Buscar
Nota

Governo defende soberania de IA enquanto big techs tentam influenciar PL no Congresso

6 de setembro de 2024
14:16
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Enquanto o governo federal defende a construção de parâmetros de uma inteligência artificial (IA) “brasileira e soberana”, grupos de lobby estrangeiros que representam big techs têm atuado para influenciar o Projeto de Lei (PL) 2.338/2023, em tramitação na Comissão Temporária Interna sobre Inteligência Artificial (CTIA), que tenta criar o Marco Legal da IA. Nesta semana, o futuro dessa tecnologia no Brasil foi discutido em duas audiências públicas na CTIA e na Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT), no Senado, com debates que seguiram caminhos opostos

Na CCT, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTIC), Luciana Santos, defendeu que o Brasil passe a “dominar” a tecnologia e a desenvolver suas próprias soluções baseadas em IA, de forma independente das big techs. Esse seria o objetivo principal do Plano Brasileiro de IA (PBIA), lançado em julho. “Direitos fundamentais podem ficar ameaçados se a gente não tiver uma autonomia que responda às leis brasileiras”, disse em entrevista à Agência Pública. Santos ainda defendeu que “regulamentação e governança” são necessárias para responsabilizar quem usa a IA “para o mal”. 

Poucas horas depois, na CTIA, os destaques foram as falas de dois convidados internacionais, integrantes de entidades de lobby das big techs que atuam em Washington (EUA). Courtney Lang, vice-presidente de política, confiança, dados e tecnologia no Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação (ITIC, na sigla em inglês), fez sugestões à regulação e até citou artigos do PL que deveriam ser alterados ou removidos. O grupo tem Google, Meta, Apple, Microsoft e Amazon entre os membros.

Lang discorda, por exemplo, de artigos que estabelecem direitos aos usuários, pois eles “parecem indicar que há riscos significativos aos direitos humanos ao longo do ciclo de vida da inteligência artificial, o que, a meu ver, nem sempre é o caso”. Também afirmou que a imposição de obrigações aos desenvolvedores de sistemas de IA de alto risco poderia criar uma estrutura “confusa”. A ITIC enviará representantes ao Brasil na semana que vem.

A defesa de uma regulação principiológica em lugar de regramentos restritos tem sido feita pelas gigantes do setor e pelo atual presidente da CTIA, senador Marcos Pontes (PL-SP), que convidou os representantes das big techs. Além de aparecer na fala de Lang, a proposta se repetiu na fala de Matthew Reisman, diretor de privacidade e política de dados no Centro de Liderança em Política de Informação (CIPL, na sigla em inglês), que tem Google, Meta, Apple, Microsoft, Amazon, TikTok e X entre os membros. Ele destacou que a categorização de riscos feita pelo PL deveria ser mais “flexível”.

A audiência ainda contou com a participação de convidados nacionais, como Christina Aires, advogada da Confederação Nacional da Indústria (CNI); Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio); e Luis Fernando Prado, advogado e professor da Faculdade de Direito de Vitória (FDV). Prado também é conselheiro da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), o que não foi citado na audiência. 

“Foi uma audiência muito focada em posições muito similares, que propõem a queda dos poucos instrumentos de participação social e de transparência que o atual projeto de lei possui, por algumas organizações que têm interesses muito específicos em uma não regulação da inteligência artificial”, avaliou Tarcizio Silva, pesquisador na Fundação Mozilla e doutorando na Universidade Federal do ABC (UFABC). 

Ele considera que os direitos questionados por Lang são “básicos” e devem ser mantidos no texto. Entre eles, o direito de contestar decisões feitas por IA e de não discriminação. “O medo é que realmente o projeto seja desmantelado”, concordou Paula Guedes, do Grupo de Inteligência Artificial da Coalizão Direitos na Rede, que criticou a falta de representantes da sociedade civil na audiência. Ela considera que, como está, o PL já está pronto para ser votado e permite “inovações responsáveis”.

Acatar ou não as sugestões caberá ao relator, senador Eduardo Gomes (PL-TO), que não esteve presente na audiência. O PL 2.338/2022 foi apresentado em dezembro de 2022 pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e está em tramitação na CTIA desde agosto de 2023. O prazo final da comissão já foi prorrogado três vezes por pressão do setor e falta de consenso sobre o texto.

Edição:

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 227 A cortina de fumaça das empresas de tecnologia – com Daniela da Silva

Ex-chefe de Políticas Públicas do WhatsApp aponta alternativas para o enfrentamento do monopólio e abusos das Big Techs

0:00

Notas mais recentes

Embaixada dos EUA acionou líder do PL para visita que questionaria urnas no Brasil


Corrida eleitoral: Tarcísio de Freitas confirma candidatura e PT tem convenções estaduais


Estudantes brasileiros são ameaçados de morte após Argentina perder a Copa


Corrida eleitoral: partidos já podem oficializar candidaturas; vice de Flávio é incógnita


Caso Rafael: Após morte, MPF instaura investigação criminal contra plataformas de bets


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática

Meta, Telegram e X fecham acordo com TSE sobre desinformação sem punição caso não cumpram

|

Termos mostram plataformas tentando se blindar de responsabilidades sobre conteúdo desinformativo nas eleições de 2026

Ministério Público investiga flagrantes plantados por policiais no interior de São Paulo

|

Investigação resultou em mandados de busca e apreensão em endereços de dez PMs
Imagem aérea de fábrica da BYD em Camaçari

Os detalhes não esclarecidos de como BYD escapou da lista suja do trabalho escravo

|

Parceira da BYD, Engenova incorporou quadro da Jinjiang, banida na lista suja, e tem sócia sediada em paraíso fiscal
Flávio Bolsonaro chora em conveção do PL

As lágrimas de Flávio Bolsonaro e o aceno eleitoral do filho de Jair às mulheres

|

Com menos apoio no eleitorado feminino que Lula, Flávio destaca esposa em meio a tensões com Michelle

Letalidade policial na Baixada Fluminense dispara em 2025, mesmo com queda nas operações

|

Região com 13 municípios foi alvo de 5.298 operações policiais em cinco anos, segundo pesquisa; 282 pessoas foram mortas