Buscar
Nota

COP30: Decisão de Lula para presidência da cúpula reforça aposta no clima frente a Trump

21 de janeiro de 2025
15:04
Este artigo tem mais de 1 ano

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

O anúncio feito pelo presidente Lula nesta terça-feira (21) de que o embaixador André Corrêa do Lago vai presidir a 30ª Conferência do Clima da ONU, que será realizada em Belém, a COP30, sinaliza uma preocupação com o sucesso da cúpula, que ocorre em novembro em meio a um momento de incertezas sobre os rumos do combate às mudanças climáticas em todo o planeta.

A decisão, há muito aguardada, foi tomada um dia após Donald Trump ter assumido a presidência dos Estados Unidos e já anunciado a retirada do país do Acordo de Paris, em que praticamente todas as nações do mundo se comprometeram a reduzir suas emissões a fim de conter o aquecimento global. 

Mesmo com os EUA a bordo, porém, o cenário já estava ruim. O tratado completa dez anos em dezembro em meio à contínua elevação da temperatura do planeta (o ano passado foi o mais quente do registro histórico). Ano a ano, as conferências do clima trazem avanços muito lentos, que não têm conseguido fazer frente ao problema.

Na COP passada, em Baku, chegou-se a um acordo sobre um novo valor de financiamento climático – US$ 300 bilhões –, que é muito inferior ao considerado necessário para que os países em desenvolvimento façam suas ações de mitigação e adaptação. 

O resultado, considerado por muitos um fracasso, jogou para a COP do Brasil a responsabilidade de recolocar o mundo no trilho correto. É necessário mobilizar os recursos, mas também recuperar um sentimento de confiança entre os países – abalada pelo próprio processo das conferências, mas também agora pela saída dos Estados Unidos.

Após dois anos em que as conferências climáticas foram lideradas por políticos que fizeram carreira na indústria de petróleo, a COP em Belém terá à frente um nome historicamente comprometido com o tema. Lago, que é secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Itamaraty desde o início do terceiro mandato de Lula, já chefiou a delegação brasileira de negociadores em diversas COPs e trabalha com desenvolvimento sustentável desde 2001. 

Economista, entrou na carreira diplomática em 1982. Ele foi diretor do Departamento de Energia (2008-2011) e do Departamento de Meio Ambiente (2011-2013) do Itamaraty e negociador-chefe do Brasil na Rio+20 (2011-2012). Foi embaixador no Japão (2013-2018), na Índia (2018-2023) e, cumulativamente, no Butão (2019-2023). 

Considerado um habilidoso negociador, Lago é respeitado por especialistas em clima e por diplomatas de outros países. Costuma ser chamado para ajudar a destravar as negociações climáticas em momentos críticos, principalmente a fazer pontes entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

É exatamente o que se espera de um presidente de COP. Cabe ao ocupante do cargo dar o tom das negociações, desatar nós, aparar arestas, resolver conflitos, chacoalhar os negociadores para tomar uma decisão. Em muitos anos, foi à presidência que se atribui o sucesso ou o fracasso da cúpula. 

Ao seu lado, Lago terá Ana Toni, atual secretária de Mudança de Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que será e diretora-executiva da COP30.

A liderança desempenhada pela dupla terá um desafio ainda mais crítico neste ano, quando se espera que os países assumam novas metas de redução de emissões e mostrem como vão avançar na questão do financiamento, tendo de resolver problemas da COP passada e preencher o vácuo deixado pelos EUA. Caberá ao Brasil mobilizar os países para assumirem um maior compromisso com o planeta – que seguirá rumo a um aquecimento de 3 °C se medidas mais ambiciosas não forem tomadas.

Um documento publicado nesta segunda pela organização Política por Inteiro, do Instituto Talanoa, explica por que o cargo é tão importante: “A presidência da COP exige grandes habilidades de negociação, para conciliar interesses de países desenvolvidos e em desenvolvimento, de grandes nações continentais e pequenos territórios insulares. No cargo, não se pode agir como representante de uma Parte [um país]. É necessário ser imparcial na busca por consenso e avanço nos compromissos climáticos”.

“A escolha do embaixador Corrêa do Lago mostra que Lula está comprometido com o sucesso da COP30, indo além do progresso incremental. Este será um momento para redefinir a trajetória da governança climática global, e a experiência diplomática de Corrêa do Lago é crucial para conduzir negociações complexas e entregar os avanços que o mundo precisa”, disse à Pública Natalie Unterstell, presidente do Talanoa.

“Corrêa do Lago tem diante de si uma agenda desafiadora, num momento em que o aquecimento da Terra ultrapassa o limite do Acordo de Paris ao mesmo tempo em que a geopolítica se volta contra a ação climática e contra a cooperação internacional”, comentou, por meio de nota, a rede de ONGs Observatório do Clima.

Fernando Donasci/MMA

Notas mais recentes

Hospitais do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro e a acusação de Lula na Band


Às vésperas do 2° turno, governo tenta votar PEC da Segurança Pública no Senado


Locais de votação alterados e abstenção: estigma afasta eleitores da Maré das urnas


Fim da escala 6×1 vai a votação no Senado, mas aliados de Flávio tentam barrar


Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

|

Encontramos mais empresas que reforçam ligação entre investigados por corrupção; elo é empresa de contabilidade

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

|

Levantamento identificou 60 canais no Telegram, com 891 mil inscritos, que compartilham conteúdos proibidos pelo TSE

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

|

No RS, disputa eleitoral em terra indígena deixou três mortos; na Amazônia, garimpeiros ameaçam invadir se Flávio vencer
1ª Coletiva do Ministro Kassio Nunes Marques no TSE - 04.10.2026

Nunes Marques faz TSE pender para Flávio Bolsonaro ao priorizar decisões e conduzir pautas

|

Para juristas, desequilíbrio da Corte fica evidente na agilidade de análise de alguns pedidos, não no teor da decisão

PF acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”

|

Amigo de Flávio Bolsonaro e ex-oficial de inteligência suspeito de espionar adversários de Jair Bolsonaro negam relação

Flávio Bolsonaro turbina anúncios na Meta com suspeita de uso irregular de IA

|

Político impulsionou meio milhão de reais em um só dia no Instagram e Facebook; valor total gasto pode ser ainda maior
Sessão Eleitoral em Samambaia Norte C.E.F. 404 1º turno Eleições 2026 - 04.10.2026

Justiça eleitoral muda até 4 vezes ao dia local de votação às vésperas do 2° turno

|

Alterações divulgadas nos últimos dois dias atingem 453 seções; no 1° turno, Lula venceu em 249 delas, 55% do total

Política e monetização: como ativistas se tornam alvo de violência dentro e fora das redes

|

Terra de Direitos e Justiça Global afirmam que um caso de violência política ocorreu a cada 9 horas durante campanha

Quem aprovou o crédito de Flávio? BRB silencia, e três diretores da época são alvo da PF

|

Três diretores investigados pela PF integravam a cúpula do BRB quando Flávio Bolsonaro obteve financiamento de mansão

‘Leilão às avessas’: vitória de Flávio consolidaria interferência dos EUA no Brasil

|

Terras raras, combate ao tráfico e Congresso mais à direita favorecem dominação dos EUA de Trump sobre América Latina