Buscar
Reportagem

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Reportagem
17 de agosto de 2026
16:52
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Gabriel Barros/Agência Publica

“Nós vamos tingir o chão de vermelho com o sangue desses vagabundos”. A fala é do candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) durante o ato de lançamento de sua campanha neste domingo, 16 de agosto, no Largo de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Os vagabundos, a que Renan se refere, seriam as lideranças do PCC e do Comando Vermelho, que fugiram do país já que a política que o candidato apresenta é bastante direta: “serem presos ou mortos”.

As sucessivas palavras de ordem e frases de efeito no discurso do candidato, que vestia um colete a prova de balas, eram intercaladas com gritos em coro dos militantes da Missão, que repetiam o lema do partido “prendeu, matou”.

O discurso belicista que prega, segundo o próprio candidato, contrasta com o local do evento: uma das mais importantes faculdades de direito do país, quase como uma provocação à constituição de 1988, tida como “garantista demais” pelo grupo político de Santos. Em frente ao prédio histórico, centenas de jovens clamavam por execuções sumárias, valas comuns para traficantes e que o Partido dos Trabalhadores (PT) fosse posto na ilegalidade.

O Partido Missão foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral em novembro de 2025, realizando o plano dos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) de montar a própria legenda, deixando de lançar candidaturas pulverizadas em partidos do centrão, como a do deputado federal por São Paulo Kim Kataguiri, eleito pelo Democratas, atual União Brasil e do ex-deputado estadual Arthur Do Val, também eleito pelo mesmo partido e cassado em 2022, após o vazamento de áudios sexistas sobre as vítimas da Guerra da Ucrânia.

Hoje, o rosto da Missão é Renan Santos, que pretende chegar ao Palácio do Planalto com uma plataforma voltada para uma “guerra declarada contra o crime organizado” tocada a partir de decretos de Garantia da Lei e da Ordem, a instauração de um Estado de Defesa e a aplicação do “direito penal do inimigo”, segundo seu plano de governo.

O direito penal do inimigo, teoria jurídica alemã formulada por Gunther Jakobs em 1985, estabelece a divisão da legislação penal em duas: uma que segue as regras normais para o cidadão comum, que comete um crime ou um delito, outra muito mais rígida para os inimigos do estado que “devem ser neutralizados”, como grupos terroristas, e no caso brasileiro, facções criminosas e milícias. Só há um problema com a teoria defendida pelo grupo: ele fere o artigo 5° da Constituição, a Cláusula Pétrea que afirma que:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

A professora de Direito Penal da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Presidente da Comissão de Criminologia do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), Roberta Duboc Pedrinha, classifica a defesa do “direito penal do inimigo” através de um projeto de segurança pública como “absolutamente preocupante e fruto de um maniqueísmo grotesco. O próprio Renan Santos admite que lida mais com a emoção do que com a razão ao defender suas ideias.

Segundo o candidato, em discurso no evento deste domingo: “Nós faremos políticas baseadas em dados, mas também faremos políticas baseadas em senso de justiça. Todos ficam felizes em ver bandido preso”. E a militância do partido segue a ideia, um dos cantos mais repetidos no Largo de São Francisco diz: “eu vou votar no 14 como se fosse a vingança do povo”.

Emoção é a palavra chave: muito do que foi dito no primeiro ato de campanha da Missão, não só por Renan Santos, indica que o eleitorado do partido busca soluções contundentes e fáceis, sem grandes discussões.

A professora Duboc afirma que o apoio deliberado à atos de violência por parte do estado é “uma adesão subjetiva à barbárie”. Segundo a criminalista, as falas populistas de Renan Santos não passam de uma “questão performática”. É um “simplismo com verniz técnico”.

Mas isso não parece importar para os membros do partido. O candidato à vice-presidente na chapa de Renan, o tenente-coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Aroldo Medina, afirmou à Agência Pública que chancela o programa de segurança. Medina diz que Renan não está improvisando e que coordenará as principais operações contra o crime organizado em um possível governo, dando “um recado” para que as lideranças do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital: “arrumem as malas e vão embora”. Em seu discurso no palco do evento de lançamento da campanha, Medina repetiu a afirmação, completando que “não precisarão matar ninguém se os faccionados forem embora do país”.

A reportagem questionou a assessoria de Renan sobre as propostas irem contra a Constituição. O espaço segue aberto para a manifestação do candidato.

Jovens e desiludidos aderem a discurso extremista

O público presente no primeiro dia de campanha da Missão diz muito sobre a candidatura. Boa parte dos que estavam acompanhando as falas de Renan Santos, Kim Kataguiri, Amanda Vettorazzo e companhia eram jovens, alguns em seu primeiro ciclo eleitoral. Outros, mais velhos, afirmaram ter se desiludido com o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL – RJ).

Hugo Brandão, estudante de 21 anos, afirma que a pauta da segurança é a mais importante nestas eleições: “O combate ao crime organizado é o que vai garantir a tranquilidade da população. Você sai de sua casa para trabalhar com medo de ser morto por um desses vagabundos que chamam de vítima da sociedade”.

O porteiro Rodinei de Castro, diz que se considerava um “bolsonarista”, mas que, depois do escândalo do financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e das conversas vazadas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro (PL – RJ), mudou de ideia “apareceu aquele dinheiro do Banco Master, eu não sou otário”. Além da corrupção, a segurança pública também é um dos motivos para a adesão à campanha de Renan Santos: “O Renan prometeu exterminar o crime organizado, isso é muito forte. Eu já fui roubado dez vezes”.

A pauta da violência contra as mulheres — presente no discurso dos demais candidatos, como Lula e Flávio —, também ressoa no eleitorado de Renan. Jéssyca Salustiano (Missão), candidata à deputada estadual por São Paulo, conta que mesmo após a instauração de medidas protetivas contra o ex-marido voltou a sofrer agressões e afirma que “não é uma tornozeleira rosa” que vai resolver a violência contra a mulher, “a política institucional não conseguiu me proteger”. Nas redes sociais, contudo, Jéssyca repete as propostas do “Livro Amarelo” do partido, vendido à R$ 100 no site, com ideias vagas sobre o que pretende fazer caso eleita, como “proteção real às mulheres e combate ao descumprimento de medidas protetivas”.

Edição: | Fotógrafo:
Gabriel Barros/Agência Publica
Gabriel Barros/Agência Publica
Gabriel Barros/Agência Publica

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais passa de 1,2 mil nestas eleições

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas