Buscar
Ensaio

Das aldeias ao mundo sem floresta: a caravana indígena a Brasília

Nosso fotógrafo viajou em um dos ônibus que partiram da Amazônia para o acampamento “Luta Pela Vida” em Brasília; STF vota hoje ação de referência para o Marco Temporal

Ensaio
25 de agosto de 2021
12:21
Este artigo tem mais de 4 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

São milhares de quilômetros, que um dia foram florestas, derrubados pelo correntão ou que simplesmente pegaram fogo nas queimadas que afligem o Pará, o Acre, Amazonas, Roraima, o Mato Grosso. A monotonia das imensas plantações de soja desenrola-se diante do olhar incrédulo dos indígenas do Conselho Indígena Tupinambá Arapiuns (Cita) e do Conselho Indígena Tupinambá que, pela primeira vez, afastam-se tanto de suas aldeias.

Da janela do ônibus, observam, chocados, as centenas de caminhões transportando toneladas de grãos. À beira da estrada não há verde. As árvores que ainda resistem são só um detalhe na paisagem árida do Mato Grosso que dia escalda e à noite congela.

É esse o caminho que percorremos durante dias até Brasília, acompanhando a viagem dos indígenas para lutar contra os projetos de lei que ameaçam o seus territórios ancestrais e a natureza que neles viceja. O destino é o Acampamento Luta pela Vida, a base dos povos que chegam à capital do Brasil para tentar barrar artifícios legais que ameaçam sua sobrevivência, como o Marco Temporal, que será julgado hoje no STF. 

Convocado pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil),  o acampamento foi montado perto da Praça dos Três Poderes, o centro político do país. É um caldeirão cultural que une etnias como os Borari, os Arara vermelha, os Arapium, os Munduruku Cara Preta, os Tapuia, Tupaiu, Xukuru, Xokleng, Ianomâmi, Guarani, Kayapó, Xavante, Pataxó, Krenak, vindas de todas as partes da Amazônia – de Roraima ao Pará.

O maior receio da organização é com a segurança dos indígenas. Grupos bolsonaristas invadem o acampamento a todo momento fotografando os indígenas sem pedir permissão, para depois encher suas redes sociais de imagens acompanhadas de fake news sobre a mobilização dos povos. Pela manhã, nos acordam com gritos de “Voltem pro mato, seus vagabundos!”. Mas os indígenas sabem que o confronto é uma armadilha para desqualificar sua resistência. Não vale a pena reagir. 

São mais de 6.000 indígenas reunidos e a preocupação com a Covid-19 é real. Com tanta gente de fora circulando pelo acampamento, os indígenas se protegem. Além de recomendar o uso das máscaras, a COIAB montou uma barraca com profissionais de saúde que oferecem orientações e testagem. Se um parente está sem máscara sempre há quem tenha uma de sobressalente para doar e chamar a atenção para o descuido. Os indígenas sofreram muito com a pandemia, conhecem os riscos e têm consciência de que só contam consigo mesmo para se proteger em um governo hostil.  

As lideranças estão presentes no acampamento. São ícones, não apenas de suas etnias, mas de um movimento inteiro como Marcos Xukuru, Alessandra Korap e Sônia Guajajara, eleita umas das pessoas mais influentes da América Latina em 2019. 

Alessandra Korap sofre perseguições de garimpeiros em Jacareacanga, no Pará. Esse ano os garimpeiros, liderados pelos prefeito e vice-prefeito, ordenaram ataques à Polícia Federal, Ibama e às lideranças indígenas em suas casas e associações. Alessandra teve que se esconder para não sofrer violência. Marcos Xucuru, eleito legitimamente prefeito de Pesqueira, Pernambuco, não pode assumir o cargo.

Mas eles resistem. E não apenas por eles. Por todos nós, ou pelo que resta de humanidade nesse Brasil destruído pelo ódio, pela miséria, pela ambição desmedida e predatória que aquela praça, tão próxima do acampamento, simboliza.

Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 226 Michelle Bolsonaro e o voto das mulheres conservadoras – com Jacqueline Teixeira

Antropóloga Jacqueline Teixeira analisa a atuação das mulheres conservadoras na política

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Letalidade policial na Baixada Fluminense dispara em 2025, mesmo com queda nas operações

|

Região com 13 municípios foi alvo de 5.298 operações policiais em cinco anos, segundo pesquisa; 282 pessoas foram mortas

Viatura da Polícia Militar da Bahia está parada em via pública.

As duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais

|

Uma em cada seis mortes violentas foram causadas por policiais; Nordeste concentra as 10 cidades com maiores índices

Tarifaço: Como a medida de Trump divide trabalhadores e empresários do setor de calçados

|

Sindicatos contestam pessimismo de entidades patronais, mas dados mostram desafios que ultrapassam Estados Unidos

Jornalistas e imprensa sofreram 204 ataques em 2025, aponta relatório da Abraji

|

Tipo mais comum de ataques foram insultos verbais, escritos e digitais, seguidos por agressões físicas

Ex-presidente Jair Bolsonaro durante missa em homenagem à padroeira do Brasil

Por que a imagem de Jair Bolsonaro com evangélicos não cola em Flávio

|

Católico, Jair conseguiu ser visto como enviado de Deus, mas o filho sofre resistência dos evangélicos

Ludopatia: O longo caminho da ajuda na visão de quem lida profissionalmente com as bets

|

Como saber quando o jogo é um problema, o desafio do tratamento e o influenciador que divulgou (e se viciou) em bets

De diversão a “renda extra” e “investimento”: como brasileiro mudou a percepção sobre bets

|

Pesquisas mostram percepção histórica sobre bets, diferenças entre estados e como chegamos a 40 milhões de usuários/dia

Mário Frias deputado federal por São Paulo

Dark Horse: Frias viajou durante gravação de filme de Bolsonaro, mas falta comprovação

|

Município onde deputado faria vistorias técnicas informou não ter registros da presença dele em eventos