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Checagem

Vídeo falso diz que eleições de 2014 foram fraudadas

Vídeo de suplente de deputada coloca em dúvida eleições de 2014 com dados irreais e um "especialista" não identificado

Checagem
27 de outubro de 2018
19:53
Este artigo tem mais de 7 anos

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“Prova das fraudes nas urnas! Exclusivo e urgente. – vídeo de Naomi Yamaguchi publicado no dia 24/10

Falso

Transmitido por Facebook e WhatsApp na quarta-feira passada, vídeo denuncia fraude nas eleições do segundo turno de 2014. O conteúdo foi gravado e publicado por Naomi Yamaguchi, eleita suplente a deputada federal pelo PSL, partido do candidato a presidente, Jair Bolsonaro.

O vídeo atingiu mais de 12,5 mil compartilhamentos no Facebook e também foi publicado no canal “Política Play” YouTube, onde mais de 61 mil pessoas visualizaram. O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – verificou as informações contidas no vídeo e concluiu que são falsas.

No vídeo, Naomi entrevista um indivíduo anônimo, do qual se ouve apenas a voz, e é apresentado apenas como especialista, sem identificação. Ele diz ter descoberto fraude nas urnas eletrônicas a partir da apuração minuto a minuto dos votos no segundo turno das eleições de 2014. Afirma ter encontrado um padrão na evolução dos votos dos candidatos que comprovam uma manipulação matemática nas urnas, mas a metodologia para chegar a essa conclusão não é explicitada. A informação estaria vindo a tona somente agora, pois a fonte se sentiu inspirada pela afirmação de Jair Bolsonaro de que se ele perdesse seria devido à fraudes nas urnas.

Interpretações equivocadas

Na disputa pelo segundo turno presidencial em 2014, em 26 de outubro, disputavam Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Eleita, a candidata do PT conseguiu 51,64% dos votos contra 48,36% do adversário. Porém, nos quatro primeiros minutos de apuração dos votos parciais Aécio Neves aparecia em uma curva crescente, chegando a 67,7% dos votos contados às 17h05 do dia da eleição. A partir de então, a proporção de seus votos começou a cair até que às 19h32 Dilma Rousseff ultrapassou o candidato, como mostra esta análise do G1.

Essas informações são apresentadas no vídeo como primeiros indícios de fraude. No entanto, é comum que nos primeiros minutos de apuração os números não correspondam ao resultado final. Nos primeiros cinco minutos em que Aécio aparecia em crescente proporção de votos, apenas 0,13% dos votos haviam sido apurados – 139 mil de 105 milhões. Assim, o vídeo realizou uma interpretação equivocada sobre os dados.

A fonte anônima também analisa a vantagem de votos entre Dilma e Aécio a partir de uma comparação errada. No vídeo o entrevistado diz que calcula a quantidade de votos obtidos por cada candidato a cada resultado parcial, subtraindo dos votos totais os votos dos resultados parciais anterior. Depois, ele dividiria esse resultado sobre os votos totais do candidato naquele minuto para obter a porcentagem de votos acrescidos. No resultado obtido ele encontra um padrão segundo o qual, dos 333 resultados parciais divulgados, 240 seguidos mostravam a vantagem de Dilma e de Aécio intercaladas.

No entanto, os dados transpostos na coluna em que é exibido o padrão encontrado não correspondem aos números de votos obtidos a cada resultado parcial pelos candidatos.

São, na verdade, os valores de votos totais do candidato naquele minuto, menos os votos obtidos somente no resultado parcial anterior. Para chegar a sua conclusão, a fonte, portanto, realiza comparações equivocadas entre os números. A metodologia exata não é explicitada.

Comparando os números corretos não é possível observar qualquer tipo de padrão nos resultados. Analisando os votos obtidos a cada minuto por Dilma e Aécio, o candidato do PSDB aparece em vantagem até às 18h25. Depois disso, em boa parte do tempo a candidata do PT aparece em vantagem, com variações.

O entrevistado ainda usa um outro argumento para provar que os resultados do segundo turno das eleições em 2014 não foram gerados naturalmente, mas por um controle externo.

Segundo ele, os números de votos nos resultados parciais desse pleito não seguem a lei de Benford. Logo, não são verdadeiros. Essa mesma informação foi usada pelo site “Brasil Paralelo” para provar que as eleições de quatro anos atrás foram fraudadas, mas foi classificada pelo projeto Comprova, como falsa.

A lei de Benford é uma constatação feita pelo físico Frank Benford, de que em uma sequência de números gerados de maneira natural, sem a influência de humanos, os dígitos menores (1, 2 e 3) aparecem mais do que os maiores (7,8 e 9). No entanto, conforme mostrado pela checagem do Comprova, essa lei não se aplica a qualquer conjunto numérico e não pode ser usada em resultados de eleições.

Dados falsos

Suposto especialista diz ter descoberto fraude nas eleições de 2014. A informação é falsa.

Por último, a fonte anônima diz que a fórmula matemática que estabeleceu o padrão encontrado estaria inserida num módulo de criptografia nas urnas. Segundo ele, “a urna eletrônica tem dentro dela um módulo chamado de módulo de criptografia. E é esse módulo que coordena toda a urna. Esse módulo nunca permitiram que fosse auditado. Então ninguém sabe o que há lá dentro e ele pode sim escrever qualquer coisa no Boletim de Urna final diferente do que o eleitor digitou.”

Não é verdade. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possui uma série de mecanismos de auditoria para as urnas e os boletins emitidos por elas. Em nota divulgada hoje, o órgão citou as oito etapas realizadas para auditoria de urnas. Entre elas, a conferência de boletins de urnas através de votações paralelas.

Também são citadas no vídeo pesquisas que mostravam Aécio Neves com cerca de 70% dos votos antes do segundo turno das eleições.

No entanto, tanto o Instituto Datafolha quanto o Ibope mostravam os candidatos tecnicamente empatados durante quase toda a disputa do segundo turno, à exceção das vésperas da eleição, quando Dilma Rousseff ultrapassou o adversário nessas pesquisas com diferença percentual entre 6 e 10 pontos percentuais.

Outras pesquisas como as realizadas pelo Istoé/Sensus, CNT/MDA, Paraná Pesquisas e Vox Populi mostravam resultados ligeiramente diferentes, mas em nenhuma delas Aécio tinha vantagem de mais de 10 pontos percentuais sobre Dilma.

Reprodução

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Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

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