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Na Alemanha, o fascismo perdeu a vergonha

Vitória da extrema direita alemã é assustadora, mas não surpreendente

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9 de setembro de 2026
12:00

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Não esqueço quando ouvi pela primeira vez, em uma conferência a portas fechadas em Berlim, a declaração: “Os alemães precisam voltar a ter orgulho de sua nação e de sua nacionalidade. Não vamos mais olhar para o passado”, dada por uma estrategista política norte-americana próxima ao MAGA (o movimento Tornar a América Grande Novamente, presidente dos EUA).

A reação também me marcou. O que começou com aplausos tímidos da audiência de direita, se tornou uma ovação emocionada. 

O ano era 2024 e ali eu senti que os ventos estavam mudando no país. Porque até então, o Alternativa para a Alemanha (AfD), partido que já chegou a ser classificado várias vezes pela inteligência alemã como perigoso e extremista de direita, era isolado não apenas dentro dos parlamentos por um cordão sanitário imposto pelos outros partidos, mas pela própria extrema direita europeia. Essa ideia do “orgulho nacional alemão” não era ouvida frequentemente mesmo nos círculos mais radicais.

Passei então a acompanhar a AfD mais de perto e tentar decifrar o que tinha dado errado no trabalho de memória da Alemanha pós nazismo, que é mundialmente reconhecido como um bom trabalho. A cada canto há um monumento às vítimas do Holocausto, um museu que conta as atrocidades cometidas pelos nazistas, ou as Stolpersteine – pequenas placas de metal dispostas no chão das ruas, com informações pessoais de judeus que foram raptados, perseguidos ou mortos na região. Nas escolas, as crianças também aprendem sobre os horrores do Holocausto e desde pequenas são ensinadas a dizer “Nie Wieder”, nunca mais. 

Cheguei a escrever sobre isso em um texto para o ICL no ano passado, dizendo que enquanto a memória é essencial para que atrocidades não se repitam, a culpa é um sentimento complexo, já mostrava Freud, porque tem a ver com desejo, conflito, recalque, remorso, mas também neurose. E a culpa pelo Holocausto se desenvolveu de várias maneiras na subjetividade da sociedade alemã, gerando inclusive ressentimento, que parece ser o sentimento que impulsiona o extremismo de direita em nossa época.

Nesses dois anos, a AfD foi ganhando cada vez mais espaço e popularidade. Trump, Elon Musk, Steve Bannon e outras figuras da direita norte-americana e europeia começaram a divulgar o partido e suas ideias sem constrangimento. Nesse tempo, o fascismo também foi se “desavergonhando” cada vez mais em todo o mundo. A pauta anti imigração passou a ser a resposta rápida da direita populista para todas as crises trazidas pelo capitalismo neoliberal: da falta de emprego às desigualdades sociais, do aumento da criminalidade a suposta perda de um “purismo cultural”. 

Também em 2025 entrevistei membros da AfD e fui a dois eventos do partido na Turíngia, no centro-leste da Alemanha, e entendi que esse orgulho alemão, e ao mesmo tempo o ódio aos imigrantes, vêm vindo com força em uma sociedade que está há alguns anos passando por uma crise econômica. A principal pauta é a da deportação em massa, não há meias palavras. A abertura da Alemanha aos refugiados em 2015 é apontada pelo partido como o maior erro da história recente e os jovens dizem que querem voltar a ouvir o idioma alemão nas ruas.

Um dos jovens inclusive me disse, quando perguntei o que o fazia defender a pauta anti imigração, que não era nada exatamente relacionado a fatos, era mais “um sentimento”.

Há também, é claro, diversos outros fatores para essa popularidade, desde os mais específicos e nacionais, como uma divisão entre leste e oeste — que nunca acabou de fato —, até os mais globais, como o voto de protesto e a imagem sedutora do outsider que diz o que pensa sem medo das consequências.

Por tudo isso, a vitória da AfD nas eleições na Saxônia-Anhalt, neste fim de semana, não é surpreendente. É triste, alarmante, sintomática, mas não surpreendente. Com 43,8% dos votos depositados (39 dos 83 assentos parlamentares), a AfD já anunciou que vai se mover a partir desta semana para tentar obter uma coalizão majoritária.

Na Alemanha, a formação de governos estaduais é parlamentarista. Um partido que obtém mais da metade dos assentos na Assembleia Legislativa conquista o posto de governador do estado. Como nenhum dos partidos obteve a maioria necessária na eleição de domingo, eles terão que fazer alianças. As legendas podem se unir em coalizões para governar juntas em maioria ou angariar apoio de outras para liderar um governo minoritário. Para governar, na prática, a AfD precisaria ultrapassar o “cordão sanitário”, compromisso de outros partidos de não cooperar com a ultradireita e, assim, mantê-la longe do poder.

Durante a campanha, todos os partidos descartaram parceria com a AfD, exceto pelo partido nanico Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), uma legenda populista “antiwoke”, comandada pela ex-comunista Sahra Wagenknecht, que levou pouco mais de 5% e que compartilha com a AfD discursos anti-imigração e em favor da Rússia.

O sistema eleitoral alemão é super complexo e pode se abrir em diversos cenários possíveis de negociações, coalizões, novas eleições, por isso ainda não está claro o que vai acontecer. 

Mas o quanto é efetivo, em uma democracia, fazer todas as manobras possíveis para impedir um partido mais votado de governar? Será essa a melhor maneira de enfrentamento da extrema direita? Ou o melhor seria entender o que está na raíz dessa popularidade da AfD para que o nazismo e o fascismo, em suas variadas formas, não se repitam? 

Os alemães têm uma palavra para o espírito do tempo: Zeitgeist. A eleição do último domingo representa uma sombria e inquietante adequação da Alemanha ao Zeitgeist, num país que há menos de 100 anos levou Hitler ao poder.

*Atualização às 12h04 de 10/09/2026: Alteramos o trecho que afirma que a Alemanha elegeu Hitler, visto que o processo eleitoral e o sistema político na Alemanha (parlamentarista) são diferentes. Em 1932, 37% dos eleitores alemães votaram no partido de Hitler, fazendo com que se tornasse o maior partido da Alemanha, ainda que não a maioria absoluta no parlamento, similar ao que acontece agora com a AfD. Como o parlamento foi dissolvido, Hitler foi nomeado Chanceler pelo Presidente Paul von Hindenburg.

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