Meu avô amava frutas, em especial pêssegos. Nós morávamos em Jundiaí e ele pegava seu Fiat 147, a Fortunata, para passar fins de semana conosco. Naquela época, a Anhanguera era povoada de pequenas paradas e barracas à beira da estrada que vendiam a produção local, garapa e, às vezes, pamonha. Na safra, os pêssegos pareciam estar por toda parte. Depois vinham morangos de Atibaia, uvas Niágara de Jundiaí, daquelas de chupar e jogar fora a casca, figos de Valinhos, grandes, gordos e macios, como já não se encontram hoje. Às vezes havia também uvas Itália, de bagos gordos, que vinham — eu nem sabia de onde —, talvez do Vale do São Francisco. Mas a Fortunata quase sempre saía carregada com caixas de pêssegos aveludados e sumarentos.
Eu lembro também do pêssego em conserva, sobremesa de festa. Amarelos, macios, embebidos na calda, apareciam na mesa em dias mais nobres. Quase sempre o creme de leite de lata vinha ao lado. Eu me lembro da propaganda: “envolvi tudo”, falava uma voz de criança, com a câmera fechando na fruta e no creme espesso escorrendo sobre ela.
Os pêssegos em lata também apareciam no centro da mesa de Natal, cuidadosamente arrumados na forma de gelatina vermelha que tremia levemente sobre a toalha. Minha tia a preparava invariavelmente para as festas, perfumada com cravo e canela.
Quando via uma caixa de pêssegos, meu avô desembrulhava um deles, retirava o papel fino que o protegia, disfarçava, mas dava uma apertadinha para saber se a polpa cedia ou se ainda resistia na firmeza verdolenga.
Ele tinha uma tese. Conhecia todas as espécies e achava os branco duros melhores do que os solta caroço, os pingos de mel ou os maracotões. “Só têm tamanho, falta textura e sabor nesse aí.”
Acho que parte dessa paixão veio da época em que morou no Rio Grande do Sul. Mas ele também inventava causos para tornar as histórias mais interessantes.
Quando tive o Bistrô nos Jardins, quis fazer um Bellini seguindo a receita do Harry’s Bar. A receita de Cipriani leva purê de pêssego e espumante da região, o prosecco. Tentei reproduzir o purê usando maracotão, mas não funcionou. Coloquei um pouco de suco de maçã, pedaços em cubos descascados, um pouco mais de açúcar, tentei corrigir daqui e dali. Nada funcionava. Um ficava sem sabor, outro doce demais.
Fui pesquisar e descobri que na Itália existem variedades mais comuns — bianca, gialla e percoca — e que Cipriani usava, em sua receita, purê fresco de pêssego branco. Comprei mais pêssegos, tirei a casca, processei, cozinhei, tentei vídeos no YouTube, mas nada ficou igual ao que experimentei uma vez, num verão em Veneza. Desisti do drink.
Mas não dos pêssegos.
Meu marido é como meu avô: ama pêssegos. Mas não sabe diferenciá-los. Compra pela aparência. Às vezes acerta.
O pêssego sempre teve alguma coisa de desejo. A fruta suculenta, doce, perfumada, escorre pelo canto da boca, mela os dedos, ocupa o espaço inteiro só com seu cheiro. Tem até pele, e aveludada. “Pele de pêssego”, fala a adolescente sedutora e debochada passando o dorso da mão no rosto. Pêssego combina mais com o universo de Vênus do que com o da cozinha. Em inglês, amantes se chamam de “peach” — meu pêssego, meu docinho —, um apelido que cola na fruta toda a intimidade de um amor.
Mas eu não vejo nele a sedução. Vejo outra coisa — um universo de afeto e pertencimento. Uma lenda pessoal, uma ancestralidade que só eu e a minha família podemos entender. Uma possibilidade de reviver meu avô. E, na obsessão dele por distinguir cada variedade, lembrar que sinto muita falta dele chegando em casa carregado de sacolas de frutas e da necessária caixa de branco duros da feira.
Pêssegos assados
6 pêssegos branco duros maduros 150 g de açúcar demerara 50 ml de gin 25 ml de licor Peachtree
Corte os pêssegos ao meio. Retire o caroço. Disponha as metades com os buracos dos caroços para cima. Regue com o gin e o Peachtree. Polvilhe o açúcar demerara e leve ao forno a 180 graus até o açúcar começar a caramelizar.
Sirva com sorvete de iogurte ou nata.



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