Buscar
Nota

Tarifaço: O que é a Seção 301 que os EUA de Trump vêm usando contra o Brasil há décadas?

2 de junho de 2026
18:43
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A ideia de que os Estados Unidos podem intervir em outras nações para garantir os interesses das empresas norte-americanas não é uma novidade. Nem para Donald Trump nem para a indústria brasileira. 

Uma demonstração disso foi a conclusão do governo norte-americano, divulgada nesta segunda-feira, 1º de junho, de uma investigação sobre o Brasil que propõe uma nova tarifa de 25% sobre os bens importados do país. A alegação é que o Brasil teria políticas e práticas comerciais injustas que iriam contra os interesses de organizações, serviços e produtos norte-americanos.

A imposição ou não da tarifa será decidida pelo presidente Donald Trump, que tem até 15 de julho para publicar a versão final do relatório do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), órgão que realizou a investigação a pedido do presidente dos Estados Unidos.  

Seja agora, ou no tarifaço de 50% que chegou a ser aplicado pelo republicano ao Brasil, em agosto do ano passado e revertido pelo governo brasileiro, ou seja na penalização de 100% que parte da indústria nacional enfrentou há quase 40 anos, o dispositivo legal usado nas três ocasiões foi o mesmo: a seção 301 da Lei do Comércio de 1974, criada pelo Congresso dos Estados Unidos. 

O objetivo, todas as vezes, foi redefinir os tratados comerciais com o Brasil. A lei prevê que retaliações comerciais sejam impostas unilateralmente para coibir “práticas comerciais desleais”, de outros países, consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos. A justificativa dos Estados Unidos seria trocar a lógica do livre comércio (free trade) pelo comércio justo (fair trade).

Justo para quem?

A primeira retaliação ao Brasil, com base na seção 301, ocorreu entre 1988 e 1991. Empresas de tecnologia como a Apple e, em especial, a indústria farmacêutica, estiveram nos bastidores da decisão de taxar em 100% os produtos brasileiros que entravam nos EUA. Já em agosto de 2025, como já mostrou a Agência Pública, as cordas estavam sendo puxadas pelas big techs. Agora, entre diversos fatores econômicos e políticos, as empresas norte-americanas de cartão de crédito aparecem entre as interessadas, já que um dos mecanismos mais citados no relatório do USTR, entre aqueles considerados “injustos”, está o PIX brasileiro.

Computadores e remédios: o primeiro – e maior – tarifaço

Na base do tarifaço de 100% sofrido pelo Brasil em 1988 estão dois bisavôs brasileiros de nossos notebooks pessoais: o Unitron AP II e MAC-512. Os projetos apresentados pela empresa Unitron Eletrônica à antiga Secretaria Especial de Informática (SEI), entre 1982 e 1985, fez a Apple acionar o governo norte-americano por ações contra o Brasil.

A revolta era justificada já que a empresa brasileira alterava os modelos que tinham licença para produzir. Algumas versões adicionavam formas de acentuação que fariam sentido em português, mas não no inglês. Até hoje este é conhecido como um dos primeiros casos de clones da Apple no mundo. E por que a empresa não produzia ela mesma os Macs da época? Por que a Política Nacional de Informática no Brasil proibia a fabricação de computadores estrangeiros justamente para desenvolver a indústria nacional. O mesmo valia para importações.

Os Estados Unidos, então, abriram em 1987 uma investigação contra a prática comercial brasileira e incluíram o país na lista “Special 301” de “observação prioritária”. Soa familiar?

O tarifaço passou a valer um ano depois, após a indústria farmacêutica se juntar ao coro. O “problema”, de fato, era que o Brasil integrava as nações que não reconheciam patentes para medicamentos – o direito legal de explorar exclusivamente alguma substância descoberta, atualmente estabelecido em 20 anos.

O tarifaço dos anos 80 só foi suspenso após um compromisso público do recém-eleito presidente Fernando Collor de Melo, em 26 de junho de 1990, quando a investigação promovida pelos EUA também foi encerrada, já na era George Bush (o pai).

Revertido, tarifaço de 2025 chegava a 50% 

Um novo tarifaço aos produtos brasileiros só voltaria a ocorrer em agosto do ano passado. 

Na época, os EUA representavam cerca de 4% de todas as exportações brasileiras, ou aproximadamente 2% do PIB (produto interno bruto) do Brasil. Café, calçados, carne bovina, tecidos e frutas (exceto laranja e seu suco) estavam entre os 3,8 mil produtos que passaram a ser alvos do tarifaço de 50%.

Essa, entretanto, não era a totalidade da exportação feita pelo Brasil aos EUA naquela época. As cobranças consideravam 35,9% das mercadorias exportadas (que representavam 44,6% do valor total das vendas). Ou seja, metade do que o país vendia aos norte-americanos continuou na regra dos 10% impostos globalmente pelo governo Trump. Entre os produtos, alguns de alto valor, 694 ficaram de fora da cobrança de 50% determinada pela Casa Branca.

Por meio de negociações bilaterais, as principais taxas impostas em 2025 caíram, via decreto do presidente Donald Trump, em novembro daquele ano. A maioria dos produtos, cerca de 200 itens, eram agrícolas, entre eles carne, café e alguns fertilizantes à base de amônia. 

Edição:

Notas mais recentes

Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos


Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Leia também

Brasil foi taxado pelos EUA em 100% há 40 anos e Trump já usava mesmo discurso

|

Tarifaço em vigência é baseado na seção 301 da lei estadunidense, a mesma que fez Brasil ser taxado em 100% em 1988

Como chegamos até aqui? A aliança de Eduardo Bolsonaro com Trump que pavimentou o tarifaço

|

Família Bolsonaro atua há anos junto à direita dos EUA contra sistema eleitoral do Brasil, STF e, agora, pró-tarifas

Notas mais recentes

Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos


Últimas pesquisas e fim da propaganda eleitoral marcam semana antes do primeiro turno


Paulo Gonet segue no caso Master após decisão do Conselho do Ministério Público Federal


Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE


Leia também

Brasil foi taxado pelos EUA em 100% há 40 anos e Trump já usava mesmo discurso


Como chegamos até aqui? A aliança de Eduardo Bolsonaro com Trump que pavimentou o tarifaço


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

A “bancada” anti-indígena que vai às urnas neste domingo

|

Levantamento mostra que 370 parlamentares fizeram propostas negativas para indígenas; 270 deles disputam reeleição
O ex-senador Eduardo Suplicy é detido em reintegração de posse próximo a Cohab Educandário

Levantamento aponta um caso de violência política a cada 37 horas durante campanha de 2026

|

Monitoramento exclusivo da Pública por 17 dias chegou a 11 casos cujos agressores são, na maioria, agentes de segurança

Dos clubes de tiro ao poder: segmento de armas injeta mais de R$ 1,2 milhão nas eleições

|

Empresários do setor doaram para 96 candidatos – PL, Republicanos e Novo lideram recebimento de recursos
Visita à Heritage Foundation de Sérgio Sant'Ana e Eduardo Bolsonaro

Empresário que fundou Instituto com Eduardo Bolsonaro presta serviço para campanhas

|

Empresa de Sérgio Sant’Anna recebeu R$340 mil; empresário diz que ICL está “inativo” e que se afastou do ex-deputado
O senador Flávio Bolsonaro, durante sessão da Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado

Flávio Bolsonaro, os hospitais federais e a pandemia de Covid no Rio de Janeiro

|

Contratos superfaturados, demissões e hospitais sucateados: como Flávio influenciou a saúde do Rio no governo do pai
Ex-jogador da seleção brasileira de basquete dos anos 1980 Nilo Guimarães. Ele foi secretário de esportes de Mogi da Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, por 12 anos (2009-2020).

Empresa de ex-secretário de Esportes de Mogi recebeu dinheiro de emenda Pix de Mario Frias

|

Sócio de Nilo Guimarães na Pulsa Uniformes diz que material foi entregue, mas não envia comprovação

A execução de Davi Sebba e a teia de policiais que Goiás levou 14 anos para julgar

|

Letalidade policial quase triplicou em 2012, ano do crime; governador era Marconi Perillo, candidato ao cargo em 2026

Investigação e processos criminais: o rastro legal dos deputados da Comissão de Segurança

|

CSPCCO: 12 deputados ligados a forças de segurança foram parte em procedimentos criminais, que vão de calúnia a agressão
Rio de Janeiro (RJ), 08/03/2023 - Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminicídio

Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva

|

Levantamento em oito estados mostra que mulheres morrem desprotegidas; recurso jurídico é alternativa para evitar crime

Nossa Senhora Aparecida vira evento eleitoral e aprofunda crise entre ministros do STF

|

Monitoramento mostra que debate nas redes ultrapassou boato inicial e passa de 12 milhões de interações em poucos dias