Buscar
Reportagem

Banco Master: golpe revela falhas sistêmicas em regulação e controle do setor financeiro

Para especialistas, Fundo Garantidor foi usado como ‘garantia’ de títulos podres e agências de avaliação não funcionaram

Reportagem
5 de dezembro de 2025
12:49
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Rovena Rosa/Agência Brasil

As autoridades ainda investigam a extensão e quem se envolveu nas fraudes no grupo Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, estimadas em ao menos R$12 bilhões, segundo o diretor da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Mas já se sabe quem vai pagar a conta: o Fundo Garantidor de Crédito, uma entidade independente que mantém a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional, dando “garantia de créditos contra instituições” bancárias no país.

Mais conhecido por sua sigla, o FGC foi criado em novembro de 1995 e, pelas regras atuais, cobre perdas de no máximo R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em depósitos, ou investimentos que estejam em contas correntes, poupanças e aplicações variadas, como CDB, LCI e LCA nas instituições que participam do Fundo.

No caso do banco Master, o que deveria servir como garantia pode ter se voltado contra o próprio FGC graças a brechas regulatórias e a más práticas de agentes no sistema financeiro. É o que avalia a advogada e doutora em Direito pela PUC-SP Lucía Ferrés Zakia, que pesquisa a regulação do mercado mobiliário e de capitais.

Por que isso importa?

  • Operação Compliance Zero da PF que identifica títulos falsos no sistema financeiro prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro em novembro
  • O banqueiro também foi convocado a comparecer à CPI do INSS para Vorcaro explicar as operações do Master em créditos consignados a aposentados e pensionistas

“O mercado sabia que um banco pequeno como o Master prometer rendimentos de 140% em certas aplicações era irreal, sinal de títulos podres, mas porque indicava esse tipo de produto? Porque havia um ‘seguro’ – o FGC, que virou ‘lastro’ para a venda, sem limites, de produtos financeiros ruins, contanto que ficassem dentro do teto do FGC”, disse Ferrés à Agência Pública.

Títulos podres são ativos ou operações financeiras de alto risco de inadimplência, emitidos, na maioria das vezes, por empresas com classificação de crédito baixa, ou em dificuldades financeiras, ou recuperação judicial. Por apresentarem alto risco, costumam oferecer juros altos e se apresentam como empréstimos, financiamentos ou aplicações.

Lucía Ferrés advogada e doutora em Direito pela PUC-SP

Para a pesquisadora, as fraudes bilionárias no Master são fruto de problemas sistêmicos na regulação do mercado, onde “consultores, assessores de investimento, corretoras e muitos outros descumprem seus deveres fiduciários de avaliar, de fato, se produtos financeiros são rígidos ou não, se são confiáveis ou não”.

“As pessoas vendem um produto podre, mas com garantia do FGC, que foi criado para mitigar riscos sistêmicos, mas virou uma espécie de seguro para vender produtos podres […] grande parte da fraude no Master foi um golpe contra o FGC”, afirmou Ferrés.

As digitais de auditorias e agências de avaliação de risco no caso Master

Também ouvido pela Pública, o ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial Carlos Primo Braga destacou o fato do grupo Master ter obtido avaliações positivas de auditorias fiscais e agências de avaliação respeitadas no mercado financeiro.

“Sinceramente não sei como foi o diálogo entre as agências e auditorias com o Master, mas certamente elas tiveram acesso não apenas aos balanços, como também houve diálogos com o banco. Mas, sinceramente, não tenho dúvida que elas devem ter tido – ou ainda estão tendo – reuniões internas para discutir como vão explicar suas avaliações, até porque isso traz impactos sobre a imagem delas próprias”, disse Braga, que também é professor associado na Fundação Dom Cabral.

O ex-diretor do Banco Mundial ressaltou ainda que a intervenção do FGC no banco Master trará consequências relevantes aos cofres do Fundo, mas não abalará por completo o sistema financeiro.

“Do ponto de vista do sistema financeiro, o Master é uma instituição pequena, com menos de 1% dos ativos totais nas instituições em funcionamento, um dos motivos pelos quais sua liquidação não traz um risco sistêmico”, disse.

Uma história de liquidações, falências e rombos

Inicialmente, o atual diretor-executivo do FGC, Daniel Lima, disse em entrevista à rede Times Brasil que o Fundo calcula usar algo em torno de R$ 41 bilhões na liquidação do banco Master, o que não prejudicaria a saúde financeira da entidade. Ainda assim, estima-se que este será o maior resgate da história do FGC, como reportado pelo portal CNN Brasil.

Daniel Lima atual diretor-executivo do FGC

À Pública, o ex-diretor do Banco Mundial destacou que o FGC tem aproximadamente R$ 160 bilhões em caixa – valor suficiente para cobrir o rombo inicialmente previsto.

No fim das contas, todos nós vamos pagar um pouquinho desta conta porque o FGC vai ter de recuperar os recursos gastos e, como são bancos privados que o financiam, eles naturalmente vão se organizar em termos de como ‘dividir’ essa conta com seus clientes e credores. Ainda assim, não vejo sinais de uma crise sistêmica até o momento”, disse Braga.

Criado em novembro de 1995, o FGC ganhou fama três anos depois, na liquidação do antigo Banco Bamerindus, em 1998.

Por determinação do Banco Central, o FGC cobriu pouco mais da metade dos R$ 97 milhões perdidos à época com o fechamento do banco, como mostram seus balanços oficiais. Se ocorresse hoje, a liquidação do Bamerindus teria custado o equivalente a R$ 441,5 milhões aos cofres do FGC, segundo cálculo do Banco Central

Mais recentemente, em 2023, o FGC interveio em duas instituições financeiras – a BRK e a Portocred – a mando do Banco Central, graças à má gestão e ao descumprimento de normas regulatórias. O FGC calcula que as dívidas equivalem a R$ 1,7 bilhão, lesando cerca de 54 mil credores das duas instituições.

Menos de três meses depois, o Fundo Garantidor divulgou que já tinha pagado R$ 1,65 bilhão, quase a totalidade do valor do rombo deixado pelas duas instituições, segundo o Infomoney

Quem cuida da liquidação do grupo Master

Como informa o Diário Oficial da União, desde o último dia 18 de novembro o auditor aposentado do Banco Central (BC) Eduardo Félix Bianchini se tornou o liquidante do Banco Master.

Na prática, Bianchini é responsável por sanar as contas de cinco empresas ligadas ao grupo – Banco Master, Banco Master de Investimento, Banco Master Múltiplo S.A., Banco Letsbank e a Master Corretora.

A tarefa não é novidade para o auditor aposentado do Banco Central, liquidante em ao menos outros oito processos de liquidação de bancos ocorridos no país desde 2012 – como relata o jornal O Estado de S. Paulo. Bianchini coordenou as liquidações dos bancos BVA e Cruzeiro do Sul, em 2012 e 2015, por exemplo.

“As tarefas imediatas do liquidante consistem, basicamente, em levantar a lista completa de credores e investidores do Master, tentando ‘separar o joio do trigo’, identificando os investimentos e valores legais e os separando de valores envolvidos diretamente em fraudes”, explicou o ex-diretor do Banco Mundial.

Carlos Primo Braga, ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial

Braga afirmou ainda que, historicamente, as liquidações de instituições financeiras ocorridas no Brasil demoram algo em torno de 30 a 40 dias, referindo-se ao prazo de análise de documentos internos e confidenciais dos grupos e envio posterior ao FGC. Com o material consolidado em mãos, o Fundo Garantidor deve ressarcir os clientes que têm direito em até dois dias úteis.

“Mas temos de lembrar que o processo do banco Master envolve cerca de 1,6 milhão de investidores, o que certamente aumenta a complexidade do processo de liquidação. Como estamos na véspera do fim de ano, com feriados e recessos, é razoável esperar um ressarcimento dos credores apenas em 2026”, estima Braga.

Edição:
Divulgação/FGC

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 234 “STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida

Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas