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Vale do Silício tenta vender a cristãos que Inteligência Artificial é plano divino

Nomes como Peter Thiel estão tentando engajar lideranças cristãs para defender a inevitabilidade da adoção da tecnologia

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12 de agosto de 2026
12:00

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“Se Deus tem usado o rádio, a televisão, as redes sociais e tantos outros meios tecnológicos para alcançar pessoas, por que não utilizaria também as IAs? Com certeza, Ele as utilizará!”. A frase é do pastor William E. Timm, coordenador de evangelismo digital na Rede Novo Tempo, publicada na Revista Adventista. 

Cada vez mais, a indústria da tecnologia tenta vender a ideia de que a Inteligência Artificial (IA) e seus desdobramentos são inevitáveis e necessários – para criar respostas, pensar por nós, dar conta de produzir dentro do tempo acelerado do capitalismo neoliberal que nos esmaga, solucionar crises e, no fim das contas, atuar como um oráculo do qual, em um futuro próximo, vamos precisar tanto quanto necessitamos de água ou luz. 

Mas tem um campo que ainda precisa ser totalmente convencido pelos “tech bros”: o da direita cristã, que ainda está… dividida. 

E é isso que alguns círculos do Vale do Silício estão tentando fazer, como mostra uma reportagem recente da revista Mother Jones. A jornalista Kiera Butler, que assina o texto, lembra que em 2025, durante a Conferência Nacional de Conservadorismo que acontece anualmente nos Estados Unidos (e que reúne um grupo que se consolidou como uma forte influência nas decisões políticas do governo Trump), o professor de psicologia da Universidade do Novo México, Geoffrey Miller confrontou o diretor de tecnologia da Palantir, Shyam Sankar, em uma discussão acalorada, dizendo que a indústria de IA, é “globalista, secular, liberal, feminizada e transumanista. Eles querem explicitamente o desemprego em massa, planejam um comunismo baseado na Renda Básica Universal e veem a espécie humana como um ‘carregador de inicialização’ biológico, como eles dizem, para a superinteligência artificial”. Sankar ficou visivelmente desconfortável.   

Miller não está sozinho, há toda uma leva de cristãos ultraconservadores dizendo por aí que a IA é o anticristo e que o plano “woke” não vai parar na transição de gênero, mas que o objetivo final é transicionar de humano para máquina. 

Também não ajuda o fato de que alguns porta-vozes como Sam Altman, cofundador da OpenAI, amam declarações apocalípticas como a de que a IA “provavelmente levará ao fim do mundo, mas, enquanto isso, haverá grandes empresas”. 

Por isso, alguns oligarcas do Vale do Silício estão tentando intermediar a discussão entre esses dois campos emergentes na direita religiosa: de um lado, dos admiradores da IA, de outro, seus céticos. Figuras como Peter Thiel, aliado do vice-presidente JD Vance e dono da Palantir, e outros entusiastas da tecnologia ligados à religião, como Katherine Boyle, uma das principais vozes da chamada “direita tecnológica”, católica e também próxima de Donald Trump e J.D Vance, e Trae Stephens, cofundador e presidente executivo da empresa de tecnologia de defesa Anduril Industries, sócio da Founders Fund, empresa de capital de risco de Peter Thiel, estão liderando um esforço para defender que a IA é mais comparável a um “ente salvador”, até mesmo a um messias semelhante a Cristo. 

Assim, os cristãos têm sido convocados não só a abraçar a tecnologia, mas teriam a obrigação de fazê-lo, porque o progresso em si seria um bem moral.

A mensagem é sedutora para todo mundo porque promete para os pregadores da tecnologia uma legitimidade moral e, para os setores religiosos, a mesma tecnologia oferece poder, dinheiro e alcance no mundo contemporâneo. 

Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que, em 2023, 52% dos americanos diziam estar mais preocupados do que entusiasmados com a inteligência artificial; em 2025, esse número caiu para 50%, mas a desconfiança continua alta. Por isso a legitimidade espiritual, que exige menos fatos concretos e mais a subjetividade da fé, se encaixa como uma luva. É uma tentativa de “reencantar a máquina”. 

No Brasil, esse movimento também cresce. O país tem cerca de 47 milhões de evangélicos, o equivalente a 27% da população, enquanto os católicos seguem como maioria, com 57%. E 95% dos brasileiros acessam a internet diariamente, segundo dados recentes do IBGE. E aí, claro: um país que é ao mesmo tempo massivamente cristão e massivamente conectado, se torna um laboratório perfeito para plataformas que transformam experiência religiosa em mercado digital. 

Os cristãos no Brasil já abraçam a tecnologia. O Hallow, aplicativo de oração mais popular do mundo, afirma ter 24 milhões de downloads em 150 países. No Brasil, superou 4,8 milhões de downloads desde 2022 e, entre janeiro e abril de 2026, gerou US$400 mil em receita no país, segundo dados da AppMagic. 

A IA também já tem sido usada por aqui para criar sermões para criar vídeos de Jesus, para “ouvir” e “interagir” com pecados que os crentes não têm coragem de contar aos seus líderes religiosos, como mostramos no podcast Pauta Pública.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia, por exemplo, investiu em ferramentas como o chatbot Esperança e o 7chat.ai. Em um único mês, o 7chat.ai registrou 94,5 mil interações com fiéis. 

A teologia da prosperidade e a teologia “coaching” propagada por influenciadores como Pablo Marçal também unem elementos a essa fórmula. Se nessas duas vertentes a ideia principal é a de que se você seguir um código divino e de conduta você desbloqueia bens materiais e prospera, no arranjo que agora se desenha entre cristianismo e Vale do Silício, a mensagem passa a ser algo como “adote a tecnologia certa, alinhe-se ao progresso e isso também será sinal de virtude espiritual”. 

“No século 21, o Anticristo é um ludita” (luditas foram trabalhadores ingleses do setor têxtil que protestavam contra a substituição da mão de obra humana por máquinas na Revolução Industrial, sobretudo quebrando máquinas) afirmou Peter Thiel durante encontros secretos vazados em outubro de 2025, publicados pelo Washington Post.  Segundo o jornal, Thiel fez uma série de quatro palestras particulares em São Francisco, chamadas “O Anticristo: Uma Série de Palestras em Quatro Partes”. Para ele,  no século 21, o Anticristo não seria mais um cientista ambicioso ou um agente do caos, mas sim aqueles que tentam impedir o progresso tecnológico, incluindo a ativista ambiental Greta Thunberg. Assim, o que ele está fazendo é deslocar um conflito econômico e regulatório para o terreno da fé cega. 

E aí esse projeto também produz obviamente efeitos políticos. Imaginem se os “tech bros” conseguem, com todo o dinheiro que têm à mão, emplacar a IA como bem moral e expressão da criatividade divina? Isso vai reduzir o espaço a críticas sobre concentração de poder, precarização do trabalho, vigilância, desinformação, crise climática, impacto ambiental de data centers, e levar a uma nova “inquisição” contra quem questionar não só o “progresso”, mas a vontade de Deus. Que perigo. 

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