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Crônica

O que há num nome?

Gertrudes, Corina, Marina, de significados profundos a combinar nomes, por que te chamam assim?

Crônica
30 de agosto de 2025
04:00
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Sou encantada por nomes. Tem alguns que caem em desuso, tipo Simone (142 mil nos anos 70 x mil em 2000), e outros que voltam, como Bento, Francisco. Na década de noventa, foram registradas 97 pessoas com o nome “Marina” na cidade onde eu nasci. Entre os anos 1930 e 2000, foram registradas 208 mil Marinas, com um pico de 45 mil xarás também nos anos noventa. Os dados são do maravilhoso site Nomes no Brasil, que o IBGE publicou a partir de dados do Censo 2010 e que, infelizmente, ainda carece de atualização. 

Tem toda uma coisa também dos motivos para a escolha do nome que parece mudar com o tempo. Minha mãe se chama Marilda porque tinha uma personagem de radionovela com esse nome. Minha irmã se chama Clarissa porque minha mãe é fã do Érico Veríssimo. Já minha prima, chamou o filho de Gabriel porque é um nome compreendido em diversos idiomas.

Aliás, fiquei fascinada quando descobri que italianos têm dificuldade em compreender e falar o nome Thiago (que para eles é Giacomo) ou que ingleses não entendem bem Guilherme (que pra eles é William). 

Tem quem busque significados profundos e quem combine os nomes dos filhos. Lá em casa, as gêmeas são Clarissa e Carolina, com C. E não sei se foi intencional, mas todos os netos homens da minha vó têm nomes terminados em el. Daniel, Samuel, Rafael, Gabriel.

Eu vim de surpresa, ninguém esperava. Minha mãe já tinha três filhos adolescentes. Meu pai sempre preferia que ela escolhesse os nomes dos filhos, só disse uma vez que gostaria de ter uma filha Carolina. O primeiro foi Daniel porque ela gostava do nome. A Clarissa foi por causa do livro do Érico Veríssimo e a Carolina, uma homenagem à avó do meu pai, mas também à música do Chico Buarque. Quando veio a raspa do tacho, a filha temporã, minha mãe quis homenagear meu pai: Roberta. Roberto vetou. Enquanto uma decisão definitiva não era tomada, meu tio chamava de Gertrudes o bebê que crescia na barriga. 

Até que minha mãe resolveu homenagear sua bisavó materna, chamada Corina. Caos. Revolta. Minha mãe subestimou a rebeldia e o deboche dos adolescentes à sua volta. Uma prima mais nova dela arregimentou meus irmãos e primos. Eles fizeram cartazes e saíram pelo bairro entoando palavras de ordem. 

Coitada da menina

que vai chamar Corina!

Como você pode ver no crédito no alto desta página, os manifestantes tiveram sua reivindicação atendida. Ficou Marina, como o mar e como a música do Caymmi, da qual eu nunca gostei. Primeiro, porque todo mundo cantava a parte do “desculpe, morena Marina, mas eu tô de mal” e eu, criança sensível, ficava arrasada. Não queria que ficassem de mal comigo, poxa, nem fiz nada! Segundo porque, ouvindo hoje, é uma letra um tanto machista. Eu pinto o rosto e quem tem que gostar disso sou eu, me deixa.

Eu gosto de ser Marina. Mas me pergunto como teria sido se fosse Corina, que até acho um nome legal. Mas será que iam me zoar muito na escola? Me chamar de Coriza e fazer barulho de nariz escorrendo quando eu passasse? Será que se eu me chamasse Corina teria uma personalidade diferente? Teria tido outra profissão, tipo médica otorrinolaringologista? Teria feito outras escolhas? Ou só não teria sido chamada de Mariana incontáveis vezes e seria sempre a única com meu nome nos lugares? 

Hoje, trabalho com outras duas Marinas que admiro profundamente. E conheço algumas outras Marinas jornalistas que me fazem gostar muito de não ser a única Marina do lugar. A Corina não teria a mesma sorte.

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