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Reportagem

CIA treina assassinos para agirem no mundo subterrâneo da guerra às drogas

Segundo uma fonte da CIA ouvida pelo repórter do Narconews, esses grupos de extermínio estão agindo contra facções de narcotraficantes no México

Reportagem
9 de setembro de 2011
14:45
Este artigo tem mais de 15 anos

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Há uma pequena – mas crescente – guerra subterrânea acontecendo no México. No embate, soldados de operações especiais mexicanos são treinados pelos EUA para agirem contra um crescente grupo de organizações de tráfico de drogas que são bem mais violentas do que os velhos cartéis mexicanos.

Esses grupos de assassinos estão atuando há cerca de seis meses, segundo fontes ouvidas pelo site Narco News, parceiro da Pública,
com o apoio de uma rede sofisticada de inteligência composta por operativos da CIA, civis contratados pelas forças militares americana, e também soldados dos EUA sob o comando do Pentágono. Esse “apoio” consiste em identificar os alvos certos para os matadores mexicanos.

Evidências dessa rede de inteligência têm surgido em jornais americanos e mexicanos, como no New York Times e no El Universal. O NYT publicou que operativos da CIA e contratistas americanos foram alocados em uma base militar americana e o jornal mexicano relatou que tropas de elite dos EUA e do México estavam realizando treinamento conjunto em Colorado no início deste ano.

O Narco News já havia revelado em junho do ano passado que uma força-tarefa de soldados de forças especiais dos EUA estava agindo em território mexicano, auxiliando os militares locais a encontrar os “capos” dos principais cartéis de tráfico de drogas – como as organizações Juarez, Beltran Leyva, Zetas e La Familia.

(É claro que os comandantes do cartel de Sinaloa permaneceram ilesos; se forem verdadeiras as alegações judiciais do líder Vicente Zimbada Niebla, que está preso nos Estados Unidos, houve na verdade um acordo fechado com o governo americano).

Procura-se supervisores para a guerra contra as drogas

Em abril deste ano, o Narco News descobriu um anúncio de uma empresa militar privada contratando pessoas para supervisionar seus contratistas (civis que prestam serviços militares) que atuam no México e coordenar “com oficiais do exército mexicano” em uma dúzia de locais de treinamento no país.

O anúncio revelava mais: que a rede de treinamento de contratistas americanos fazia parte do chamado “Projeto Sparta”, que tem o objetivo de treinar soldados mexicanos em operações de guerra urbana avançada com o objetivo de formar uma “força de elite”.

E concluía: a “nova força de reação especializada” vai apoiar “agências de segurança locais, estaduais e federal” na “guerra contra o crime organizado e os cartéis de drogas”.

A empresa negou, logo depois, ter contratos deste tipo no México e o anúncio foi retirado do site.

Estratégias militares, e não de segurança pública

Uma fonte que conhece bem a situação no México diz que treinamento em táticas de guerra urbana seria essencial para qualquer força interessada em iniciar uma campanha de assalto nos narcogrupos independentes no país.

Só que essas operações em solo mexicano, que contam com a colaboração dos EUA, parecem todas se basear em estratégias militares, e não em preceitos da segurança pública. E aí está a chave da questão: ao contrário da segurança pública, o objetivo militar por excelência é neutralizar o inimigo no campo de batalha – e não levá-lo à justiça.

Segundo o ex-agente da CIA Tosh Plumlee, há pelo menos três times de matadores mexicanos operando no México, nas regiões norte, central e sul do país.

Plumplee, que já foi era piloto contratado pela CIA na América Latina e mantém conexão com a comunidade de inteligência, diz que esses grupos militares de extermínio foram treinados pelos Estados Unidos.

Por trás da nova tática, a multiplicação de mini-cartéis

A estratégia dos governos americano e mexicano de atacar os chefões dos cartéis mexicanos não reduziu o fluxo de drogas entrando nos EUA, nem reduziu o número de atores no tráfico de drogas.

Em vez disso, levou ao surgimento de diversos pequenos grupos independentes que assumiram o vácuo de poder deixado pelos chefões do tráfico quando os policias e militares mexicanos conseguem acabar com um deles.

Isso ocorreu, por exemplo, com o assassinato de Arturo Beltran Leyva , da organização Beltran Leyva, com a captura de Jose de Jesus Mendez Vargas da La Familia, e mais recentemente com a prisão de Jose Antonio Acosta Hernandez da La Linea.

Entre os grupos independentes que emergiram, muitos deles no último ano, estão nomes ainda desconhecidos do grande público como Mano con Ojos, Mata Zetas, Caballeros Templarios, Cartel de Pacifico Sur, Cartel de Jalisco Nueva Generacion e Cartel del Centro.

Esses grupos são extremamente violentos, já que competem mais intensamente e contra mais organizações por sua parte no negócio de tráfico de drogas e armas, assassinatos de aluguéis, sequestros e extorsões, agindo como organizações criminosas que seguem o “cada um por si”.

Quase sempre são os antigos “braços armados” ou gangues de ruas que prestavam serviços para o chefões dos cartéis.

Esse “efeito Hydra” – o fenômeno da mutiplicação de mini-organizações cada vez que se elimina um chefão do tráfico – se tornou um grande problema tanto para o governo mexicano quanto para os EUA, e também para sua campanha de marketing, que insiste que esses grupos não têm relevância.

Mas a crescente onda de violência causada por esses grupos tem gerado um aumento brusco na taxa de homicídios no México, onde desde 2006 cerca de 50.000 pessoas, incluindo muitos civis inocentes e até crianças, foram atingidas pela selvageria da guerra contra às drogas.

Cerca de metade  dessas mortes ocorreram nos últimos 18 meses, marcando o crescimento das mini-organizações criminosas.

Tosh Plumplee

E a resposta a essa nova ameaça, de acordo com uma fonte ouvida pelo Narco News, o ex-agente da CIA Tosh Plumlee, tem sido pegar uma página da “Solução El Salvador”, adaptá-la aos dias de hoje, e ir atrás destes grupos de maneira encoberta — utilizando unidades de extermínio altamente treinadas cuja missão é “neutralizar” os seus líderes antes que eles possam consolidar seu poder.

Em El Salvador, nos anos 80, os militares americanos treinaram grupos de extermínio para acabar com a guerra contra o grupo guerrilheiro Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional – FMLN. Em 2005, a revista americana Newsweek revelou planos do Pentágono de utilizar a mesma estratégia contra grupos insurgentes que estavam surgindo no Iraque e no Afeganistão.

Em junho do ano passado o Narco News revelou que uma força-tarefa de forças especiais americanas, sob o comando do Pentágono, estava operando no México.

A reportagem era baseada em informações dadas por Plumlee.

Pouco depois, um relatório diplomático vazado pelo WikiLeaks comprovou que a unidade da marinha mexicana que conduziu a operação contra o chefão Arturo Beltran Leyva “recebeu treinamento extensivo dos EUA” — o que ajudou a comprovar a história do envolvimento americano na guerra aos chefões mexicanos.

De acordo com Plumlee, membros da mesma força-tarefa de forças especiais dos EUA estão agora fornecendo apoio de inteligência e treinamento para os times de assassinos mexicanos que foram montados para alvejar as novas mini-organiações criminosas.

A missão dessas unidades de ataque é, segundo Plumlee, “neutralizar” os alvos, ou seja: assassinar os traficantes.

Esse parece ser um novo foco, já que antes os militares mexicanos estavam caçando os cabeças dos cartéis para prendê-los, se possível.

De acordo com Plumlee, os antigos “cartéis” também vêem esses mini-grupos como inimigos que ameaçam seu modelo de negócios. “Parte da inteligência sendo obtida sobre esses novos grupos está vindo na verdade de membros dos Zetas”, diz ele.

Os grupos de extermínio das forças militares mexicanas teriam sido treinados pelos EUA, mas Plumlee afirma não saber exatamente onde. Plumlee também afirma que os membros da força-tarefa militar americana estão ajudando os mexicanos a identificar e verificar quais seriam os principais alvos.

Clique aqui para ler a reportagem original, em inglês.

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