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TOC, TOC, TOC! Quem está batendo é o Super El Niño, eleitores

Impacto do fenômeno pode mexer com o eleitorado, atingido por chuvas torrenciais, ondas de calor e seca

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14 de agosto de 2026
12:00

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Estou esperando pra ver o efeito do Super El Niño nas próximas eleições brasileiras, embora até o momento o tema “clima” não tenha tido destaque nos debates eleitorais. Quanto mais perto estivermos das urnas, maiores devem ser os impactos do fenômeno, intensificado pelas mudanças climáticas, na vida dos brasileiros, que no momento parecem mais preocupados com temas como segurança pública e economia.

Mas como será quando as chuvas torrenciais começarem a cair no Sul do Brasil, a seca abater o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste do país, e as ondas de calor extremo e falta de água tornarem a vida ainda mais difícil nas metrópoles do Sudeste? Como estará o humor do eleitor quando o preço dos alimentos subir e a fumaça dos incêndios florestais encobrir as capitais da Amazônia?

Se em 2024, sofremos com as inundações no Rio Grande do Sul, secas e incêndios florestais de proporções inéditas na Amazônia, a previsão é que os efeitos sejam ainda maiores neste ano. De acordo com a atualização de 10 de agosto da NOAA (sigla em inglês da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), o fenômeno, que já vem sendo sentido com o aquecimento do Pacífico, que já ultrapassa 1,8 grau a temperatura média (subiu 0,6 grau em menos de um mês), tem 95% de chance de atingir o ápice entre outubro e dezembro, superando os registros históricos dos últimos 60 anos.

A visita desse convidado indesejável pode ter o condão de despertar a população para a importância de priorizar a emergência climática e cobrar a conta nas urnas. Segundo uma pesquisa divulgada em abril pelo Instituto Ipsos, 70% dos eleitores dizem que é preciso agir imediatamente para evitar impactos para as próximas gerações. Se isso ainda é insuficiente para pressionar os políticos, talvez a coisa mude quando os eventos extremos estiverem em curso como deve ocorrer nas próximas eleições. 

O impacto do Super El Niño pode ser mais imediato nas candidaturas dos governadores candidatos à reeleição. Somente quatro estados brasileiros – Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Piauí contam com planos robustos de adaptação climática, segundo um estudo do Instituto Clima e Sociedade (ICS) publicado em março deste ano. Outros oito estados contam com planos, mas baseados apenas no fortalecimento da defesa civil, o que é útil, mas insuficiente, segundo os pesquisadores.

Seria ótimo que, além de punir quem não fez a lição de casa, os eleitores usassem o critério ambiental para escolher deputados e senadores para que o Congresso pare de destruir as leis, como fez com a aprovação do pacote da Destruição (Lei Geral do Licenciamento Ambiental), agora com a constitucionalidade em julgamento no STF (sobre isso leia a coluna de Gustavo Faleiros desta semana) assim como a lei do Marco Temporal, que voltou ao STF depois de o próprio tribunal ter se pronunciado no sentido contrário.

Sabemos que as opções não são muitas – daí o destaque dado pela imprensa especialista no tema à candidata ao Senado, Marina Silva. Mas quem se preocupa com o clima, o ambiente e a democracia no país, tem alternativas de escolha para a Câmara Federal e Assembleias Legislativas – a começar pelas candidaturas indígenas já anunciadas para concorrer a cargos de deputado estadual e federal, além de outros candidatos com histórico confiável na área ambiental em partidos como Rede, PSOL, PCdoB e PT.

Já em relação à presidência, as opções se afunilam. Em uma conversa social, outro dia, ouvi de uma pessoa que não quer reeleger Lula, mas se considera democrata, feminista e ambientalista, o nome de Ronaldo Caiado, que anda circulando em algumas rodas “climáticas” como confirmei com outras pessoas envolvidas com o tema.

Uma surpresa e tanto para essa jornalista com mais de 40 anos de profissão, que lembra do atual governador de Goiás como fundador da UDR – União Democrática Ruralista – em 1985, inaugurando as milícias armadas no campo na redemocratização – e também da bancada ruralista, até hoje a principal articuladora de pautas contra a fiscalização e a proteção ambiental e o respeito aos direitos indígenas.

O próprio candidato continua a ostentar orgulhosamente seu compromisso com o agronegócio, responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa no país, e, para não deixar margem à dúvida, colocou o ex-comunista Aldo Rebelo, como coordenador de sua campanha. Rebelo vem se posicionando contra o ambiente desde que foi relator do Código Florestal, quando atuou para flexibilizar regras sobre o desmatamento e para anistiar criminosos ambientais, alegando que a culpa pelas infrações dos produtores rurais eram as leis excessivamente rigorosas (!). Depois passou a perseguir ONGs ambientalistas e indígenas na Amazônia.

Caiado também não pode ser considerado um democrata, não apenas pela violência contra agricultores familiares sem terra e indígenas, por ele defendida já na fundação da UDR, mas também pelas atitudes tomadas como governador. Desde a violência policial, que esteve sempre acima da média nacional durante o seu mandato, até a decisão de transformar o estado em laboratório das big techs ao aprovar em 48 horas leis regulamentando temas que o Congresso Nacional ainda discute – minerais críticos, datacenters e inteligência artificial, como revelou a Agência Pública nesta semana.

Isso sem falar que, assim como Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, também inimigos da proteção ambiental e adeptos ferrenhos da economia predatória como já demonstraram na prática, Caiado defende a anistia para os golpistas. O negacionismo climático, assim como o autoritarismo, o desprezo pelos direitos humanos e pelo multilateralismo – sem os quais não se constroem políticas climáticas – são característicos da extrema direita. Donald Trump e Jair Bolsonaro estão aí para nos lembrar.

Para quem se julga ambientalista e não quer reeleger Lula, como disse minha interlocutora, a situação não está fácil. Meu conselho é: caprichem nas escolhas para o Legislativo. Embora Lula, entusiasta do petróleo, não seja nenhuma Marina Silva, ao menos teve a coragem de colocá-la como ministra, reduzindo drasticamente o desmatamento na Amazônia e recolocando o país como liderança climática global.

Vamos ver como ficará a temperatura do debate eleitoral quando o El Niño bater à porta, trazendo tempestades, seca, ondas de calor. Afinal, até agora, mesmo com bons resultados para mostrar, nem o governo colocou o clima como bandeira eleitoral. É hora de se comprometer.

⏰ Lembrete: O podcast Bom Dia, Fim do Mundo estará de volta na próxima quinta-feira (20) para discutir clima e eleições nesse período de extremo calor no planeta e na política. Não percam!

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