do tarifaço nem para livrar candidato de pecha de entreguista

Coluna
10 de julho de 2026
12:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Se você quer ouvir um depoimento independente de uma pessoa bem informada em relação às audiências sobre o tarifaço nos Estados Unidos, sugiro que veja a entrevista do canal Meio com o economista e professor da FGV, Gustavo Pessoa, que participou das audiências públicas no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Pessoa estuda risco sistêmico e sua exposição na audiência foi sobre o pix, como case de sucesso e infraestrutura vital para o sistema financeiro brasileiro, concentrando 60% das transações bancárias no país.

O economista falou no primeiro dia de audiências para uma mesa diretora composta por representantes do USTR, do Departamento da Agricultura, do Departamento Comercial, do Departamento de Estado e do Tesouro, composição que variava de acordo com o tema discutido em blocos. Segundo ele, todas as audiências a que assistiu foram eminentemente técnicas, com exceção daquela em que Flávio Bolsonaro compareceu na companhia do irmão Eduardo.

“Ali você percebia um tom mais político, os assessores [do Flávio] não paravam de filmar e tirar fotos, tanto que eles foram repreendidos pelo presidente da sessão, porque isso é estritamente proibido ali. E o discurso dele foi político, colocando a culpa no Lula, falando que o filho do Lula estava envolvido no escândalo do INSS, falando que o Pix foi implementado no governo Bolsonaro. Então, com exceção do discurso do Flávio, tudo estava seguindo de uma forma bem técnica”, relatou o economista ao Meio.

Pelo relato do economista fica evidente que Flávio Bolsonaro estava fazendo pedidos eleitorais ao foro errado e se expressando de maneira confusa – a única pergunta que lhe foi dirigida foi feita pelo representante do USTR, que, segundo o professor, teve dificuldade de entender o discurso de Flávio e pediu que ele falasse um pouco mais sobre como o tarifaço estava favorecendo o governo Lula. 

“A resposta dele foi difícil de entender, ele foi pego de surpresa ali, não teve tempo de se preparar, então o inglês dele dava umas certas travadas, mas ele quis dizer que esse governo de esquerda estava entregando o Brasil à China por isso pedia uma oportunidade para que as tarifas não fossem aplicadas, senão o Lula iria ganhar e empurrar o Brasil para a China”, contou Pessoa.

O curioso é que antes da viagem de Flávio, ele teria sido aconselhado a não repetir o tom eleitoral que havia dado à carta enviada anteriormente ao USTR, para furar a bolha junto aos eleitores indecisos, que seriam suscetíveis ao argumento de que ele estava defendendo o país e não os seus próprios interesses como candidato. Uma reação tardia ao efeito causado pelo último tarifaço, que beneficiou o presidente Lula, exatamente por sua postura em defesa da soberania nacional e dos canais diplomáticos para negociações.

Flávio passou vergonha tropeçando na língua e se dirigindo a pessoas erradas sem sequer cumprir a missão de trazer bom material publicitário. Se alguns setores empresariais brasileiros podem ter se beneficiado do apoio de pares americanos que serão impactados com as tarifas sobre produtos que compram do Brasil como foi exposto em algumas audiências técnicas, tudo indica que a fala de Flávio terá zero resultado prático, apenas reforçando sua imagem de submissão aos Estados Unidos, com um pedido quase explícito de interferência nas eleições brasileiras.

Quanto ao tarifaço, como todos sabem, depende exclusivamente da vontade de Donald Trump – a própria abertura da investigação sobre o Brasil pelo USTR foi política – no momento bastante ocupado em nova ofensiva contra o Irã.

Trump é um aliado ainda mais volúvel do que o amor de Flávio pelo Brasil. Uma coisa é se gabar de ter convencido Trump de qualificar as facções brasileiras como terroristas, um pedido que só ajuda o presidente dos Estados Unidos a fazer o que pretendia. Outra coisa são decisões sobre o tarifaço, praticamente o único expediente, além da guerra, utilizado por Trump nas relações com o resto do mundo.

O governo brasileiro acertou em não participar dessa farsa, mantendo-se firme nas negociações oficiais e diplomáticas com os Estados Unidos. Aliás, Flávio poderia aprender outra coisa com o Lula, a falar português em eventos internacionais, ou levar um tradutor – não tem nada mais humilhante do que fingir falar um idioma publicamente por pura subserviência.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai

Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão

Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias

Fachada do Congresso Nacional, em Brasília.

Os candidatos das Big Techs nas eleições 2026

|

Levantamento mostra quais políticos brasileiros têm atuado a favor dos interesses das grandes corporações de tecnologia

Antonio Cezar Correia Freire, conhecido como Cezinha de Madureira, é um jornalista, radialista e político brasileiro, filiado ao Partido Liberal. Deputado federal por São Paulo desde 2019

Valéria Linhares nega relação com Cezinha de Madureira mas foi sócia de seu filho em rádio

|

Deputado do PL e advogada são investigados por tráfico de influência em tribunais superiores e ligados a André Mendonça

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato