Buscar
Coluna

“Follow the Money”: Quem financia os criadores de desinformação?

Criadores do Sri Lanka demonstram que a raiz do problema eleitoral são as Big Techs

Coluna
20 de julho de 2026
17:00

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

No jornalismo, costumamos usar a expressão “follow the money” para falar de uma das técnicas mais antigas da profissão: se você quer saber quem está por trás de um crime ou problema social, é necessário seguir a trilha do dinheiro.

Pois, foi exatamente o que os jornalistas do Estadão Verifica fizeram em uma tremenda reportagem, que, infelizmente, não recebeu a atenção que merecia. Os repórteres Luciana Marschall e Pedro Prata descobriram nada menos que 28 contas no Facebook que estavam produzindo e espalhando conteúdo fake feito por inteligência artificial (IA) a respeito de Lula e Bolsonaro. Juntas, elas tinham mais de 1 milhão de seguidores. 

Os conteúdos são apelativos, para dizer o mínimo.

A página Brazilian Vibes trazia, por exemplo, posts com imagens de soldados do Exército, enfileirados diante de tanques segurando uma faixa que dizia: “pela democracia e Justiça, liberdade para Jair Bolsonaro”. Outra imagem mostrava Jair numa cama humilde, aparentando ser uma cela, com um escrito em vermelho na parede: “Deus é o juiz e eles pagarão”. Em uma terceira, uma fileira de soldados encara Alexandre de Moraes: “O STF passou de todos os limites e leis?”

As imagens apelativas ajudaram o conteúdo a viralizar e atrair cliques, embora muitos deles tivessem erros crassos de português. 

Por uma simples razão: o administrador de uma das páginas, um homem do Sri Lanka localizado pelos repórteres, não fala nossa língua. Ele simplesmente pede à inteligência artificial que crie textos e imagens sobre Bolsonaro, Flávio e Lula, sabendo que atrairão cliques. 

Com a IA, o custo de se produzir desinformação é zero. E como o Facebook recompensa visualizações e cliques – são as “medidas de sucesso” para que o próprio Facebook venda anúncios – isso virou uma profissão.   

Este rapaz, que mora em Colombo, capital do Sri Lanka, disse aos repórteres que faz isso para gerar renda por meio do programa de criação de conteúdo da Meta. O programa paga mais a quem faz conteúdo para o Brasil do que quem o faz para o Sri Lanka. 

Entre as postagens, o Estadão localizou ainda erros de imagens, como um vídeo, da página We Love Brazil, no qual a família Bolsonaro aparece sorrindo, em uma viagem de carro. No banco de trás, Eduardo Bolsonaro aparece duas vezes. O vídeo teve mais de 1,7 mil comentários e 7,9 mil curtidas.

A culpa é do rapaz do Sri Lanka? Não, a culpa é da Meta, que literalmente o paga pelo serviço de produzir conteúdo viralizável. 

A Meta, que financiou as páginas cheias de desinformação durante meses, só as derrubou depois do Estadão entrar em contato. Assim como a empresa faz com quase tudo, de anúncios de bets ilegais e golpes online – tudo fica no ar até que alguém denuncie. Enquanto isso, o Mark Zuckerberg e os acionistas vão enchendo os bolsos de dinheiro. Dane-se com o quê. 

Este problema é particularmente preocupante nas eleições. Embora o TSE tenha proibido a criação de deepfakes a respeito de candidatos, não existe nenhuma possibilidade da nossa Justiça eleitoral conseguir punir criadores que estão a 14 mil quilômetros de distância. E, como o Facebook, YouTube, TikTok, Instagram e WhatsApp não fazem sua parte, estaremos sem dúvida vulneráveis a uma enxurrada de fake news.

Quando alguém me pergunta por que decidimos investigar as Big Techs, eu conto uma pequena historinha: em 2014, fomos pioneiras em fazer fact-checking no Brasil, chegando às mentiras e exageros dos candidatos à corrida eleitoral. Em 2018, percebemos que a coisa havia mudado: a eleição de Bolsonaro demonstrou que a desinformação havia virado um instrumento da política, de maneira organizada, industrializada, e regada a muito dinheiro. Até então, as plataformas sempre prometiam que iam lutar contra a desinformação. Mas, a partir de 2023, com a tentativa de golpe de Estado e as respostas fraquíssimas das Big Techs à desinformação, ficou claríssimo que nunca houve, nem haverá um compromisso sério das Big Techs em enfrentar o problema da desordem informacional.

Por um motivo simples: dinheiro.

Quem mais paga e quem mais lucra com a desinformação, seja sobre um golpe localizado mirando velhinhos, seja sobre um candidato da República, são elas. É essa a resposta, pura e simples. 

E sabemos que os executivos do Vale do Silício – e também aqueles aqui, naqueles escritórios coloridos e lúdicos na Faria Lima – topam tudo por dinheiro.

Reprodução Facebook/ Divulgação Estadão

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Crianças brincam em rua do Complexo da Penha e Alemão

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

|

Enquanto políticos que apoiaram operação foram eleitos, moradores pedem olhar humano para comunidade

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

|

Muita desinformação sobre o paradeiro do candidato derrotado circulou, mas ele só saiu do Brasil às 22h50 de terça (27)

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

|

Só nos EUA, estão Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

|

Bernie Sanders e 12 deputados questionaram a empresa sobre interferência eleitoral no Brasil

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

|

Instituto fundado pelo ministro do STF organizou evento que reuniu empresários, lobistas e até advogado de Vorcaro

Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

|

Mobilização nas redes sociais ajuda a explicar redução da abstenção e feito sem precedentes

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

|

Petista virou jogo do primeiro turno contra Flávio Bolsonaro apesar da falta de ônibus e confusão no TSE

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

|

Ônibus passavam com “Garagem” no letreiro enquanto eleitores esperavam horas no ponto para votar em Salvador

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

|

Pública encontrou pontos lotados na capital; eleitores esperavam ampliação do prazo para votar, que chegou tarde demais

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

|

Com a frota retida no dia da votação, eleitores ficam a pé e o TRE mandou prender o secretário que está em Paris

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade