O terremoto que matou pelo menos 169 colombianos e deixou mais de mil feridos em quase metade do país confirma uma velha máxima da política local: é a natureza que, muitas vezes, acaba ditando a agenda dos presidentes.
Por volta das 7h30 da manhã do dia 10 de agosto, um terremoto de magnitude 7,4 na Escala Richter atingiu San José del Palmar, cidade no departamento de Chocó, no oeste da Colômbia. O episódio se tornou o primeiro grande teste para o presidente Abelardo de la Espriella, que havia tomado posse apenas três dias antes.
Depois de uma cerimônia de posse marcada por símbolos, de um intenso debate sobre a “batalha cultural” que o novo presidente pretende travar e das primeiras demonstrações da política de linha dura que de la Espriella prometeu — com transferência de presos e operações militares —, o show acabou. Agora começa, de fato, a difícil tarefa de enfrentar os problemas concretos do país.
O que aconteceu
O tremor teve magnitude 7,4 e ocorreu a 96 quilômetros de profundidade, segundo o Serviço Geológico Colombiano (SGC). A intensidade foi semelhante à dos dois terremotos registrados na Venezuela em 24 de junho, de magnitudes 7,2 e 7,5. A principal diferença foi a profundidade: os tremores no país vizinho foram mais superficiais e, por isso, provocaram mais danos.
O município de San José del Palmar (Chocó) foi o epicentro do terremoto. A cidade tem uma população de 5.809 habitantes e conta com apenas 32 milhões de pesos colombianos [cerca de 54.400 de reais] do fundo da Unidade Nacional de Gestão de Riscos, segundo o prefeito León Fabio Marín. “Somos um município muito pobre, com recursos escassos”, afirmou.
Até o momento, segundo relatos preliminares, nenhum morador de San José del Palmar morreu em decorrência do terremoto. Marín, no entanto, relata que cerca de 400 moradias foram afetadas e que 20 estruturas desabaram completamente.
O tremor foi sentido em 11 departamentos do país, isto é, praticamente todo o território nacional, especialmente em Bogotá, Medellín, Ibagué, Armenia, Manizales, Cúcuta e Cali. Além dos mortos e feridos, foram registrados danos em milhares de moradias, dezenas de casas foram completamente destruídas e 61 edifícios desabaram.
O governo decretou estado de calamidade nacional. Com a declaração de calamidade, o governo pode emitir resoluções para agilizar o atendimento imediato às vítimas, incluindo a contratações emergenciais. A declaração de calamidade pode durar até 12 meses, com possibilidade de prorrogação.
Abelardo de la Espriella foi a Chocó, enquanto seus ministros foram para o Eixo Cafeeiro (no centro-oeste do país) e o Valle (no sudoeste). No Comitê Nacional de Gestão de Desastres, o presidente determinou que seu gabinete fosse enviado às regiões afetadas para coordenar o atendimento. A resposta emergencial é liderada pelo vice-presidente José Manuel Restrepo, que atua com o chanceler Omar Bula na articulação da cooperação internacional.


EUA prometem ajuda
O governo de Donald Trump destinou 15,5 milhões de dólares para abrigos de emergência, alimentos, proteção e avaliação dos danos causados pelo terremoto. O CAF [Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe] destinou 500 mil de dólares, e outros países também ofereceram apoio.
O presidente De la Espriella chegou ontem à noite a Cali, onde foi decretado toque de recolher e alguns pontos da cidade foram ocupados por militares para evitar saques em larga escala. As autoridades também decretaram alerta vermelho em todos os hospitais, que estão sobrecarregados devido ao grande número de feridos.
Várias capitais do país montaram pontos de coleta e arrecadação de doações para as vítimas do terremoto. Os colombianos pedem água potável, cobertores, mantas, travesseiros, colchonetes, alimentos não perecíveis, materiais de primeiros socorros e produtos de higiene pessoal.
O que dizem os protagonistas?
Abelardo de la Espriella (presidente recém-empossado): o presidente viajou a Chocó para acompanhar pessoalmente a crise e coordenou o Posto de Comando Unificado. “Vou estar à frente da resposta nacional e estarei presente em todos os territórios. Todos os ministros, o vice-presidente e o Posto de Comando Unificado se reportam a mim”, afirmou, após determinar que as operações de resgate dos sobreviventes fossem prioridade. “Sem diferenças ideológicas, devemos nos unir por esta causa”, concluiu.
Nubia Córdoba (Governadora de Chocó): “A transferência de pacientes é necessária porque o Hospital San Francisco de Asís, o único hospital de atendimento secundário do departamento, está lotado. Pela manhã, estávamos atendendo feridos inclusive no estacionamento, que adaptamos com tendas para disponibilizar mais leitos”, afirmou.
Gustavo Petro (antecessor de De La Espriella): “A terra grita. E quem escuta?”, foi a primeira mensagem publicada pelo ex-presidente Petro após o terremoto. Em uma segunda publicação, mais longa, ele apresentou recomendações sobre o que deveria ser feito. “Em uma emergência nacional, não pode haver territórios esquecidos nem cidadãos de segunda classe. O Estado deve chegar primeiro a quem mais precisa.”
Héctor Riveros (analista político e ex-ministro): “A natureza sempre impôs a agenda aos presidentes de turno”, afirma o analista. Ele relembra a pandemia de covid-19 durante o governo de Iván Duque, o terremoto do Eixo Cafeeiro no governo de Andrés Pastrana, as enchentes durante o governo de Juan Manuel Santos e as inundações em Córdoba, no governo de Gustavo Petro.
O que isso significa
Menos símbolos, mais execução: Abelardo de la Espriella se apresentou durante a campanha como um empresário com grande capacidade de execução. Este será o momento de demonstrá-la. Depois de uma transição de governo interrompida, marcada por acusações, e de uma posse em que prevaleceram orações, símbolos e chamados para a “batalha cultural”, o terremoto obriga o presidente e todo o seu gabinete a assumirem desde já a gestão do Estado para evitar mais mortes e conter a crise provocada pelo tremor.
Gestão descentralizada à prova: quando o terremoto aconteceu, De la Espriella estava em um avião. Pouco depois, porém, teve de chegar a Bogotá para instalar seu primeiro Posto de Comando Unificado (PCU), viajar até Chocó, retornar a Bogotá e seguir para Cali. Dada a dimensão da emergência, sua proposta de governar a partir da cidade de Barranquilla, anunciada desde o primeiro dia de governo, será colocada à prova, já que toda a estrutura institucional está concentrada em Bogotá e dificilmente será possível deslocar funcionários para Barranquilla para que continuem recebendo suas ordens.
Sem poderes extraordinários: a declaração de estado de calamidade permite ao presidente fazer alterações orçamentárias por decreto, mas não permite criar novos impostos, como seria possível em uma situação de emergência econômica. Embora tenha dito durante a campanha que governaria por meio de decretos de exceção, neste caso De la Espriella preferiu uma via menos radical, ao contrário de Petro, que, diante de crises menos graves, decretou quatro emergências econômicas que foram derrubadas parcial ou totalmente pela Corte Constitucional.
A oposição terá de adiar seus planos: uma tragédia dessa magnitude obriga a oposição a adiar protestos, manifestações e atos de desobediência já programados, uma vez que, em momentos como este, o país espera solidariedade e união em torno de um objetivo comum. A liderança da Unidade Nacional de Gestão de Riscos (UNGRD), órgão responsável por toda a operação logística, continua sendo a nomeada por Petro, pois a transição de governo nessa área ainda não havia ocorrido.
A saudação militar: o presidente De la Espriella fez sua primeira declaração oficial sobre a tragédia na sede da UNGRD, em Bogotá. Ao chegar, fez uma saudação militar para as pessoas que o observavam de cima e sorriu como se ainda estivesse em campanha. A banalidade do gesto, antes de anunciar que centenas de colombianos haviam morrido, foi duramente criticada nas redes sociais.
Abelardo, o primeiro comunicador da nação: embora isso já pudesse ser percebido durante a campanha, a tragédia tornou evidente o estilo de microgestão do novo presidente e, sobretudo, sua disposição de controlar e protagonizar a comunicação do governo. É ele quem anuncia os balanços de mortos e feridos, o número de edifícios que desabaram e outros dados da emergência. Quando Pava, diretor da UNGRD, fez uma declaração, foi interrompido porque somente o presidente está conduzindo a comunicação.
O que vem pela frente
Auxílio para o aluguel: o presidente determinou que os pacientes feridos em Chocó em decorrência do terremoto sejam transferidos para Medellín e que seja concedido um auxílio-aluguel às pessoas que perderam suas casas.
O novo diretor-geral da UNGRD: o engenheiro geólogo e mestre em gestão de riscos David Santiago Tamayo Roldán foi anunciado como o novo diretor da Unidade. Sua nomeação, porém, ainda não foi formalizada. Por isso, Javier Pava, nomeado por Petro, continua à frente do órgão.
Será criado um novo Forec? Depois do terremoto, começa a reconstrução. A forma como o presidente decidir conduzi-la vai revelar sua concepção de Estado: ele vai centralizar a reconstrução na Presidência? Vai entregá-la a empresários e à sociedade civil, como ocorreu em 1999 [no terremoto que atingiu o Eixo Cafeeiro da Colômbia]? Vai fortalecer a UNGRD? Ou vai distribuir poder entre os governantes regionais, em linha com sua proposta de descentralização?
PayPal 






