Buscar
Entrevista

“2020 será o ano do aborto legal, não temos dúvida quanto a isso, é irreversível que se torne lei”, diz María Florencia Alcaraz

Jornalista argentina autora do livro ¡Qué sea ley! conta como estão sendo os preparativos para o 8 de Março no país e fala do compromisso do presidente com a pauta

Entrevista
6 de março de 2020
16:35
Este artigo tem mais de 6 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Arte: Bruno Fonseca/Agência Pública

A campanha pela descriminalização do aborto na Argentina tem se fortalecido, e a “onda verde” – que ficou conhecida assim pelo uso do pano verde como símbolo – tem ganhado as ruas do país há mais de dez anos. Fruto de muitos encontros, reuniões e assembleias entre diversas frentes do movimento feminista, o lema é “educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto legal para não morrer” e se refere principalmente ao alto número de mortes de mulheres em abortos ilegais inseguros.

Em uma votação muito dividida em 2018 – 38 votos contra, 31 a favor e 2 abstenções –, o Senado rejeitou o projeto de lei que legalizaria a interrupção da gestação até 14 semanas em hospitais públicos e de forma gratuita para as mulheres. Mas para María Florencia Alcaraz, 2020 será o ano em que o movimento feminista argentino finalmente conquistará o aborto legal, seguro e gratuito.

A jornalista, que é diretora do veículo feminista latino-americano Latfem e autora do livro ¡Qué sea ley!, falou à Agência Pública das preparações para os atos que ocorrerão no dia 8 de março no país e do compromisso firmado pelo presidente Alberto Fernández em encaminhar um projeto de lei do Executivo sobre o tema e citou exemplos de resistência em outros países da América Latina, especialmente os que vivem sob governos autoritários.

Nós teremos agora os atos de 8 de Março. Como estão os preparativos na Argentina? Quem vai para a rua e quais são as pautas principais?

Na Argentina, foram realizadas assembleias durante todo o mês de fevereiro, como vem ocorrendo ao menos desde 2016. As assembleias são o processo para construir as manifestações da “Ni una a menos”, que se tornaram massivas. Agora participam diferentes organizações da sociedade civil, como grupos feministas, de direitos humanos, políticos, partidos políticos, sindicatos, estudantes secundaristas e universitárias, mulheres lésbicas, travestis, mulheres trans e pessoas não binárias.

Como se decidiram as pautas? Como são as assembleias?

As assembleias são um espaço de discussão para acertamos as reivindicações e demandas e para definir o modo como iremos ocupar as ruas. É um processo para a greve internacional feminista do 8 de Março. Realizaram-se de três a quatro assembleias, aproximadamente. Em 8 de março, haverá algumas atividades no território e, no dia 9, uma mobilização até o Congresso, já que a principal pauta está relacionada ao aborto – o presidente Fernández anunciou que irá enviar ao Congresso um projeto de lei do Executivo em relação a esse tema, que é algo urgente, uma dívida da democracia, um compromisso assumido pelo presidente em campanha. É necessário que o Congresso discuta rapidamente neste ano a interrupção voluntária da gravidez e que isso se transforme em lei na Argentina.

Além disso, iremos discutir a crise econômica que deixou o governo de Mauricio Macri, que deixou endividadas sobretudo as mulheres, as lésbicas, travestis e trans. Sabemos que, quando um país atravessa uma situação de pobreza ou crise, as mais afetadas por isso são as identidades feminizadas.

Como está a luta pela descriminalização do aborto na Argentina neste momento?

2020 será o ano do aborto legal, não temos dúvida quanto a isso, é irreversível que se torne lei. Todas as forças do ativismo feminista fizeram muita pressão para isso. E há respostas da política: o presidente anunciar que irá enviar um projeto de lei é histórico, isso nunca havia ocorrido. Assim, unem-se estas duas forças: o ativismo feminista e a política tradicional. Isso pressiona o Senado a decidir a favor de vidas mais dignas para todas. Temos muita esperança que esse processo vá ter reflexos na América Latina, já que a Argentina será o país mais populoso a ter uma lei de aborto na região.

Você faz parte de várias articulações feministas transnacionais e edita o Latfem, que é um veículo que traz agendas de outros países da América Latina. Como você tem visto a articulação do movimento feminista nesses outros países para este 8 de Março? Quais são as pautas comuns?

Vejo o processo latino-americano com muita admiração. O que está acontecendo no Chile, no México. No México, a cobertura da mídia sobre os feminicídios, que foi sexista, misógina e machista, despertou uma reação muito forte das feministas. A mídia compartilhou imagens de Ingrid Escamilla, que foi esquartejada. Em resposta, as feministas publicaram uma série de imagens de paisagens, fotos bonitas, para encher as redes sociais de imagens belas e tirar o foco das fotos de Escamilla esquartejada. O México vem de um processo de mobilização muito grande das feministas, sobretudo desde o ano passado, pelo descontentamento em relação à falta de respostas do governo em um país onde há, ao menos, sete feminicídios por dia. A situação no México é muito encorajadora.

Na Colômbia também. Há pouco, a Corte Constitucional teve de tomar uma jurisprudência em relação ao aborto, porque havia uma possibilidade de retroceder em direitos que já estavam garantidos desde 2006. A Corte teve uma postura histórica e decidiu não dar lugar para a demanda antidireitos. Não se modificou a legislação vigente, e neste contexto em que vivemos, de muita reação fundamentalista e antidireitos, isso foi uma conquista para as colombianas, que se mobilizaram massivamente à porta da Corte, com música, alegria e reggaeton.

Na Argentina, o feminismo foi a principal oposição aos governos à direita, situação que está acontecendo em todo o continente. Foi assim com Trump, nos EUA: as primeiras a se mobilizarem foram as feministas. No Uruguai, onde a direita acaba de conquistar o governo, as feministas também se destacam como um movimento dinamizador da política e da oposição. No Chile, a performance das Las Tesis e a participação do ativismo feminista foram fundamentais para denunciar os abusos do Estado e inoperância do presidente Piñera ante uma situação de crise. No Brasil também houve grandes mobilizações contra Bolsonaro por grupos feministas.

Creio que os feminismos são a principal oposição aos governos de direita e fundamentalistas que temos na região neste momento. Isso porque estamos em uma situação em que há países que não têm estado de direito, como a Bolívia, e isso nos preocupa muito.

Esta entrevista faz parte do especial 8M: Mulheres latinas enfrentam onda conservadora. Acesse aqui todas as entrevistas.

Colaborou Bruno Fonseca.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras

Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro