Buscar
Vídeo

Ailton Krenak e Déborah Danowski debatem negacionismo climático

Esta foi a última mesa do Pública +10, série de debates em comemoração ao aniversário da agência

Vídeo
Assistir vídeo
22 de fevereiro de 2021
17:31
Este artigo tem mais de 5 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A última mesa do festival Pública+10 uniu Ailton Krenak, ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas, e Déborah Danowski, professora de pós-graduação em filosofia da PUC Rio e pesquisadora do clima e da catástrofe ecológica. O debate foi mediado pela co-diretora e fundadora da Agência Pública, Marina Amaral. 

Os convidados refletiram sobre a urgência da tomada de decisão sobre as mudanças climáticas e as consequências da negligência quanto ao tema. 

Ailton Krenak iniciou sua participação lembrando que “a questão climática no nosso planeta não é mais uma observação paralela, ela incide sobre o nosso cotidiano”. 

Já Déborah Danowski apontou que a pandemia de Covid-19 “é uma primeira amostra do que está por vir”. Para ela, enquanto comunidade global, “nós estamos dando um salto no abismo de catástrofe ecológica”. 

“As causas da pandemia não se separam das causas do colapso ecológico”, afirmou. Um dos perigos, para o ambiente e vida humana, seria a destruição da Amazônia, já que existe “um grande repositório de possíveis patógenos” na floresta, que afloram com o desmatamento.

Quem investe no negacionismo

Danowski também relembrou que o “negacionismo” não é algo novo, e lembrou a indústria de cigarro, que investiu em desvincular o tabaco do câncer.  “O grosso do negacionismo, do aquecimento global, é fruto de uma estratégia de décadas, pesadamente financiada pelas grandes empresas de combustíveis fósseis”, afirmou. A “criação artificial da dúvida”, é parte da estratégia negacionista gerada “por interesses financeiros ou políticos”. 

Krenak complementou que “a máquina negacionista sempre esteve ativa e produzindo narrativas” que fossem “convenientes”, como as que tentaram justificar “a escravidão, genocídio, e a instituição de um poder inquestionável dos estados nacionais”. 

Para o ambientalista, o desenrolar da história construiu um “protocolo ocultista e negacionista” onde “ser cínico não é um defeito, é uma habilidade”. 

Na visão de Krenak, são essas as características que permitem que líderes de países ou organizações possam se pronunciar com informações que “contrariam todas as evidências”.

Mesmo assim, a filósofa “não imaginava que esse fenômeno fosse tomar tão rapidamente a dimensão que tomou aqui no Brasil com a eleição de Bolsonaro”. 

Marina Amaral, codiretora da Agência Pública, mediou a mesa “Negacionismo científico e mudanças climáticas” que contou com a participação de Déborah Danowski e Ailton Krenak

Destruição da vida

Para Krenak, a situação atual demonstra que “a gente avança para a esfera do necrocapitalismo”, ou seja, a vida sendo destruída escalonadamente. 

“Nós temos um tempo para mudar o roteiro, se a gente não mudar o roteiro nós vamos nos transformar em um caos geral. Primeiro em graves crises, crises políticas, predação geral, guerras, e também acompanhada de eventos climáticos extremos. Gente que vive no litoral vai morrer afogado, e gente que vive em áreas mais secas vai morrer torrado”, advertiu. “Quando a ciência começou a achar prova disso, a ciência se posicionou”. 

Para o intelectual indígena, comunidades que dependem da natureza estão “se dissolvendo”. “As pessoas estão adoecendo e morrendo, perdendo as suas bases sociais, sua capacidade de organização”, disse Krenak..

Para Krenak, “o capitalismo não está mais interessado em inventar modelos de continuidade para a vida desse monte de gente”. 

A filósofa concordou: “O capitalismo é incompatível com a vida de maneira geral”. 

A chave está, para Danowski, em encarar a catástrofe climática como um fato. 

“A gente está à beira do colapso nas condições físicas e biológicas”, enfatizou. “Nesse mundo, no mundo real, não dá pra gente continuar falando em Pré-sal como a grande salvação nacional, em fábrica da Ford, em enaltecer a usina de Belo Monte sem reconhecer o que ela causou aos ribeirinhos, aos indígenas, à própria cidade de Altamira”.

Ou seja: a “ficha precisa cair”, também para os governos progressistas, concluiu Déborah. Ou “a gente vai estar fazendo aquela velha política de fazer viver e deixar morrer”, como colocou Krenak. 

A mediadora Marina Amaral resumiu: “Precisa de uma reeducação do setor progressista para incluir a questão do aquecimento global”.

Esta foi a última mesa em comemoração aos 10 anos da Agência Pública de Jornalismo Investigativo. No próximo dia 27, a programação se encerrará com o lançamento de um episódio especial do Podcast Pauta Pública, no qual as entrevistadas serão as fundadoras da agência, Natália Viana e Marina Amaral.

Mediadora:

O texto da cobertura foi feito pela repórter Laura Scofield

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Master: Em mensagens, Vorcaro declarou lado sem margem para dúvida: “apoiamos a direita”

|

Banqueiro preso no escândalo do Banco Master tinha entre contatos Flávio Bolsonaro e Nikolas, a quem disse ter ajudado

Meta bloqueia conteúdos políticos pró-Lula e contra Flávio acusando terrorismo e nudez

|

Ministério Público Federal abre investigação contra a empresa e X por violação à liberdade de expressão

Um jumento na filarmônica

|

Contrabaixista na Europa volta ao Recife e reencontra crianças de projeto social que o iniciou na música há 20 anos
Em foto, Eduardo Bolsonaro aparece cercado de apoiadores da extrema direita na festa de gala da Hispanic Heritage

Eduardo Bolsonaro vive noite de celebridade na festa da extrema direita nos EUA

|

Ao som de “La Bamba” e “Macarena”, festa teve clima de vitória de Flávio Bolsonaro e ingressos de R$ 15 mil a R$ 50 mil

A misoginia de diálogos de Vorcaro e CEO que expôs atrizes: “Mulher não pode fazer isso”

|

CEO da Globo demitido hoje fez comentários machistas sobre Deborah Secco e Sabrina Sato, e chamou prefeita de vaca
Líder da oposição no Senado, senador Rogério Marinho (PL-RN) durante entrevista

Chefe da campanha de Flávio Bolsonaro esteve no Senado mas não votou na 6×1

|

Rogério Marinho (PL-RN) fez uma reunião de 3h, se encontrou com aliados e saiu sem falar com a imprensa
Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Fred Kachar, do Grupo Globo

A linha direta de Vorcaro dentro do Grupo Globo: “Quer que peça pra corrigir?”

|

Vazamento de mensagens do ex-banqueiro a Fred Kachar expôs interferências editoriais e levou à demissão do executivo
Montagem feita por IA com imagens do presidente Lula e do candidato Flávio Bolsonaro

Meta barra mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio, aponta levantamento

|

Levantamento documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas em outubro
Plenário do Senado Federal durante sessão que votou PEC do fim da Escala 6x1

Fim da escala 6×1 é a maior mudança na jornada do trabalhador brasileiro desde 1988

|

Com 75 votos a favor e um contra nos dois turnos de votação, PEC aprovada garante dois dias de descanso a trabalhadores

Um quarto dos senadores que apoiam a PEC da Flexibilidade tem antepassados escravocratas

|

Levantamento da Agência Pública no Projeto Escravizadores mapeou famílias de mais de cem políticos brasileiros
Tropa do Esquadrão de Polícia Montada que atua no entorno dos estádios de futebol, passam por instrução, na sede de Itapuã em Salvador.

No meio do caminho tinha uma norma – o que explica mortes causadas por policiais da Bahia

|

Instrução normativa de 2019 dificultou investigação de policiais militares; estado é onde as polícias mais matam
Integrantes da Bancada Indígena do Congresso Nacional, Sônia Guajajara (à esquerda) e Célia Xakriabá (à direita)

Bancada indígena diminui no Congresso e lideranças se preparam para desmonte e retrocesso

|

Representantes do movimento indígena citam risco às demarcações, imposição do Marco Temporal e aparelhamento da Funai