Buscar
Coluna

Querida leitora e eleitora, como você está nesta campanha?

Quanto mais os poderosos brigam, mais desalento criam ao seu redor, feito de urgência e apreensão sobre o futuro

Coluna
11 de setembro de 2026
12:00
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Não tive muitas discussões profundas sobre política, Brasil e futuro com as pessoas ao meu redor depois de a campanha começar. Com tanto ruído parece impossível ter uma conversa séria, com a atenção tomada pelo complicado enredo da crise do STF, que ocupa também a arena eleitoral, em um bombardeio de notícias, minúcias e opiniões.

Demorei pra entender quando uma amiga disse que a campanha estava “chata”, o oposto exato do que eu sinto, imersa no trabalho cotidiano como jornalista e que nunca pareceu mais desafiador – nem mais urgente. Mas ouvindo outras pessoas, igualmente informadas e politizadas, que não estão dispostas a se engajar nessas eleições, entendi como o espetáculo grotesco no STF e a exploração eleitoral da crise afastam os eleitores desse mar de lama. Não é nada motivador acompanhar diálogos indecorosos, nem autoridades que parecem movidas por uma ganância injustificável por parte de quem ganha mais do que 99% da população brasileira, e tem um enorme poder, que deveria ser no mínimo retribuído com responsabilidade e compromisso com a Constituição. 

E se Alexandre de Moraes tem muito a explicar sobre suas relações com Vorcaro, envolvendo mais de 50 mensagens comprometedoras – inclusive no dia em que acabou preso pela Polícia Federal – e tendo como pano de fundo um contrato de 130 milhões com o escritório de sua esposa, ele não é o único ministro a contribuir para a desmoralização da cúpula da Justiça, essencial ao regime democrático. 

Em fevereiro, um acordo feito a portas fechadas pela Corte, presidida pelo mesmo ministro Edson Fachin, o ministro Dias Tóffoli deixou a relatoria do Caso Master, mantendo a toga e a imunidade com uma declaração de “apoio pessoal” e de “inexistência de suspeição ou impedimento” em nota pública assinada pelos dez ministros do STF. Isso depois de ter trocado mensagens com o banqueiro fraudador, de quem era sócio no resort Tayayá, como revelado um mês antes pela imprensa. 

Também pesam suspeitas sobre o ministro André Mendonça, como antecipei na coluna passada, de uso político dos inquéritos sob sua relatoria – o do INSS, do Dark Horse e do Master. Vazamentos seletivos com impactos no eleitorado do presidente Lula – o caso “Lulinha”, errônea e propositalmente misturado às fraudes contra os aposentados – ocuparam as manchetes no início da campanha. Enquanto isso, o caso Dark Horse, revelado pelo Intercept em maio, com áudios de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, ficou trancado na mesa de Mendonça. 

Até hoje Flávio sequer depôs no inquérito que também investiga o destino real dos recursos enviados através de um fundo com sede nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, que desde a derrota do pai, Jair, faz lobby pela interferência do governo Trump na soberania brasileira. Também não se sabe o quanto de dinheiro público (além daquele furtado por Vorcaro da previdência de servidores de diversos estados) consumiu a empreitada, como mostra a investigação da PF a pedido do ministro Flávio Dino sobre o possível desvio de 2 milhões de reais de emendas parlamentares para ONGs ligadas a produtoras do filme, que já resultou em buscas policiais na casa de Mário Frias, ex-ministro da Cultura de Jair Bolsonaro. 

Igualmente suspeito foi o momento escolhido por Mendonça, também ex-ministro de Jair Bolsonaro, para incendiar o STF. O relatório da PF sobre Moraes, com citações a Paulo Gonet (PGR) e Andrei Rodrigues (PF) foi encomendado a toque de caixa a 35 dias das eleições; e vazado e depois liberado para imprensa a uma semana do 7 de setembro, quando Mendonça se tornou “mártir” para os eleitores religiosos de Jair (que também estavam distantes da campanha), com sua figura exaltada em bonecos e cartazes na manifestação de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista. 

Como cidadã e como jornalista acredito que todos os segredos de interesse público devem ser revelados na sua totalidade e todos os suspeitos investigados. O perigo está exatamente nos vazamentos parciais e interessados que levam a distorções de informação e de processos legais com impactos de todo o tipo, inviabilizando inclusive as próprias investigações como aconteceu no caso Lava Jato. Mas não esqueço o óbvio: até agora Flávio Bolsonaro é o único candidato a presidente que pediu e recebeu dinheiro de Vorcaro. 

Fica difícil acreditar que o ministro Edson Fachin, que demonstrou tão pouco apetite por Justiça no caso Toffoli e demora a reagir agora, vai ter a vontade e energia necessárias para encarar até o fim as suspeitas que pesam sobre a corte – de A a Z. Duas condições são essenciais para que a população acredite que há pelo menos a intenção de recolocar o STF nos trilhos: que a sessão extraordinária marcada para o dia 15 no plenário para esclarecer as denúncias envolvendo o Caso Master seja pública; e que o material sobre o caso seja liberado em sua totalidade para evitar vazamentos seletivos. 

Quanto a nós, eleitores, talvez valha a pena fazer um exercício de distanciamento, já que as querelas dos poderosos frequentemente nos excluem, colocando na balança também os projetos políticos dos candidatos sob o risco de despertar em uma ditadura como a de El Salvador. Que está sendo vendida como projeto para o Brasil por vários candidatos, apesar de o regime de Bukele manter 1 a cada 50 cidadãos na cadeia, sem processos nem garantias legais, e um país no escuro, com a expulsão de jornalistas e da imprensa livre, como contou o multi premiado e jornalista exilado, Carlos Dada, em visita recente ao Brasil. 

Torço para que a gente consiga sacudir os respingos desse mar de lama e apoiar políticos que privilegiam o diálogo para construir alternativas para um futuro ameaçado por guerras, ditaduras, injustiças, e pelo próprio desequilíbrio do planeta. E que sejam capazes de aprofundar o debate e defender nossos direitos, inclusive o de ter acesso às informações de interesse público e à Justiça, julgando e punindo os que dela se desviaram. Sempre preservando nossas conquistas, como o julgamento e a prisão dos golpistas e do próprio Vorcaro, além da legitimidade e segurança de nossas eleições.

Ao contrário dos que têm por dever guardar a Constituição, que custou tantas vidas pela redemocratização do país para se construir como consenso e base democrática, talvez seja a hora de a gente reafirmar o parágrafo único do artigo que abre a Carta Magna: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 233 A fábrica de radicais do Discord – com João Victor Ferreira

Cientista político explica como os discursos extremos rompem as fronteiras virtuais e incentivam uma sociedade violenta

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte

Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica

Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política

Flávio Bolsonaro (PL) participou no sábado 29 de agosto de um ato de campanha à Presidência em Angra dos Reis (RJ) ao lado do candidato a deputado federal, o empresário Renato Araújo, também do PL

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

|

Quem é Renato Araújo, candidato a deputado que cresce no círculo dos Bolsonaro assim como os problemas ao seu redor

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

|

Câmeras corporais de policiais se tornaram campo de disputa política que vai muito além da responsabilização por abusos

Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

|

Maior parte dos programas ignora prevenção a mortes ou violência sexual de crianças e sequer menciona primeira infância

Lula e Flávio, mais cautelosos que o usual, deixam público dar recados no 7 de setembro

|

Em SP, ato da direita levou menos gente às ruas que no ano passado; em BSB, Lula seguiu protocolo “seguro”

André Mendonça mobiliza orações e se torna ícone do 7 de setembro bolsonarista

|

Crise no STF se torna “guerra santa” entre evangélicos e coloca o ministro como “mártir” em oposição a Moraes